segunda-feira, 20 de abril de 2020

A Gravidez de Isabela: Prólogo

"Abençoe-me, padre, porque pequei", rogou a voz maculada.

"A benção de Deus esteja sobre ti", respondeu quiescente. Através da tela do confessionário, viu a silhueta de uma jovem moça, "há quanto tempo não confessa, filha?", inquiriu serenamente.

"... há um ano, padre".

"E como está a sua fé? Tem se aproximado de Deus?", afagou o livro sagrado em suas mãos.

"Não tenho rezado com frequência ultimamente, m-mas rezei antes de vir aqui", titubeou, "para que tudo desse certo. Pedi perdão a Deus pelos meus pecados", disse aflita.

"Está nervosa? Não se preocupe, tudo vai dar certo. O que gostaria de confessar para mim e para Deus?".

"Eu...", hesitou, "perdi a virgindade. Durante os últimos meses, tenho tido relações sexuais com meu namorado", respondeu.

"Todos nós somos pecadores", confortou o padre, "Deus te ama, mesmo tendo pecado. O que realmente importa é que está aqui, pedindo para que o Pai purifique-lhe a alma e coração. Mas lembre-se que sexo antes do casamento é pecado e não o faça de novo".

O padre sentiu o conflito taciturno da moça.

"Pouco adianta confessar seus pecados se não vai tentar findá-los", alertou amigavelmente.

"Sim, padre, eu sei", engoliu em seco.

"Ele compartilha da nossa fé?"

"... não".

"Já explicou para ele que isso é errado, de acordo com as suas crenças?"

"Já. Ele... tentou ser o mais sensato e compreensível o possível, mas", pausou, "disse que um relacionamento sem momentos íntimos não é saudável. Para falar a verdade, todas as pessoas próximas a mim, a quem pedi conselhos, disseram a mesma coisa".

"Já pensaram em se casar?", sugeriu, "assim, poderá relacionar-se sexualmente sem pecar. Gosta dele, não é?"

"Sim, o amo", respondeu calorosamente, "mas... ele ainda não me propôs", disse desgostosa.

"Isso não é problema. Não precisam ter pressa. Somente estou tentando guiá-la à melhor solução de acordo com a vontade de Deus"

"Os seus conselhos são muito bem-vindos. Pra falar a verdade, são justamente o que preciso agora", a frugalidade na voz dela amolecia o coração do padre.

"Há quanto tempo estão juntos?"

"Seis meses"

"E nunca falaram em casamento?"

"Já. Uma vez. Perguntei se queria se casar algum dia. O rosto dele ficou pálido e me disse que ainda não pensa nisso porque é muito jovem. Depois, nunca mais falamos a respeito. Eu não quero... assustá-lo. Quero casar-me com ele no futuro. Na verdade, o faria agora, se fosse possível"

"Ele ainda não entende, seja por imaturidade ou por medo. Com o tempo, perceberá que o comprometimento é inevitável, assim como várias outras coisas na vida. É seu dever, como sua companheira, ajudá-lo a enxergar, e é dever dele aprender. Com calma, chegarão lá juntos. Mas até então, abstenha-se do sexo", respondeu, "até casarem", sentiu que tais palavras pouco confortaram-na.

"Meus medos residem na jornada até o casamento, e não no casamento em si, padre"

"Entendi. Parece-me ser um boa garota, e tenho certeza de que escolheu um rapaz decente. Ele deve querer casar no futuro. Afinal, um bom arqueiro nunca retira uma flecha da aljava sem a intenção de acertar o alvo. Minha sugestão é: peça que ele tenha paciência e que seja compreensivo. Caso realmente sinta algo especial por você, vai entender... e vai aguardar"

"Muito obrigada, padre", a angústia dela persistiu, apesar de se esforçar para não demonstrá-la.

"Teme perdê-lo?", perguntou. Mas já sabia a resposta.

"Sim...", emitiu um longo e lento suspiro, "peço desculpas", censurou-se, "estou tomando muito do seu tempo. Já me ajudou muito"

"Não se preocupe, filha. Estou aqui para orientá-la. É a vontade de Jesus Cristo vê-la feliz"

"Eu... me sinto muito feliz com ele; como nunca me senti antes. Quero que dê certo, caso contrário... perdi minha castidade em vão"

"Filha", limpou a testa com o lenço que carregava no bolso. Fazia calor ali dentro, especialmente trajando vestes de sacerdote, "como você disse que quer o meu conselho, dá-lo-ei de maneira sincera e direta".

Ela retesou-se por completo, como se fosse receber a mais soturna das notícias.

"Você cometeu um erro. Deveria ter pensado nas consequências que a fornicação traria para você como cristã. Agora, guarde-se para alguém com quem passará o resto dos dias ao lado, alguém com quem tornar-se-á uma só carne através do matrimônio. Se for esse rapaz, ótimo. Caso contrário, pelo menos terá se preservado. Mas lembre-se: fornicar é um pecado tão grave quanto o adultério. Sei que isso soa antiquado, mas é o que a Bíblia diz. E os sábios recorrem à Palavra do Senhor, pois ali está o caminho para a verdadeira liberdade, ao passo que os tolos permitem-se tornar escravos do próprio coração."

"Então devo ignorar o que meu coração diz?", indagou, "Não é dali que vem o amor? O que duas pessoas casadas sentem é, de alguma forma, mais digno que o que essas mesmas pessoas sentiam anteriormente ao matrimônio? Então casaram-se sem amar? Isso não é errado?", ela perguntou humildemente, "Sei que fornicação é pecado, mas não é dito em Provérbios que o amor cobre todos os pecados? Não se diz em Colossenses que o amor é o elo perfeito? Não está escrito em João que quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor? Não se lê em Coríntios que o amor é maior até mesmo do que a própria fé?", inquiriu desorientada, "Peço desculpas pelos questionamentos, padre. Eu os faço por desconhecimento, não por arrogância. Quero descobrir as respostas. É porque... eu o amo. Com todas as minhas forças. E ele me ama. E quando estamos juntos... tornamo-nos uma só carne também. Como isso pode ser comparado ao adultério?"

"Sente-se perdida", pensou.

"Eu entendo seus questionamentos", disse serenamente, "a Bíblia pode ser um verdadeiro labirinto para aventureiros que não levam consigo uma bússola. Quero que preste atenção no que direi agora", limpou a testa novamente. Continuou:

"O sentimento que tem atualmente por esse rapaz pouco importa, assim como o que ele tem por você", ela sobressaltou com o que o padre disse, estarrecida. Mas ele continuou: "É apenas uma paixão, algo meramente físico e efêmero. Com o tempo, irá desvanecer, assim como todas as coisas neste mundo sensível no qual nos encontramos. Sei como se sente, pois também já fui um jovem apaixonado. Porém, o único elo que os conecta não pode ser somente o carnal. Na verdade, esse é o que menos importa, se é que algum valor lhe é predicado. Vocês tem que almejar algo superior. Devem buscar construir uma profunda admiração mútua. Essa seria quase comparável ao amor que Deus sente por nós, aquele descrito no capítulo 13 de Coríntios, que citou agora há pouco. Mas você trilhou pelo labirinto desse livro sem uma bússola e se perdeu, pois o amor lá descrito é algo que transcende o nosso mundo da forma e dos sentidos para muito além. Tal admiração mútua iria inspirá-los a se desenvolver como pessoas e indivíduos. Já ouviu falar que amar é aceitar seu companheiro da forma que ele é?"

"Sim", respondeu embevecida.

"Baboseira. Alguém conformado com o seu ser atual é tolo ou arrogante em demasia. Você e ele devem aprender um com o outro porque veem no companheiro algo que querem incorporar para sí; uma qualidade que ainda não tem, mas podem ter. Vocês tem que melhorar sempre; se transformar juntos, pois somente assim são mais belos e mais nobres. Somente juntos, somente unidos. Da mesma forma que os derradeiros raios do pôr do sol se unem com as nuvens no epílogo da tarde, concebendo uma arte egrégia que adorna o céu, para a contemplação de todos", lembrou-se dela, e as palavras afloraram dentro de si como graciosas dálias durante a primavera, "esse deve ser o objetivo de vocês como casal: buscar o amor verdadeiro, que é quase tão gratificante e puro quanto o de Deus. Não é fácil consegui-lo; é como um tesouro protegido por um dragão, que se esconde nos abismos de uma caverna escura e pavorosa. Terão que batalhar lado a lado para chegar lá e enfrentarão todos os tipos de obstáculos externos e internos, pois é durante a contenda que as nossas fraquezas e defeitos nos assombram impiedosamente. Porém, tudo isso vale a pena, filha", seus olhos pesaram, carregados, "Afinal, nada que é bom e digno se consegue sem esforço, e o amor não é uma excessão. É impossível obter a recompensa que jaz na toca do dragão sem antes enfrentá-lo. E ele erguer-se-á pavorosamente diante de vocês como um titã invencível, fazendo-os sentirem-se ínfimos, frágeis e frívolos; cuspirá mentiras que os queimarão de dentro para fora e causará discórdia e destruição ao bater as asas colossais. Várias pessoas fogem, pois têm medo. Quem não teria? Ao invés de enfrentá-lo, deixam o monstro destruir-lhes as vidas, trazendo caos, dor e pecado, não somente para sí, mas para todos ao redor. Entretanto, se tiverem fé em Deus e fé um no outro, permanecerão instransponíveis e o derrotarão juntos. Sempre juntos. Como se um só fossem. Depois, a recompensa mais hirática pertencerá a vós. Lá, no ventre da caverna, será concebido o fruto sagrado, presente do Criador, pois são merecedores deste, e não porque fornicaram, como criaturas escravas dos próprios desejos. E nada terá sido em vão. Garanto-lhe, filha", ele parou por um momento, sentindo a emoção de cada frase acumular-se-lhe nos olhos. Uma silenciosa lágrima rolou-lhe rosto abaixo. Limpou com o lenço.

"Padre...", disse atônita, "e-eu...", gaguejou, "não sei o que dizer", fungou, "... obrigada. Muito obrigada", fungou novamente.

"Fico feliz em ajudá-la. Agora repita comigo: Senhor Jesus, Cordeiro de Deus", ela repetiu palavra por palavra, frase por frase, "que tiras o pecado do mundo, reconcilia-me com o Pai pela graça do Espírito Santo; purifica-me de todos meus pecados e faz de mim uma mulher nova. Amém".

"Sua penitência", continuou o padre, "é rezar o Pai Nosso e Ave Maria. Ademais, lembre-se de ler a Bíblia diariamente para se aproximar de Deus"

"Irei fazê-lo", respondeu. Depois, agradeceu afetuosamente.

"O Senhor perdoou teus pecados. Ide em paz", abençoou-a e desenhou no ar o sinal da cruz com a mão direita.

Ela saiu do confessionário, e o padre desabou a chorar em silêncio. O mais doloroso dos lamentos. Recompôs-se o mais rápido possível, usando o lenço para limpar as lágrimas persistentes. Rezou o Pai Nosso e Ave Maria como penitência imposta a si mesmo. Então, sentiu-se mais calmo.

Ouviu o som de pesados joelhos dobrando-se sobre a madeira do outro lado do confessionário. Uma grande silhueta apareceu através da tela.

"Ave Maria puríssima", disse enquanto repetia o sinal de cruz com a mão direita. Aguardou a conclusão da frase, mas recebeu apenas o silêncio em resposta.

"Não deve ter costume de fazer isso", pensou. Deu continuidade:

"O que gostaria de confessar para mim e para Deus?"

Sua pergunta pairou solitária no ar.

"Está nervoso? Acalme-se. Não está aqui para ser julgado. Está aqui para se abrir perante Deus"

A madeira do genuflexório estalou. A imagem do indivíduo, transformada em um esboço irregular pelos tênues feixos de luz que atravessavam a tela do confessionário, permaneceu imóvel... o ar pesou ali dentro.

"Tudo bem. Está tudo bem. Tome seu tempo, filho. Estarei aqui, aguardando-o"

Outro rangido foi emitido, desta vez mais agudo e irregular... e desconfortável. E a silhueta dele continuava imóvel.

"Consegue me ouvir?", o padre perguntou. Levantou-se e abriu lentamente a cortina que o impedia de ver além do confessionário. Saiu dali e foi investigar o genuflexório...

Ninguém estava ali.

O padre engoliu em seco. Um silêncio desconfortável pairava no ar. Sentiu-se inquieto.

"Hora de ir para casa descansar."

Dirigiu-se ao vestiário para trocar de roupa. A igreja estava deserta, e cada passo reverberava profundamente por ali. Os sacros desenhos e adornamentos angelicais que santificavam as paredes do local eram a sua única companhia; imaculados anjos com longas e belas asas estavam por todos os lados, voando por entre harmoniosas nuvens e admirando a imagem Dele, lá em cima, soberano e grandioso. Entre túnicas albugíneas, Ele tinha os braços abertos, e uma luz branca emanava-lhe do rosto, sendo impossível vê-lo. Logo abaixo, ficava uma grande cruz marrom. Nela, repousava o filho de Deus, crucificado. Com os olhos fechados e com a coroa de espinhos na cabeça, trajava uma trouxa estafada, que cobria-lhe apenas as partes íntimas. Encontrava-se-lhe uma mulher agaichada aos pés, envergando dalmáticas negras de linho. Lastimando, ela olhava para cima, para seu filho. No corredor que o levava ao vestiário, havia outra pintura da mesma mulher na parede, mas desta vez, ostentava vestes azuis e brancas. Ela segurava um bebê, envolvido por panos, e sorria. Tinha o olhar fixo nele, o pequeno e sagrado fruto de seu ventre. Auréolas contornavam-lhes as cabeças.

No vestiário, retirou a batina. Instantaneamente, um frio arrepiante penetrou-lhe a pele. Esfregou as mãos e os braços, e colocou rapidamente a camisa e a jaqueta que deixara dentro do armário. Viu o sol se pondo, pequeno, turvo e distante, pela pequena janela que ali havia. Estava escurecendo, e o sentimento de desconforto que o padre sentia se intensificou, assim como o frio. Queria sair dali logo.

"Aqui é a casa de Deus, Gabriel. Acalme-se!", disse para si mesmo.

Pegou-lhe os objetos pessoais e a chave do carro, pronto para partir. Fez o máximo para manter a calma, a despeito dos calafrios que retesavam-lhe os pelos do corpo. Saiu do vestiário, com a Bíblia sagrada em mãos...

O breu apoderava-se do corredor, e mal conseguia enxergar. Via apenas o rosto pálido da Mãe na parede, a poucos passos de distância, flutuando na escuridão. Acelerou-se-lhe a respiração, assim como os batimentos do coração, e os passos que dava ecoavam solitários pela igreja. Ligou a lanterna do celular e iluminou o retrato.

Tinha feições tristes e chorava. Trajava túnicas pretas, e em seus braços, por entre os panos, um profundo breu. Gabriel desviou os olhos, mas foi surpreso por uma pintura logo ao lado que anteriormente não estava ali: uma criatura serpentina colossal, com grandes asas que rasgavam o céu vermelho. Tinha vários chifres e cabeças, e uma mandíbula cheia de dentes. Cuspia labaredas em direção à terra, completamente desolada pelo fogo. Ao examinar mais de perto, viu uma mulher engolfada nas chamas da criatura. Desesperada, erguia a mão para outra pessoa, pedindo ajuda. Esta, fugia. Arrepios desceram-lhe pela espinha dorsal; lágrimas acumularam-se-lhe nos olhos. Acelerou os passos.

"Embora. Tenho que ir embora. Mantenha-se calmo", apertou a Bíblia contra o peito.

Ao chegar no transepto, evitou olhar para as paredes. Manteve o foco na porta de saída. Viu o vapor da própria respiração espalhar-se pelo ar gélido à sua frente. Estremeciam-lhe os braços e pernas, mas continuou andando. Então, escutou algo gotejando. Por instinto e reflexo, olhou... o filho Dele estava nu na cruz. Algo escuro escorria-lhe pelo corpo, e a mulher abaixo dele perfurava-lhe as costelas com uma lança. Sangue jorrava do ferimento. Acima da cruz, escuridão profunda. Amedrontado, virou-se rapidamente em direção à saída. Estava quase lá. Quase.

"Ajude-me, padre...", disse o sussurro irregular atrás de si. Recusou-se a olhar. Caminhou mais rápido.

"Gabriel, ajude-me...", sussurrou novamente a voz feminina. Não olhou.

Quase lá. Só mais um pouco. Aproximou-se da porta, e viu no canto do olho esquerdo, fora de foco, o esboço do confessionário. Ao lado, no genuflexório... algo se ajoelhava em meio à escuridão. Fechou os olhos, assutado. Agora, corria para a porta de saída. Ouviu passos pesados e rápidos seguirem-no agressivamente, "TUM, TUM, TUM!"; uma gélida respiração queimou-lhe a nuca, e então... saiu da igreja. Abriu os olhos e disparou em direção ao carro. Tirou a chave do bolso com dificuldades, pois sua mão tremia muito. Abriu a porta, entrou no carro, colocou a Bíblia no banco de passageiros, deu partida e saiu dali.

"Meu Deus! Meu Deus!", disse ofegante. O coração palpitava-lhe tão rápido que pensou que iria rasgar o peito. Pensou em Deus e em Jesus Cristo. Rezou. Acalmou-se. Enquanto dirigia em direção à sua casa, pensou no que acontecera.

"Voltou para me assombrar", o desespero quase se apoderou dele novamente. Respirou fundo, e dirigiu pela escuridão da noite. Eram sete horas, e não havia carros nas ruas ou luzes acesas nos prédios. Passou por várias lojas, mas todas estavam vazias. Abertas, porém vazias. E engolidas pelo breu. Ligou o aquecedor do carro. Apesar de estar de jaqueta, tremia de frio. Seguiu conduzindo o volante, ansioso para chegar à sua residência. Viu um parque, mas ali ninguém se exercitava ou caminhava com cachorros. Apenas as árvores estavam ali, altas e misteriosas, escondidas em meio às sombras tenebrosas. Por um momento, viu algo mover-se sorrateiramente por entre as plantas do parque, mas não sabia se era real ou se era apenas a imaginação pregando-lhe peças.

"Foi um animal... apenas um animal..."

Também não ouviu nada, sequer barulhos distantes de gatos, cachorros ou motos. Ligou o rádio, mas tudo que escutou foi a cacofonia da interferência. Nenhuma estação funcionou. Desligou a mídia e continuou dirigindo, sem ver uma alma viva. Passou por debaixo de um viaduto, e ali as sombras o engoliram por completo. Suaram-lhe as mãos excessivamente no volante...
Finalmente, emergiu do viaduto, mas a densa escuridão persistiu. Decidiu ligar o farol alto... enxergou algo no meio da avenida. Algo distante. O rádio ligou, e uma voz grave e calma recitou:

"E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça", a interferência ocultou a voz do falante.

Aproximou-se, mas não o suficiente para desvendar o que era aquilo na rua.

"E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz", narrou a grave voz vindo do rádio.

Finalmente, o padre entendeu o que era. Uma mulher. Provavelmente uma moradora de rua.

"E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas", disse mais alto.

Então... chegou perto; perto o suficiente. E viu. Viu aquilo que o assombrou e o assombraria eternamente. Aquilo que o fez e o faria ter os mais demoníacos dos pesadelos. Aquilo que abalou e abalaria novamente a sua fé...

"E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus", recitou mais alto ainda.

Deformada. Torturada. Corcunda. Nua. Grávida. Sem cabelo. Tinha toda a pele do corpo queimada. E gritava. Implorava ajuda. Estendia a mão para Gabriel. Mas ele sabia que ela não estava lá.

"E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele", gritou.

Ass: Wally