Enclausurado pelo tempo em minha própria teia de soluções ineficazes para problemas fictícios, foi assim que me senti.
A liberdade em fim surgiu, explodiu em minha mente como o ópio, dentro de uma casa de festas para crianças em uma festa a fantasia em uma noite de sexta-feira.
Era aniversário de catorze anos de uma amiga e meus amigos insistiram pra que eu fosse.Ninguém tinha fantasia, nem se preocupou em arranjar, fomos de cowboy, empresário, mendigo e "neo".Eu era o neo.A propósito a única diferença entre eu e meu colega empresário era o gel no cabelo e o óculos escuro pois o terno que ele usava e o que me emprestou não pareciam ter lá suas diferenças a um primeiro olhar meio desatento.
Apesar de não ter importância nenhuma aparente julgo relevante explicar que estava fantasiado de Neo, do matrix, o filme lembra?
Havia uma pista de dança e uma roda bem grande com um monte de garotos e garotas se divertindo e lá também estava eu.Tocava umas músicas tão legais que até hoje nunca vi iguais.Não que elas fossem sensacionais, mas eu estava fascinado pela novidade e a novidade sempre parece melhor ao costume.
Ao meu lado tinha uma menina vestida de princesa ou sei lá o que era aquela fantasia, tão pouco isso importa agora, ao lado dela uma vestida de bruxa e do meu outro lado meu amigo cowboy.A gente se paquerou por uns minutos: nós quatro, formando dois belos casais, entreolhando-se sem dizer nada ao som daquelas músicas de funk e dançando meio com a intenção de insinuar meio com a intenção de se resguardar.
Foi quando uma sensação muito boa se apoderou de mim, em fim descarreguei todo medo e toda insegurança e tudo que me prendia a meu velho mundo.Senti-me feliz e pude em fim fazer o que já queria ter feito há muito tempo.
Falei ao ouvido da princesa: "você é muito bonita" ela me respondeu com gestos como quem quer dizer que não entendeu nada, comecei a rir.Ela também.
Romântico, bem romântico, a cara dos filmes.Mas é uma pena que na vida real as coisas sejam um pouco diferentes da ficção.Na ficção as cantadas sempre dão certo independente do seu grau de seriedade ou de ridicularidade, sempre parecem agradáveis aos ouvidos da garota.
Estava eu tomando coragem pra mais uma tentativa quando a bruxa falou algo no ouvido da princesa e dessa vez ela pareceu ter entendido.Imediatamente as duas saíram sem ao menos se despedir e fiquei ali, eu e meu amigo, ambos sem entender o porquê do fracasso.
"É, meu amigo..." ele disse "as coisas não são tão fáceis assim eu já estou nessa de tentar há algum tempo".
Eu ainda não entendia nada dessa vida de tentar e de não conseguir e muito menos de conseguir esse era oficialmente meu primeiro fora.Mas é claro que eu não iria desistir a essa altura.
Algum tempo depois a dona da festa chamou a gente pra tirar algumas fotos e depois pra subir uma escadinha que dava em um sotãozinho onde estavam guardados todos os presentes.
Ela era bonita: morena, alta, olhos castanhos, cabelo ondulado, belo corpo (até avançado pra meninas de oitava série).E sempre havia me tratado muito bem, havia quem dissesse que eu e ela nos gostávamos, mas eu sei lá nessa época ainda não havia formulado bem os meus sentimentos.
A gente estudava na mesma sala desde o começo do ano, mas de umas semanas até esse dia as coisas haviam mudado bastante.Vou explicar como eu acho que as coisas aconteceram:
Deve soar estranho aos ouvidos de vocês porque hoje as crianças já rebolam na boquinha da garrafa aos sete anos de idade incompletos e na minha época não era tão diferente disso, mas eu fui criado em um lar extremamente tradicional.Mamãe era evangélica da igreja presbiteriana e me criara a ferro e fogo.
Até os catorze anos a minha vida se resumia a futebol e igreja: no recreio eu jogava bola, a tarde jogava com os meninos mais novos e a noite com os mais velhos, nos dias em que eles permitiam lá na quadra do prédio onde morava.Não importava em chegar suado na sala de aula depois do recreio, a vida literalmente era futebol, futebol e futebol.E nos domingos eu ia a igreja com a mamãe.Era apenas isso e mais nada, nada que fugisse ao tradicional ou ao inocente.
Até que um dia por ocasião de trabalho em grupo comecei a conversar com duas meninas lá da sala e aí a amizade foi crescendo e coincidentemente a Internet caminhava para a inclusão digital e então eu pude descobrir o "msn" e o "flogão".
Percebi rápido que as garotas gostavam de elogios e passei a comentar diariamente nos fotologs de minhas amigas e aí o relacionamento se estreitava pra sala de aula e eu acabava por me tornar cada vez mais entrosado com elas.
Mudei de grupinho.Não que eu tivesse abandonado os antigos amigos, mas acabei descobrindo que era bom ter amizade com as garotas e aos poucos fui me integrando a elas, junto com meu amigo empresário que também tinha participado daquele trabalho em grupo onde a gente pode conhecê-las melhor.E todos os dias eu e ele comentávamos e até dialogávamos em elogios para as lindas fotos que as garotas postavam em seus fotologs.
Abdiquei do futebol no recreio pra ficar mais cheiroso pra elas e comecei a me sentir atraído sei lá não posso dizer que gostava de uma ou outra pois como já disse naquela época eu ainda não havia organizado muito bem meus sentimentos.
Naquele momento estava uma delas a minha frente sentada naquele sofazinho do lado da caixa de presentes com um vestido vermelho, olhei ao meu redor e não tinha mais ninguém além de nós dois.Fiquei tão perdido em meus pensamentos que nem percebi que meus amigos haviam ido em bora.
Ela então perguntou "dormiu?"."Não" respondi, "se quiser pode deitar nesse sofazinho aqui comigo eu também estou morta de cansaço".Talvez pela pura intuição ou por um conhecimento prévio de minha história ela já soubesse que era minha primeira festa ou talvez fosse apenas uma maneira de ser educada ou talvez ela estivesse querendo que eu me sentasse ao seu lado quem sabe não era uma cantada?
Na confusão de pensamentos acabei por não decidir nada e em um ato involuntário me levantei e então me dei conta de que precisava me sentar ao lado dela ou me despedir e voltar pra festa, fazer qualquer coisa menos ficar ali em pé.
Sentei-me ao lado dela.Aos poucos estávamos encostados um no outro sem dizer nada e eu já podia sentir aquela excitação boa que não tem nada a ver com sexo, mas com alegria.
A gente começou a se pegar e de repente estávamos nos beijando e permanecemos ali por alguns minutos.
Era Outubro, fim de ano, fim de festa, fim de colégio.Iríamos nos formar no ensino fundamental e a maioria ia mudar de escola e quase ninguém ia pra mesma escola e então aquilo tudo acabaria pra sempre.
O tempo levaria todas as recordações e em alguns anos seríamos capazes de esbarrar na rua com um daqueles queridos colegas e nem se quer lembrar ou até mesmo lembrar e fingir que não lembrou para não ter de cumprimentar com falsa alegria a quem já perdeu a intimidade há muito tempo.
ass: Chaves
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