domingo, 29 de novembro de 2015

Village Mississipe [part 2]

"Muitas vezes as pessoas chegam ao final e encontram a felicidade, mas não percebem,
pois estavam cegas em sua paixão e por não conseguirem o que tanto queriam no início
da floresta- labirinto passam a desprezar tudo o que vem pela frente. É o chamado prêmio
de consolação, a maioria das pessoas é feliz, mas considera a felicidade apenas um mero
prêmio de consolação." A teoria do prêmio de consolação

 Algum tempo se passou e as coisas mudaram. O filho de Ben Afleck e Rosemund Pike nasceu,
é uma criança linda e calma como o pai, só chora mesmo para mamar, é um bêbe adorável
que de vez em quando aparece em fotos no istagram da titia e do titio, irmãos do Ben Afleck
e vai a igreja todos os domingos com a vovó.
 O bêbe mora com a mãe, mas quase todos os dias ela o deixa na casa do Ben Afleck pra ir trabalhar,
ele acaba ficando por lá a maior parte do tempo. Na prática ele vive com o pai. Ben Afleck aparentemente
é o melhor pai do mundo, sua forma de amar o bebezinho não condiz com o ódio que sentia no fim do
primeiro filme.
 Pra começar isso já é estranho, o clima desse filme é muito estranho na verdade, pois da uma impressão
de que as coisas se resolveram muito facilmente e de uma maneira bastante simples. A Rosemund Pike,
está extremamente humilde, educada e principalmente amável nesse filme, ela trata o Ben Afleck com um afeto que
causa estranheza.
 Os primeiros 20 minutos de filme desconstroem completamente a premissa criada no primeiro. Fica a impressão
de que se eles ainda não estão vivendo um romance, isso vai acontecer a qualquer momento. Soa falso. A sensação
que fica é a de que: ou eles enganaram a gente no primeiro filme ou tem alguma coisa muito errada acontecendo.
E você se pergunta, o que foi que aconteceu? Por que diabos, eles estão juntos?

 De repente uma sena de sexo, extremamente forte, no real sentido da palavra, não é um sexo bonitinho ou
um amor, é forte mesmo, pega o público desprevenido, mas não é de graça, na verdade é a única coisa
que parece verdadeira até então e diz muito sobre o relacionamento dos dois.
 Na sequência um flash back que oferece uma explicação ao público: Rosemund Pike conta ao Ben Afleck
que desenvolveu uma espécie de depressão na gravidez, talvez por causa dos hormônios, cumulado com os
problemas e a rejeição, passou a tomar nojo da cara das pessoas. É uma explicação simples, porém satisfatória,
soa como uma espécie de auto defesa, antes de ser julgada e odiada, ela odiava primeiro. Diz a ele, que se
arrepende por o ter magoado e que se pudesse voltar no tempo faria de tudo pra não perdê-lo e que o ama,
e que sente sua falta. Em fim, estão juntos de novo.

 Passado essa primeira parte, o filme passa a contar sua história. Até então, o filme executou um trabalho
excelente em carregar o mistério e a curiosidade dos expectadores, mas a partir desse momento, a história
muda de foco, o que parecia falso, agora passa a fazer completo sentido. Rosemund Pike, ao contrário do
filme anterior não carrega várias camadas, não passa em momento algum a ideia de ambiguidade ou de que guarda
segredo, pelo contrário: se mostra uma mãe afetuosa, guerreira trabalhadora e uma namorada exemplar, que
demonstra mais carinho do que deveria, talvez pra compensar o sofrimento que causou ao namorado nos últimos
9 meses. No entanto, quem guarda segredos nesse filme é o Ben Afleck.

 Falta uma semana pra se formar no curso de Direito. A formatura é o marco divisor, a todo o instante o Ben
Afleck deixa claro que depois da formatura as coisas vão mudar. Você tem de se lembrar do primeiro filme,
de como o Ben Afleck esteve na merda: de que passou metade do ano sem carro, de que quase não tinha dinheiro
pra ônibus e que de vez em quando, quando conseguia uma verba pro transporte, acabava mesmo assim indo a pé
pra faculdade pra economizar e tomar cerveja barata no fim de semana. Tem de se lembrar de que ele foi
abandonado por todo mundo que amava, família e namorada e que teve de encontrar forças num sei a onde para
vencer. De que ele sozinho, estudando sem livros, pelo you tube conseguiu passar na prova da ordem e agora
estava a uma semana de se formar.

 É claro que ele não engoliu essa desculpa da Rosemund Pike. É o que você pensa, mas na verdade ele
engoliu, a questão não é essa. A questão é que no fim do primeiro filme o Ben Afleck havia entendido o que
de fato a Rosemund era: " uma pobretona, ignorante, quase analfabeta, que vive de pequenos golpes só iria
fazer mal a ele".
 Antes ele não percebia isso por amar demais, depois quando passou a oidá-la percebeu. E agora ele amava ela
de novo, mas não conseguia amar tanto e nunca mais conseguiria, agora ele sabia exatamente como ela era
e sabendo disso, nunca mais poderia amá-la como antes.

 O último ato do filme remete a um poema escrito pelo Ben Afleck em seu blog chamado "a teoria do prêmio
de consolação". Segundo esse poema, as pessoas vivem em uma floresta em formato de labirinto e só
conseguem enxergar em linha reta. A floresta é perigosa, mas cheia de encantos. A solidão e as dificuldades
tornam as pessoas frágeis e suscetíves de se apaixonar por qualquer coisa que traga paz. Mas como não conseguem
ver o final do labirinto, pensam que aquilo é a coisa mais perfeita que existe e não conseguem caminhar pra
frente. Porem são obrigadas a continuar e cada nova curva do labirinto se deparam com presentes e dádivas e
outras possibilidades, porem não se encantam com nada mais, pois somente se preocupam em lamentar com o que
ficou pra trás. No final, as pessoas encontram a verdadeira felicidade, mas as vezes nem percebem de tão cegas
e consideram a felicidade um mero premio de consolação.
 O Ben Afleck não sabe ao certo o que seria sua felicidade e o que seria seu premio de consolação. Em determinado
momento ele pensa que a vida lhe deu uma oportunidade de seguir em frente e ter um futuro brilhante como advogado
e conhecer outra pessoa que realmente lhe de valor, mas ele passou 9 meses considerando esse presente da vida
como um prêmio de consolação e lamentando por ter perdido a Rosemund Pike. As vezes ele pensa exatamente o contrário.
 O filme começa e termina a uma semana da formatura do Ben Afleck. Termina deixando a dúvida na cabeça dos
telesoectadores e do Ben Afleck sobre o que virá em seguida. Mas a certeza de que a formatura (talvez um
terceiro filme) será o divisor de águas. Depois da formatura, tudo será diferente.

por Chaves

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