sábado, 31 de agosto de 2019

Ada, a Cônjuge

"Finalmente parou de gritar?", perguntou calmamente. O homem estranho o encarava com os olhos soturnos cor de ônix, fixos em Rafael. A luz da cozinha estava acesa, iluminando o local com um amarelo enjoativo. As entranhas remexeram-lhe o jantar que comera tranquilamente horas atrás, quando ainda não imaginava que se encontraria na situação de agora. Virou o rosto e vomitou.

"Por favor, deixe-me ir...", suplicou com a voz rouca e esganiçada, após limpar os restos de comida dos lábios. Tentou mover os braços e pernas, sem sucesso; suas mãos pareciam estar amarradas à cadeira com cordas invisíveis, e seus pés, petrificados.

"Já lhe disse que ficará aqui até ser julgado. Não adianta chorar ou gritar", respondeu em um tom austero.

Rafael sentia-se exausto. Só queria dormir; deitar-se na cama e esquecer de tudo o que acontecera; deixar as lúgubres memórias deste encontro desvanecerem-se ao ser acolhido pelo sono; acordar no dia seguinte e perceber que tudo não passou de um terrível pesadelo.

"Tá... ", sussurrou em um tom estridente, "tá bem", disse ofegante, "a-acabe logo com isso... por favor... só termine logo. Faça o que deve fazer...", terminou arquejando.

Samuel bebericou o chá da pequena xícara que segurava com os dedos, longos e finos, com o olhar ainda cravado no escritor. Os círculos negros ao redor dos olhos encovados do estranho homem aparentaram ficar ainda mais escuros; ele estudava os olhos de Rafael, como se estes fossem a porta de entrada pela qual o juiz acessava os pensamentos, a alma, os desejos e o passado do escritor... e também seus pecados. Após repousar a xícara sobre o píres, falou:

"Antes disso, quero que busque algo para mim."

"O-o quê?", quis saber na esperança de que seja lá o que quisesse fosse a saída desta situação.

"A faca", respondeu em um tom sereno, porém sutilmente gutural.

Enrijeceram-lhe os pelos do corpo de Rafael; acelerou-se-lhe o coração dentro do peito.

"Meu Deus todo poderoso, proteja-me", pensou, "faça disso tudo um sonho, por favor! Faça com que ele desapareça e que tudo volte ao normal!"

Porém, Samuel não desapareceu. Continuava lá, sentado à sua frente, austero e inabalado, apesar das preces. Rafael sentiu-se abandonado. Respirou lentamente e tentou apanhar as palavras com mais calma:

"P-pra que quer uma faca?"

"Rafael, é juiz?", interrogou solenemente.

"N-não..."

"Então não faça perguntas. Juízes fazem perguntas. Interrogados às respondem. Agora, providencie-me a faca, por favor", a voz dele era tranquila, mas incisiva, e seus olhos, negros, fixos em Rafael, cortavam-lhe a alma. Um breve silêncio apoderou-se da cozinha. Tentou esconder o medo e a ansiedade que atormentavam-lhe o coração, mas os dedos trêmulos das mãos o entregavam. Respirou profundo novamente, então disse:

"B-Bem", gaguejou, "h-há várias facas atrás de você... dentro das gavetas, debaixo da pia", conseguiu concluir a frase, malgrado o peso imensurável das palavras. Sentia o sangue correr-lhe mais rápido do que nunca dentro do corpo. O formigamento volvou a mordiscar-lhe o punho direito.

"Não quero uma faca, Rafael. Quero a faca.", suas palavras pairaram no ar.

...

"Q-qual faca...?", quebrou o silêncio.

"Não se faça de burro", disse com calma, "não gosto de pessoas que se fazem de burras. Sabe muito bem de qual faca estou falando."

O fúnebre passado apoderou-lhe dos pensamentos...

Sangue. Sangue transbordou-lhe nas memórias. Agora, estas o trouxeram de volta ao banheiro de seu quarto de casal: grande, luxuoso e, naquele momento, vermelho. Na banheira, um corpo. Cabelos dourados flutuavam no líquido carmesim dali. Ao lado da banheira e das mãos dela, delicadas e pálidas, uma faca. A faca.

"Busque-a. Traga-a para mim", disse Samuel.

"M-mas a faca não está comigo. Não minto. A polícia a levou no dia em que-", não conseguiu terminar.

"Está sim. Lá em cima, no mesmo lugar do ocorrido", ele redarguiu.

"Como?!", pensou, aterrorizado. Os dedos frios do medo tocaram-lhe as costelas e apertaram-lhe o estômago, congelando a barriga de Rafael. Sua mão direita voltou a pulsar e doer.

"Está esperando o quê?", inquiriu Samuel.

...

Os olhos do juiz penetraram a alma do escritor, estupefato.

"N-não é poss-"

"Minha paciência tem limite, Rafael", interrompeu-o.

...

"T-tudo bem. Já que diz que ela e-está lá em cima, a trarei aqui...", balbuciou.

Sentiu as pernas livres, mas inquietas. Começou a mover os pés, trêmulos, e levantou-se da cadeira. Os olhos de Samuel acompanharam-no. As pernas do escritor eram tão firmes quanto folhas soltas em uma tempestade. Receou despencar sobre o chão a qualquer momento. Até mesmo de pé, erguendo-se diante daquele estranho homem, Rafael sentia-se inferior. Queria andar mais; continuar seu caminho até a faca para acabar logo com isso, mas não conseguiu. Fitou a escuridão macabra que dominava as escadas, ao lado da cozinha, que o levariam até o segundo andar da casa, onde supostamente encontraria o objeto.

"A faca", pensou, "não pode ser... não pode estar aqui..."

Samuel, imóvel e em silêncio, continuou encarando Rafael. Apenas os olhos daquele moviam-se, acompanhando este para onde quer que fosse. Sequer via o tórax do juiz mover-se para respirar, nem escutava o ar entrando-lhe e saindo-lhe das narinas. O corpo daquele homem parecia ser um casulo; lar de algo muito... maior. Finalmente, conseguiu arrastar as pernas lentamente até as escadas, próximas à cozinha. Cada um de seus pés fazia reverberar um alto baque no ambiente ao encontrar-se com o chão.

"Poderei encontrar-me com ela lá em cima. Ela tem celular! Chamaremos a polícia! Faremos qualquer coisa", pensou, "gritaremos, rezaremos, seja lá o que for! Pelo menos não estarei sozinho com-"

Parou em frente às escadas; as trevas apoderavam-se de cada degrau, fazendo do segundo andar um mar de escuridão. Virou a cabeça e viu que os olhos de Samuel o aguardavam, apesar da cabeça deste manter-se imóvel. Mexera apenas os olhos, mais negros e opacos do que as noites mais sombrias, desde quando se acomodara na cadeira da cozinha. O breu que aguardava Rafael degraus acima era bastante semelhante ao contido nas pupilas de Samuel. Estremeceu. Esforçou-se para que o pé direito se movesse de encontro ao primeiro degrau diante de si. A madeira protestou com um rangido alto e desagradável. Quis dar outra olhadela para trás, mas desta vez, conteve-se. Seu pé esquerdo também se moveu, e depois foi liderado novamente pelo direito, e o movimento se repetiu, assim como o choramingar da madeira debaixo de si, até o escritor ser engolido pelas trevas.

Não enxergava nada ali. O frio rasgou-lhe a pele e os pulmões. A não ser pelo ranger dos próprios passos sobre os degraus, não ouvia mais nada. Sua respiração consistia de rápidas e ansiosas baforadas. Enfim, percebeu que havia chegado ao segundo andar. Parou e virou em direção ao corredor à esquerda, ainda cego pela escuridão. Parecia estar em um local totalmente diferente de sua casa, mas sabia que o quarto estava a poucos passos de distância.

"Cinco. Cinco passos é o que preciso para chegar lá", pensou.

Novamente, o pé direito liderou a caminhada, e a mão destra apalpava a parede ao lado, em busca da porta do quarto. Sentiu o interruptor de luz sob os dedos, mas este mostrou-se inútil ao ser apertado. A escuridão persistiu, assim como os protestos da madeira debaixo de seus pés. Deu outro passo, e mais um, e a madeira do chão continuou chorando em desdém com todo aquele movimento. Antes que pudesse dar o quarto passo, um clarão adentrou repentinamente o ambiente. Através da janela no fim do corredor, viu linhas brancas e finas, como dedos deformados e contorcidos, rasgarem o céu negro lá fora, das nuvens até o chão. O breve lampejo que adentrou o local revelou os quadros pendurados nas paredes de ambos os lados, assim como a porta de seu quarto, aberta e bastante próxima. Então, as trevas surgiram novamente, acompanhadas de um estrondoso rugido que reverberou fortemente pela noite:

"truuuuuuuuum."

As paredes tremeram, assim como o chão, e até mesmo o corpo de Rafael. Retesaram-se-lhe os cabelos da nuca, e calafrios escalaram-lhe a pele do corpo. O susto o fez parar. Sentia-se observado por todos os lados, como se o breu fosse uma enorme pupila, acompanhando cada movimento que fizesse, por mais sutil e insignificante que fosse. Permaneceu imóvel... ouviu a madeira do chão que tinha deixado para trás ranger sozinha, como se tivesse sido pressionada por algo escondido nas trevas. Ofegante, voltou a andar.

"Quatro, cinco", contou em voz baixa. Seguiu de olhos fechados, com a mão direita ainda apalpando a parede. Finalmente, sentiu a madeira da porta em seus dedos e abriu os olhos novamente, apesar de não conseguir enxergar quase nada. Estava semiaberta, e emitiu suaves estalos quando a empurrou gentilmente. Graças à tênue luz emitida pelos dígitos do despertador de cabeceira ao lado da cama, conseguia ver o vulto dela. Estava lá, inerte, lançada sobre o colchão. Não a ouvia respirar. Tentou ligar o interruptor de luz do cômodo, mas assim como o do corredor, mostrou-se inútil. Do outro lado da cama, ficava o banheiro, onde Samuel disse que iria encontrar a faca.

"Não pode ser", disse para si mesmo, "mesmo que esteja lá, o que quer fazer com a faca?"

Uma voz no fundo da sua mente dizia que tudo era possível depois do que acontecera nesta noite. Uma parte de si jamais desejava ver qualquer objeto que o fizesse lembrar do que ocorreu naquele banheiro, muito menos a faca. Até mesmo reformara o cômodo após a tragédia. Retirou a banheira que lá havia, assim como o revestimento de porcelanato, polido e branco, do local, e o substituiu por elegantes mármore e granito. O simples pensamento de encontrar a lâmina rubra sobre o chão de porcelana revirava-lhe as entranhas. Não sabia como proceder.

"Ele perceberá se fizer movimentos bruscos', pensou, "devo me aproximar dela sem fazer barulho e pedir para que ligue para a polícia. Tudo em silêncio. Ele consegue me ver, tenho certeza!"

Olhou para o relógio de ouro em seu pulso direito e ficou perplexo com o horário que o dispositivo exibia. A princípio, pensou estar estragado, mas o despertador em seu quarto confirmava o contrário.

"1:21", declaravam atemporalmente os aparelhos.

"Já deveriam ser quase 4 da manhã", pensou, "que diabos está acontecendo aqui, meu Deus?!"

Penetrou o quarto com cautela. Seus passos sorrateiros o levaram até a mulher debruçada sobre a cama.

"Ei!", sussurou, "acorde!", balançando sutilmente os ombros dela, "acorde!", tentou novamente.

Ela exalou um baixo e longo suspiro. Agora, tinha a impressão de que os olhos dela estavam abertos. Pareciam estar lançados sobre Rafael. Não tinha certeza, pois a luz emitida pelo despertador era demasiada tênue.

"Está acordada?", quis saber em voz baixa.

A porta atrás de si fechou rispidamente, com um alto e seco ruído. Os móveis do quarto tremeram, assim como Rafael, que estudou o cômodo, amedrontado. Quando voltou-lhe a atenção para a cama e para a mulher que ali repousava, teve a impressão de que os olhos dela estavam esbugalhados, encarando-o. Não sabia se a mente pregava-lhe uma peça, pois o breu toldava-lhe a visão. O suspiro agudo que ela emitia prolongou-se e acentou-se.

"Ei! Está acordada?", sussurrou novamente.

A madeira do chão próxima à porta estalou lentamente. Rafael estremeceu. Observou os seus arredores, alerta. Então, disse em voz alta:

"T-tudo bem! E-estou indo para o banheiro buscar a faca!"

As palavras pairaram solitárias no ar e desvaneceram lentamente, enquanto o pesado silêncio apoderava-se novamente do lugar. Por alguns segundos, pôde ouvir apenas o farfalhar das folhas das árvores, fora da casa, e o sussuro do vento querendo entrar pelas janelas do quarto.

Petrificou-se o corpo de Rafael...

Pesados soluços, acompanhados de um choro baixo e esganiçado deixaram os cabelos de Rafael em pé. Inicialmente, recusou-se a olhar para trás. Fechou os olhos e assim ficou por alguns segundos, enquanto seu corpo, trêmulo, arrepiava-se da cabeça aos pés. Os gemidos taciturnos que vinham atrás dele aparentavam ser emitidos por uma mulher. Decidiu olhar...

De pé, ao lado da cama, erguia-se outra silhueta, esguia e com longos cabelos despenteados. Acariciava gentilmente, com dedos finos e contorcidos, a cabeça da mulher deitada; moviam-se irregularmente por entre as mechas da conhecida de Rafael, estalando a cada movimento que faziam. Longas unhas, encobertas pela escuridão, despontavam-lhe dos dedos. Algo jorrava-lhe dos pulsos. O lamento fúnebre e os estalos emitidos pelos movimentos torturados daquele ser congelaram o corpo de Rafael. Urina espalhou-se-lhe pelas virilhas.

"P-pai nosso", começou em voz baixa, "q-que estais n-no... n-n-no", e parou, incapaz de terminar. A mão destra voltou-lhe a pulsar como um coração, fazendo-o encolher de dor. A criatura notou Rafael. O lamento lúgubre e os soluços da silhueta macabra cessaram. Parou de acariciar o cabelo da mulher debruçada sobre a cama. Os membros daquela coisa emitiram sons desconfortáveis, como se todos os ossos de seu corpo estivessem deslocados; os dedos, deformados, esticavam-se-lhes sob o cobertor da escuridão, e as longas unhas, garras que rasgavam toda a coragem que restava no escritor, esticavam-se ameaçadoramente. O ser virou o pescoço lentamente, redirecionando sua atenção para Rafael. A cacofonia óssea do movimento o fez urinar nas calças novamente. O pegajoso líquido ainda jorrava dos pulsos da silhueta sombria, espalhando-se pelo chão. O ser não se movia, apenas encarava-o...

"Mexa-se! Corra!", pensou em vão. O próprio corpo recusava-se a obedecer. Ardia-lhe o punho direito. E a criatura continuava lá, imóvel, olhando-o...

"Meu Deus!", pensou, "proteja-me! Sei que pequei; cometi erros... mas ainda sou fiel. Ajude-me!"

Por fim, libertaram-se-lhe os membros das amarras invisíveis que os imobilizavam e suas pernas levaram-no o mais rápido possível para dentro do banheiro. Entrou e bateu a porta atrás de si. Ofegante, agarrou a maçaneta com toda a força que tinha, temendo que a criatura fosse segui-lo, mas não ouviu nenhum movimento vindo do outro lado. A maçaneta permaneceu inerte em sua mão, mas ainda recusava-se a soltá-la.

"Que diabos era aquilo?!", pensou, "que diabos, meu Deus?!"

Tentou acalmar-se. Depois de alguns minutos, respirou um pouco aliviado.

"Tenho que pegar logo essa faca. Pelo menos terei alguma coisa para me defender", disse consigo mesmo.

As trevas cegavam-no. Tentou ligar o interruptor de luz, mas o resultado era exatamente aquele que esperava. O piso era frio e liso sob seus pés, e o seco gotejo de algo contra o chão adentrou-lhe os ouvidos. Subitamente, as lampadas do local acenderam, e o mundo de Rafael desabou...

Lá estava ela, nua, dentro da banheira. Os longos cabelos dourados dela ensolaravam o ambiente, e sua amena pele clara reluzia no porcelanato branco das paredes e do chão; um gracioso sorriso adornava-lhe os lábios, e seu encantador olhar esmeralda caía sobre Rafael.

"Meu amor", ela estendeu a mão, "sente-se ao meu lado. Senti tanta falta de você", a voz dela era tão suave aos ouvidos do escritor quanto a garoa noturna mais aconchegante, que leva sono e sossego àquela mente ansiosa, incapaz de dormir. Atônito, disse:

"Ada?! C-com... n-não pode... não pode ser..."

"Meu amor... Rafa, sou eu. Venha", ainda estendia-lhe a mão, "temos muito a conversar. Quero saber como você está; como nossa princesa está. Venha..."

"Amor?", as lágrimas subiram-lhe aos olhos, "é realmente você? N-não é possível..."

"É claro que sim, meu bem. Sou eu!"

"E-eu... ando vendo tantas... coisas", hesitou, "n-não sei mais no que acreditar... tanto aconteceu nesta noite...", silenciosas lágrimas escorreram-lhe rosto abaixo.

"Eu sei, amor. Quero ajudá-lo... ajudá-lo a sair deste pesadelo. Confie em mim. Quero seu bem; sempre quis. Mas antes, quero conversar."

"Tu-tudo bem", enxugou os olhos e agachou-se ao lado dela. Ela segurou as mãos de Rafael.

"É-é ela!", pensou. Abraçou-a com força.

Não havia água na banheira, nem aquele outro líquido... vermelho. Sentiu-se aliviado. Porém, havia outra coisa lá dentro: uma faca. Repousava junto aos delicados pés de Ada. Rafael estremeceu.

"Por quê? Por que fez aquilo?"

"Estava doente, Rafael... precisava de ajuda. Não consegui me recuperar. Era insuportável... viver."

"E-eu tentei te ajudar", disse inconformado, "teria continuado tentando até não ter mais forças. Por q-", parou de falar. Lágrimas umedeceram-lhe os olhos, "nossa garotinha sente tanto a sua falta", terminou.

"Nossa garotinha...", avermelharam-se os olhos dela, "nossa princesa... nossa pequena Eva. Como sinto falta dela...", ela lastimou. Ressoaram-se-lhe o pranto pelo banheiro. Ele a abraçou novamente. Choraram juntos.

"Eu te amo", ele disse com o peito pesado, "perdoe-me, Ada. Falhei... Perdão pelo que disse. Pelo que fiz."

"Tudo bem, meu amor", ela disse. As lágrimas ainda rolavam-lhe rosto abaixo, "ainda pode me ajudar."

"Posso?", perguntou esperançoso.

"Sim", esticou a mão e pegou a faca que repousava-lhe entre os pés, "corte-a", olhou para a mão direita de Rafael, "corte-a, meu amor. Livre-se. Enxergue."

Rafael recuou.

"A-Ada...", disse enleado, "c-como pediria isso de mim? Como isso iria ajudá-la?"

"Meu amor, você não entende", ela coçou a pele dos braços, "arde tanto", avermelharam-se-lhe os olhos novamente, "sinto-me tão sozinha...", brilhava-lhe o olhar, rubi, sob a luz, "não há outra saída... Deve cortá-la!", exclamou.

"Meu bem, minha Ada...", ele disse acariciando a face dela, "não há necessidade disso! Sempre estarei aqui. Pode... pode me visitar sempre! Mas... mas o que está sugerindo é o pior dos pecados."

"Quem é você para falar sobre pecar?!", protestou rispidamente.

O escritor ficou sem resposta por alguns segundos...

"Sim", lembrou-se das palavras que disse a ela, e o coração tornou-se-lhe excessivamente pesado dentro do peito, "perdoe-me. Errei...", a lástima apoderou-se novamente de seus olhos, "não há um dia sequer em que não me arrependo do que disse e do que fiz. É uma culpa que carregarei eternamente. Porém, não posso desistir. Não posso abandonar minha mãe, muito menos nossa filha. Amo-as."

"Mentiroso", ela bradou, "sempre foi e sempre será um mentiroso. Mente para a própria mãe e filha, assim como mentiu para mim! Mente para Ele! PEQUEI POR CULPA SUA!"

"Ada...", acelerou-se-lhe o coração.

"Diz temer o julgamento de Deus, mas repete os mesmos pecados do passado! Recusa-se a enxergar! Diz amar sua mãe, mas a abandona pelos mesmos motivos que me abandonou, enquanto ela sofre da mesma doença que eu tive! E nossa filha?! O amor que tem pelo álcool mostrou-se mais poderoso do que o que tem por ela! Diga-me, sua cobra mentirosa, por que há tantas garrafas vazias na sua casa ao invés de brinquedos de criança?! Por que há uma pessoa qualquer deitada na sua cama ao invés de uma filha pedindo para que leia uma historinha antes de dormir?! Por que dedica-se tanto aos seus malditos livros ao invés de ensiná-la a ler e a escrever?! HIPÓCRITA! MENTIROSO!", a cólera dela ecoou pelo banheiro.

Rafael estava desnorteado, sem saber o que responder. Cólera cintilava nos olhos dela, e ela agarrava a faca com força. A luz das lâmpadas reluziam na lâmina da arma. Ele via ódio em seu rosto. Respirou fundo e disse:

"Você está certa. Sou um mentiroso e um hipócrita. Errei e continuo errando. Peço desculpas, Ada", olhou-a nos olhos, cheios de rancor, "Você não merece isso. Nem minha mãe ou nossa filha. Eu lhe dou minha palavra que irei mudar. Eu... eu ainda posso mudar. Vou melhorar", repousou a mão canhota sobre a dela, que erguia a faca. Ela voltou a prantear:

"Por favor...", soluçava, "n-não me deixe sozinha. Lá é horrível. Por favor, Rafa...  pegue a faca... n-não quero voltar para lá."

"E-eu", não sabia o que falar, "meu bem... eu rezarei por você todos os dias. Prometo. Ele irá protegê-la. Ele ainda te ama, assim como eu."

"Por favor", suplicou lagrimejando, "Amor da minha vida, eu imploro! Ele... ele vai me levar de volta para lá!"

"Vamos orar, meu amor! Oremos juntos!"

"Não", urrou, "não vai funcionar! Pege a faca e corte-a!"

"Ore comigo meu amor. Não perca a fé! Pai nosso.."

A pele dela ruborizou-se. Ela se coçou agressivamente. Um alto chiado encheu o banheiro; um vapor denso e malcheiroso subiu-lhe do corpo. Ela gritou.

"Rafael!", guinchou, "p-pelo amor de Deus! Proteja-me! N-não quero voltar para lá! POR FAVOR!", esbravejava de dor e contorcia o pescoço, "ARDE! ELE VAI ME LEVAR DE VOLTA! VOU ARDER PARA SEMPRE!", bolhas rosadas formaram-se-lhe por todo o corpo. Rafael estava em choque, mas continuou:

"Que estais nos Céus!", disse em voz alta, enquanto o vapor que saía do corpo de sua ex-esposa enchia o local, "santificado seja o Vosso Nome", continuou enquanto ela ladrava, "venha a nós o vosso Reino", as bolhas no corpo de Ada começaram a estourar, desprendendo pedaços negros de carne; o chiado acentuou-se, "SEJA FEITA A VOSSA VONTADE", tentou rezar mais alto ainda, inutilmente, "ASSIM NA TERRA COMO NO... COMO NO... c-como no...", viu partes do crânio debaixo da derme enegrecida da testa e do olho esquerdo de Ada; apareciam-lhe o maxilar e os dentes da bochecha direita, despidos de carne e chamuscados pelo vapor impiedoso; costelas, úmero, fêmur e tíbias estavam expostos, carbonizados. Gritos de dor reverberavam por ali. Em meio àquela sauna putrefata, o escritor estava petrificado, com os olhos arregalados, boquiaberto e com lágrimas de espanto descendo-lhe pelo rosto. Não conseguiu terminar de proferir as palavras. Sentia a mão direita pulsar, mas isso pouco importava agora.

"RAFAEL", ainda gritava Ada, "NÃO ME ABANDONE DE NOVO! A FACA! PEGUE A FACA!"

Mas ele continuou paralisado, incrédulo. Desesperada e urrando, com a arma em mãos, ela cortou os próprios pulsos. A afiada lâmina emitiu um estridente silvo ao rasgar a pele. Sangue jorrou para todos os lados, sujando o rosto de Rafael, suas roupas, as paredes e o teto. O carmesim encheu rapidamente a banheira, e ela, aos poucos, parou de gritar. Lentamente, o esmeralda nos olhos dela desvaneceu-se; agora estavam foscos, mortos; e a coroa dourada que antes carregava na cabeça tornou-se rubra ao flutuar no próprio sangue.

O vermelho apoderou-se daquele ambiente novamente... mas desta vez, havia mais; muito mais. Pingava do teto, escorria pelas paredes e pelo rosto do escritor.

"Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue", pensou, "falhei novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente."

Rafael não piscava; ainda estava boquiaberto e com os olhos esbugalhados. O rubro gosto azedo da culpa enjoava-lhe a língua; deixou o carmesim de sua ex-companheira enfeitar-lhe as pupilas e observou debilmente o banheiro, escarlate e insalubre. Como se tivesse vontade própria, o sangue nas paredes foi tomando lentamente o formato de letras enquanto escorria até o chão:

"FRACA, INÚTIL", lia-se por todos os lados.

Ass: Wally

domingo, 18 de agosto de 2019

A sensatez da Raisa

Bom o que vou contar é extremamente controverso, tudo se passa em fração de segundos, naquele momento eu estava com a mão na perna dela, o ombro dela tocava em meu queixo todas as vezes que ela fazia o movimento de tragar o narguilê.

Eu não sou de narguilê, mas quando cheguei foi a segunda coisa que ela me ofereceu depois do whisky, não teve como recusar. É claro que eu tossi, era errado, tudo aquilo era errado.

Consciência pesada? Bom, poderia escrever mil parágrafos pra tentar explicar, mas em resumo, em certas ocasiões nem consciência eu tenho, em outras sou uma pessoa normal. As vezes liberto o hap que tem dentro de mim (hap é o vilão mais sádico que conheci, trancafiou cinco pessoas em seu porão por sete anos, um sequestrador, um carcereiro, um ladrão de mentes, um assassino, mas acima de tudo um cientista, um viajante, um explorador, de certa forma, o trabalho do hap não é desnecessário).

Ela me perguntou se eu já tinha pegado a menina que estava na nossa frente? Se isso aqui fosse um filme, nesse exato momento a câmera faria um movimento de 180 graus até chegar ao casal a nossa frente se beijando.

Ele, nosso amigo em comum, fez faculdade comigo, foi ao Mato Grosso comigo em uma louca viagem de carnaval, me levou pra Caldas Novas cerca de uns 03 meses atrás, ocasião onde conheci a Raisa.

Ela, bem, já contei um pouco sobre ela aqui nesse blog, reconheceria esse sorriso em qualquer lugar do mundo, aquela garota legal, que agora sorria para o meu amigo.

 Respondi no ouvido da Raisa que "já tive uma história com ela no passado". Não satisfeita ela me perguntou "mas você pegou mesmo? mesmo?" Porra Raisa, não vacila! (claro, eu pensei, não falei isso alto)... é aconteceu isso mesmo, Raisa.

Então o que acontece a seguir é extremamente controverso e (tirem suas próprias conclusões) a garota do sorriso disse que minha namorada não deveria nem existir, que eu não deveria ter ido a casa dela aquele dia e a levado ao hospital, que deveria ter ficado no sul bebidas, que tudo seria diferente.

Neste ponto acho que a Raisa se sentiu mal.

Recapitulando, horas antes eu estava aqui em casa estudando, disseram no grupo que a Raisa queria me ver, é meu último fim de semana em Goiânia. A princípio eu ignorei.

Depois a Raisa mandou a localização do Alabama e disse que estava rolando um open bar. Eu ignorei.

Me mandaram mensagem no privado dizendo que se eu não fosse até lá a Raisa ia subir na caixa d'agua. Continuei estudando.

Então ela enviou novamente a localização, sem dizer mais nada. Segui estudando, mas disse que talvez mais tarde apareceria.

A quarta localização já era a casa do meu amigo, onde essa história se passa, a Raisa disse que estavam indo pra lá e me praticamente me intimou pra ir. Porra, ninguém é de ferro, a essa altura eu já tinha liberado o hap que tem dentro de mim.

Quando cheguei a Raisa me recebeu com um copo de whisky muito bem feito e narguilê. Estávamos ali meio que "de casal" os quatro.

Até então não tinha acontecido nada a não ser a mão na coxa, os dedos entrelaçados. Este poema, se é que se pode chamar assim, serve pra provar minhas suspeitas e finalizar de vez a história que nunca deveria ter sido contada sobre aquela garota legal, que estava ali do outro lado da mesa agarrada no nosso amigo.

Aquele grupo "viagem de Caldas Novas" que depois se tornou "histórias de Caldas" meio que não servia pra mais nada além de eu mandar localização e escrever "bora, Raisa!" sempre que eu ia pra algum lugar.

Os outros pensavam que eu era a fim dela, mas eu acho que mandava isso só de zuação mesmo, as vezes mandava até quando estava com minha gata.

Até que aconteceu isso. Bom nesse dia a Raisa me mandou localização quatro vezes e chegamos ao ponto da história em que em uma fração de segundos, estava eu ali, com as mãos na perna da Raisa fazendo carinho, ela tragando o narguile, tomávamos whiske no mesmo copo, em fim...

Acho que ela me mandou aquelas localizações também de curtição, igual eu sempre fiz, acho que rolou um sentimento recíproco de curtição, meio que ninguém entendeu, todos botaram pilha, todos pensaram que ia rolar (todos inclusive o hap que tem dentro de mim).

Mas todos os momentos que encostei minha bochecha na dela e beijei seu pescoço, todas as vezes que tentei soltar aquele "vem cá?" ela me interrompia, ela me impedia, ela me lembrava da minha namorada.

No dia seguinte eu saí do grupo. A noite falei com a Raisa, pedi pra ela o nome do tio dela ou o número do processo pra dar uma olhada, ela me agradeceu pela atenção e me perguntou porque eu saí do grupo, respondi que era pra estudar, que minha prova estava próxima.

A Raisa me colocou novamente no grupo e até o momento ninguém deu um pio por lá desde então/ até então. Então acho que por enquanto este é o fim.


por Chaves