"Quer casar comigo?", perguntou de joelhos.
Atônita, ela cobriu a boca com as mãos e o fitou por alguns segundos. Por um breve momento, Rafael pensou que ela diria não, mas as palavras que quebraram o silêncio insuportável foram outras:
"Sim", disse ainda perplexa, com os olhos esmeralda avermelhados pelas lágrimas, "sim!", repetiu mais alto e abanou o rosto com a mão esquerda, "é claro que sim!"
Acentuou-se-lhe o palpitar do coração:
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Gentilmente, colocou a aliança no anelar canhoto de Ada. Levantou-se. E eles se abraçaram mais forte do que nunca. Um intenso e rápido pulsar veio de dentro do tórax dela enquanto a envolvia nos braços.
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Sentiu o ombro no qual ela repousava a cabeça umedecido. Quando a encarou novamente, viu lágrimas rolarem-lhe dos olhos. Ela disse:
"Eu... eu te a-"
"Eu também. Eu também."
O ar estava fresco. O vento doce beijava-lhe o rosto e as folhas das árvores à sua cercania farfalhavam airosamente. O sol começava a esconder-se atrás do lago quiescente que repousava logo ao lado. O sereno cheiro da água, ruborizada pelos derradeiros raios de luz, enchiam prazerosamente os pulmões de Rafael. Nunca esteve tão feliz.
"Então era esse o seu plano desde o princípio? E eu bobinha pensei que somente sairíamos para assistir a um filme no cinema e ir jantar", disse rindo. Enxugou as lágrimas do rosto.
"Bom que não percebeu", riu de volta, "teria estragado a surpresa."
"Pensando bem, você estava agindo de modo estranho desde quando me buscou em casa. Abriu a porta do carro para mim e puxou a cadeira para eu sentar no restaurante. Também quis jantar mais cedo porque disse que queria ver o pôr do sol no parque comigo. As pistas estavam por todos os lados, eu que não percebi", riu novamente. Amava a risada dela.
"Como assim, 'estranho'? Está me dizendo que de costume, não sou cavalheiro?", brincou.
"Bem... sempre foi educado e gentil, mas nunca foi um Romeu da vida. Não estou reclamando, só que... pode ser assim sempre, tá?"
"Tudo bem, Julieta", olhou os arredores e perdeu-se na nostalgia que aquele lugar proporcionava. Continuou:
"Lembra-se daqui? Foi aqui que nós começam-... o que foi?"
Estava cabisbaixa e parecia aflita.
"Nada... é só que... e sua mãe?"
"O que tem, minha mãe?"
"Ela já sabe?"
"Sim."
"Não mente?"
"Não. Por que iria mentir? É minha mãe. Ela tem que ficar sabendo uma hora. Vamos nos casar, Ada... não é tipo de coisa que dá pra esconder, sabe? Mesmo se quisesse..."
"O que ela achou?"
"Ficou feliz."
"Seja sincero, por favor."
"Não mentiria pra você. Aliás, você a subestima muito. Ela gosta de você."
"Tá bem... isso porque acabou de falar que não mentiria para mim."
"Não minto. Ela ficou feliz!"
"Para, Rafa."
"Por que ela não ficaria?"
"Bem... depois de...", ela desviou o olhar, "bem, já não gostava muito de mim quando me conheceu porque ela é muito religiosa, já eu..."
"Isso nunca interferiu em nada."
"Tá... não era tão ruim assim antes. Mas depois do incidente... quando ficou sabendo o que eu tinha feito... quando me viu no hospital naquele estado, ela me chamou para igreja dela, mas eu não quis ir... aí ela mudou de vez comigo. Nunca mais foi a mesma. Foi um erro meu, eu sei. Deveria ter ido, não custava nada. Mas eu estava naqueles momentos, sabe? Eu mesma não me reconheço quando fico daquele jeito."
"Isso é coisa da sua cabeça, Ada. Ela sempre gostou muito de você. Ela só queria te ajudar, só isso. Ela é assim mesmo. Tenha paciência. Com o tempo, vocês duas vão se dar muito bem, tenho certeza."
Ela continuava cabisbaixa.
"Olha...", continuou Rafael, "só acredite em mim, tá? Vai dar tudo certo. Já te decepcionei?"
"Não...", ela começou a chorar.
"Meu amor... o que foi?"
"Por quê?", Ada o fitou, com o olhar ruborizado, "Por que eu? É talentoso... poderia estar com o-", parou de falar. Fechou os olhos, que verteram lágrimas silenciosas, e comprimiu os lábios, "Bem... poderia não estar comigo. Eu sou... doente. Tenho algo que vai me assombrar para sempre, Rafael."
"Eu sei. Mas quero estar lá todos os dias para ajudá-la. De agora em diante, somos nós dois contra aquilo. Nunca mais terá de lutar sozinha. Nunca mais."
Ela sorriu e o abraçou.
"Nunca mais. Prometo", pensou.
Dentro dos peitos do casal, intensas batidas se uniam em uníssono:
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Ada enxugou o pranto do rosto mais uma vez.
"Nossa", ela disse, "que dia intenso", sorriu. Continuou: "sim, eu me lembro deste parque. É lindo aqui. Comprou sorvete para gente daquele vendedor ali. O mesmo sorvete que você deixou cair no chão", ela gracejou.
"Fiz um favor pra você. Te poupei de fingir que estava gostando. A careta que você fez quando experimentou...", sorriu, "...só que não tinha coragem de falar. Estávamos só... como é que a garotada fala?... 'ficando'. Hoje em dia, você mesma bateria na minha mão para derrubar o sorvete."
"Você também fez careta quando experimentou. Aí deixou a coisa cair 'sem querer'", fez os gestos de aspas com os dedos. Riram juntos. Olharam-se nos olhos... e seguraram mãos.
"Quer terminar de ver o sol se pôr?", perguntou Rafael.
"Sim", ela respondeu sorrindo de orelha a orelha. Ele apreciou os detalhes daquele sorriso. Inexplicavelmente, o tempo desacelerou. Cada segundo pareceu durar horas; um presente de Deus, como se Ele soubesse que o escritor queria se perder no vasto oceano que era a beleza dela, e também nas suas imperfeições. Admirou o cintilar esverdeado em seu olhar, chamas esmeraldas que escaldavam o coração de Rafael, assim como as tênues rugas que ornamentavam-lhe os arredores dos olhos. Deixou os ternos lábios de Ada lançarem-lhe um feitiço, o levando para um lugar onde não poderia ouvir nada além da canção amena e gentil da voz e das risadas dela; mas também regalou-se com a timidez da pequena cicatriz que adornava-lhe o canto direito do lábio superior. Bebeu do dourado emitido por seus cabelos e contemplou o sol desvanecer atrás dela, coroando-a com as belas chamas rubras da luz do fim do dia; permitiu que a mistura do áureo dos cabelos e do fogo do sol colorisse-lhe o mundo ao redor, como se aquela imagem fosse um quadro mágico, desenhado pelo mais prestímano dos magos; um quadro gracioso e deleitoso, donairoso e apolíneo, perfeito e imperfeito. Mas até mesmo em suas imperfeições, perfeito, assim como ela.
...
Apreciou aquele momento.
...
Se embriagou atemporalmente com aquela obra de arte. Mas então, sentiu as pernas, mãos, braços, rosto, boca e língua pegajosos. Pesaram-lhe as roupas, encharcadas, sobre seu corpo. Um líquido vermelho-escuro cobriu-lhe a visão. Relutantemente, privou a pintura em sua frente de sua admiração e olhou para as mãos.
Sangue.
"Não", olhou para os pés, pernas e braços, desesperado.
Sangue.
"Não! não, não, não!", urrou. Redirecionou a atenção para onde o quadro que pintara estava, mas deparou-se com uma banheira que transbordava mais vermelho ainda. Ao seu redor, as paredes tinham em sua superfície letras carmesim que liam:
"FRACA, INÚTIL."
"NÃO!", bradou, "não me deixe aqui de novo! Não me abandone aqui! Imploro! POR FAVOR!"
Silêncio. Começou a chorar.
"Por favor... não...", suplicou aos soluços, "não me abandone de novo... Tinha me salvado... por favor..."
Silêncio.
"É tudo culpa sua! SUA! Quer me ver sofrer!", as palavras rasgaram-lhe a garganta, apesar dos alertas de dor para não dizê-las que sua mão direita o enviou, "por quê?!", indagou aos prantos, "por que quer me ver sofrer?!"
Seus protestos pairaram sozinhos no banheiro, até serem quebrados por um borbulhar vindo da banheira. Bolhas avermelhadas emergiam do denso sangue que lá jazia, fazendo o líquido escuro transbordar e encharcar mais ainda a porcelana do chão. Um agressivo e alto palpitar de um coração ressoou no banheiro.
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
E então...
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
... ela levantou-se lá de dentro com a faca em mãos. Sua coroa rubro-dourada continuava intacta, mas agora emanava terror, assim como seu olhar verde, agora fosco e inexpressivo. Longas unhas enegrecidas esticavam-se-lhe dos dedos, e Rafael conseguia ver o crânio e maxilar chamuscados, onde as queimaduras consumiram-lhe a carne outrora. As pálpebras de seu olho direito já não existiam; foram devoradas pelo fogo invisível que o escritor presenciara, assim como parte da carne das costelas, dos seios, das pernas e do pescoço. Gemidos guturais estridentes vinham do que sobrava-lhe da traqueia, despida de carne.
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Abalado, o escritor recusava-se a acreditar que aquilo era ela, sua Ada. Ela moveu o pé esquerdo, que pingava carmesim, para fora da banheira. Ao apoiar-se no chão, seu membro estalou, como se todos os ossos dali estivessem quebrados. Ergueu a faca que carregava na mão esquerda, e a lâmina afiada cintilou, assim como o círculo dourado em seu anelar. Os baixos gemidos coaxantes e as longas unhas podres dela o fizeram estremecer. Ele não conseguia se mover, como se um feitiço tivesse-lhe sido lançado sobre o corpo. O pé direito de Ada acompanhou o canhoto, e Rafael viu-lhe a tíbia fraturada rasgar a dantes macia pele da perna ao apoiar-se no porcelanato. Sangue esguichou do ferimento, ela perdeu o equilíbrio e desabou. Ficou imóvel por alguns segundos, mas então...
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Voltou a gemer esganiçadamente e começou a se arrastar, ainda brandindo a faca. Suas alongadas garras arranharam o chão, emitindo um som demasiado desconfortável. Algumas delas quebraram e desprenderam-se-lhe dos dedos, levando consigo pedaços de carne rubro-negras. Estava se aproximando...
Tutuuuuuuuuuuum!
Ainda em choque, Rafael deu um passo para trás, mas escorregou no chão, sujo de sangue, e caiu. Suas costas encontraram a parede atrás de si. Sentado, observava sua Ada aproximar-se lentamente.
Tutuuuuuuuuuuum!
"Tudo bem, meu amor", pensou, "eu mereço... está assim por minha culpa. Mereço morrer. Leve-me. Queimaremos juntos no inferno. "
Tutuuuuuuuuuuum!
Finalmente, a mão dela alcançou-lhe a perna, apertando-a com força.
"Perdoe-me, pequena Eva. Falhei com você, assim como falhei com sua mãe e sua avó. Perdão", disse para si mesmo.
Ela pareceu ter ouvido-lhe os pensamentos. Crocitou um torturado e insalubre grito irregular pelo buraco da garganta. Aquele som fúnebre arrepiou todos os pelos do corpo do escritor.
"O som que anuncia minha morte; uma canção de sofrimento, ódio e ressentimento."
Tutuuuuuuuuuuum!
Ada rastejou-se sobre o corpo de Rafael. O olho esquerdo dela, esbugalhado; o direito, despido das próprias pálpebras. Ele sentiu a dor, raiva e tristeza que cintilavam-lhe no olhar; viu os ossos expostos da mandíbula dela comprimirem-se. Ela ergueu o braço destro, agarrou firme a mão esquerda do escritor e empunhou alto a faca.
"É agora. Faça-o!", os derradeiros pensamentos ecoaram-lhe na mente, "não desviarei meu olhar. Quero morrer olhando-a nos olhos!"
Manejou a arma em direção à mão canhota dele, e então...
Tutuuuuuuuuuuum!
... repousou o objeto nos dedos dele. Ela encarou o punho destro de Rafael e coaxou um longo e lento lamento através do orifício em sua traqueia; lágrimas rolaram-lhe pelo rosto deformado. Ele fitou a faca deitada na própria palma, sem agarrá-la com os dedos, ainda perplexo com tudo aquilo. Lastimando, ela fechou lentamente o olho que ainda era provido de pálpebras e repousou a cabeça no colo dele. A aliança no anelar dela brilhava, e ela arquejava. O pulsar desvanecia:
Tuuuuuuuum...
"A-ada?", chamou-a, ainda espantado. Umedeceu-lhe o colo. Ela exalava fracas arfadas...
"E-eu...", gaguejou, sem saber o que falar. Respirou fundo. Era ela, sua Ada. Continuou:
"E-eu estou aqui. Não vou a lugar algum. Não vou te deixar."
Lembrou-se da promessa que fizera a ela há anos: "não lutará sozinha."
...
Lembrou-se do que dissera depois; anos depois. Depois de se casarem, depois de terem uma linda filha, depois das inúmeras horas que passara escrevendo, depois das brigas, depois da bebida dele, depois dos remédios dela, depois da primeira e da segunda tentativa de suicídio de Ada, depois de mais brigas, depois da cruz quebrada, depois da Bíblia empoeirada, depois... de pedir um divórcio. Também lembrou-se da feição soturna de Ada ao ouvir:
"Nós tentamos por muito tempo, mas isso foi longe demais. Está afetando a vida de nossa filha... e também minha carreira. Pode contar com a minha ajuda sempre, mas acredito que será melhor se nós nos separarmos".
...doeu-lhe o punho direito.
"Me desculpe", disse.
Tuuuuuuum...
"É linda mesmo assim", pensou, "ainda é linda, minha Ada", acariciou-lhe os cabelos rubro-dourados. Fatigado, o palpitar se extinguia:
Tuuuuuum...
"Não se vá, por favor..."
Imaginou que estavam de volta àquele lugar mágico, ao lado do plácido lago, somente os dois. O vento suave afagava-lhe o rosto; raios de luz do pôr do sol adornavam o local... e ela também.
"Ela está aqui comigo! Posso vê-la!"
tuuuuum...
Estava de joelhos novamente, e Ada sorria. O sorriso mais belo que qualquer pessoa poderia desejar ver. Ela olhava a aliança, e lágrimas escorriam-lhe rosto abaixo. Ele segurava-lhe a mão, mas desta vez, iria segurar-lhe a mão para sempre. E não iria largá-la. Não ali. Nunca mais.
"Não vou te abandonar. Não desta vez, prometo!"
Tuuuum...
Mas eles não estavam lá, e ela não sorria. O sol não a coroava, mas sim o sangue. Também não havia um sereno lago ao seu redor, mas sim um inferno carmesim... e ele não poderia mais segurar a mão dela para sempre. Ela não moveu-se-lhe mais no colo...
"Não me deixe... conseguia senti-la! Estava aqui, na minha frente! Por favor..."
Tuuum...
Deitou-se-lhe ao lado da cônjuge, sua eterna companheira. Quis morrer bem ali, ao lado dela.
Tuum..
Remorso... finalmente se apoderou de Rafael. O pesado pranto rasgou-lhe o rosto. Jogado sobre o chão, chorou por muito tempo...
Tum.
O palpitar cessou.
Ass: Wally
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