domingo, 12 de julho de 2020

Jayson, o homem transumano

 "Acreditar que não existe um Deus, é o mesmo que ignorar estar vivo"

 Conta-se que há muitos e muitos anos os homens nasciam, mamavam no seio de suas mães, perdiam a inocência ao passar da tenra idade, adquiriam a violência e a audácia no tempo que era denominado pela biologia de adolescência; por fim, adquiriam algum conhecimento e exerciam um ofício até chegar a velhice. 
O ato final da vida dos homens chamava-se morte. Em que pese isso parecer loucura nos dias atuais, os homens realmente morriam, isso foi assim durante muito tempo. 

 Jayson se levantou da cama entupido de enfado. 

 A ideia do suicídio não parecia ruim aos olhos de Jayson, já há séculos tinha iniciado seu planejamento, mas faltava-lhe coragem. 

 Certa vez assistiu um filme gravado ainda na era pré histórica, em que um rapaz condenado a prisão perpétua cumpriria pena numa daquelas penitenciárias imundas  da antiga América. 
 Angustiado em saber que passaria o resto de sua vida atrás das grades, recebeu o conselho de um senhor de idade que havia passado toda sua vida ali, o conselho era o seguinte: 

"acorde cedo, escove os dentes, tome café, e vá trabalhar,  tire um tempo no almoço, leia um livro, dedique-se a atividade intelectual, tome um pouco de sol quando possível e faça uma caminhada pelo menos uma vez ao dia. Ainda que esteja cansado não se deleite a preguiça e monotonia ao longo do dia, jamais  procrastine ou adie obrigações, volte a sua cela, jante e durma, tente descansar a noite e
produzir ao dia, exatamente como faria se estivesse lá fora, encontrará liberdade e um pouco de paz em seguir uma rotina" 

 Jayson procurava seguir esse conselho, em que pese ninguém mais no mundo esteja preocupado com a atividade intelectual ou com o labor de trabalho. 

 Essas preocupações mundanas não são mais relevantes, trabalho é uma coisa que os homens pré históricos tinham de fazer para se manter quando ainda existiam bilhões de pessoas na Terra e os homens lutavam por alimentos, moradia e dinheiro. 

 Ah, "dinheiro" é uma coisa que existiu nesse tempo, é complicado explicar, mas era essencial, pra qualquer coisa se precisava de dinheiro. 

 No mundo antigo as pessoas precisavam lutar pelo conforto, pela saúde e até mesmo pela sobrevivência. Os homens precisavam lutar contra seus próprios desejos, a maioria dos prazeres era condenado pelo falso moralismo, os homens eram escravos de religiões, que incutiam em suas mentes a ideia de que o trabalho os dignificaria.    

 Há algumas dezenas de anos Jayson decidiu não mais usar drogas, passou a buscar o prazer tão somente na bebida, mas depois de um tempo percebeu também que não fazia sentido ingerir algo para sentir prazer em dançar, o prazer não deveria estar na própria dança? 

 Mais ou menos nessa época decidiu também que não mudaria mais de sexo, seria Jayson, do sexo
masculino, pra sempre. 

 O porquê disso não se sabe, mas aparentemente Jayson se sentiu mais confiante, ou para descrever
melhor, menos instável. 

 Passado algum tempo, percebeu também que as relações sexuais praticadas com frequência não 
o fazia mais feliz, assim como o ato de praticar o sexo sempre com pessoas diferentes.

 Certo dia, Jayson começou a trabalhar, ainda que não precisasse de trabalho, ainda que não houvesse demanda ou necessidade no mundo, Jayson sentiu a necessidade de produzir, a necessidade vinha de dentro, era com ele mesmo, ele era sua própria demanda e a satisfação pessoal o seu próprio salário. 

 A estabilidade pareceu boa aos olhos de Jayson. Boa até demais. E faltava isso ao mundo.

 A maioria dos homens não se preocupavam com isso, usavam drogas todos os dias, mudavam de sexo todos os dias, bebiam, praticavam orgia entre si e deleitavam-se em seus prazeres eternos. 

 Não havia um dia monótono no paraíso a não ser pra Jayson. 

 Esse tipo de pensamento começou a angustiá-lo. Sentiu-se sozinho, percebeu que sua tristeza  vinha do conhecimento "maldita hora que decidi ler manuscritos pré históricos e voltar a ver filmes". 

 Jayson sabia que não podia dar cabo a sua vida, pois isso significaria a condenação eterna, mas pensou só por alguns instantes naquele momento, um pequeno momento que mudaria sua vida para sempre, aquele saudoso momento há milênios de anos em que optou pela imortalidade. 

 Depois que adquiriu certa dose de conhecimento, Jayson entristeceu-se muito e passou a praguejar a ciência, Jayson sentia-se enganado pelos poderosos que o prometeram a vida eterna. 

 Mas a realidade é que Jayson fez sua própria escolha, ninguém o obrigou a submeter-se a implantação do chip da imortalidade, ninguém o obrigou a mesclar o barro de seu gene com o ferro da tecnologia. 
 Não foi à força, foi decisão espontânea sua, todos tiveram o direito de escolher, poderia ter morrido ali, aos quarenta e poucos anos de idade, juntamente com seus pais, no mundo antigo. 

 A esse ponto vocês querem saber se Jayson sucumbiu ao suicídio, talvez vocês se perguntem o que aconteceria caso o tentasse? Mas a resposta pra essa pergunta todos sabem, em que pese essa vida de faz de contas, todas nossas escolhas são conscientes. 

 Todo homem no fundo crê em Deus. 

por: Chaves

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