Parte Um - Uma linda moça
Dizem que o bem e o mal são como alguém e sua própria sombra, algo que não se pode evitar. Dentre as milhares de possibilidades que existem, os diversos caminhos em que minha vida tomou é claro que existem aquelas realidades onde eu não conheci Julyanna, pra falar a verdade gostaria de estar em uma delas.
Por outro lado, Julyanna é minha sombra, só consigo ser bom sabendo da existência do mal e se não houvesse o mal, talvez eu o fosse.
Julyanna nasceu bonita, mas se tornou feia, a escuridão foi tomando pouco a pouco o seu interior até chegar ao ponto em que não da pra ver algo bom nela, apenas breu.
Houve um tempo, entretanto, em que Julyanna era uma adolescente de apenas treze anos de idade que gostava de dançar, uma linda moça com um futuro grandioso pela frente, que tirava boas notas e obedecia sua mãe.
Julyanna veio de uma família pobre na qual até então ninguém havia feito faculdade, mas todos acreditavam que ela seria a primeira.
Julyanna tinha um sorriso encantador, pele branca, cabelos morenos, altura mediana, olhos castanhos, barriga chapada. Praticava dança de salão, competia por sua escola, era convidada pra danças nas festas de São João. Nessa época Julyanna ainda não namorava, apesar de não faltar pretendentes, se dedicava muito mais a escola, com notas excelentes, e a dança, como esporte.
Diante de todas as possibilidades, Julyanna optou pela escuridão.
Parte dois - Um pouco de virtude
A escrivã me perguntou por que diabos aceitei representar Julyanna como advogado naquela audiência?
É claro que não foi por dinheiro porque bem eu sabia que não existiria razão nesse mundo pra pensar que ela pagaria meus honorários em sua totalidade, fiquei até surpreso de ter recebido um quinto do pactuado.
Também não foi por convicção pessoal ou por sentimento de solidariedade porque eu sei que ela é culpada e não pode existir razão nesse mundo que me faça solidarizar com alguém tão ruim, não existem motivos pra sentir empatia por Julyanna.
No dia em que Julyanna fugiu de Goiânia pra sabe-se lá onde todos sabiam que ela iria se prostituir, me fiz de desentendido e a levei na rodoviária, senti-me aliviado por ter despachado esse entulho de nossas vidas e desejei que ela nunca mais voltasse.
As pessoas me perguntam se eu tenho remorso ou vergonha de alguém com o qual me relacionei ter se tornado isso e de verdade, disso eu não tenho.
De toda escuridão que se tornou Julyanna, isso é a única coisa que me faz ver um pouco de virtude nela, porque de todos os crimes que ela cometeu, de todas as pessoas que ela passou pra trás, de todos os sonhos que ela destruiu, de todas as famílias que ela fez desmoronar, de todos os golpes que ela aplicou, de todas as pessoas que decepcionou e deixou pra trás, inclusive nosso filho, de todas as decepções e vexame que ela causou pra sua própria mãe, vó e na verdade de todos que passaram em seu caminho, porque creio não ter havido ninguém nessa vida que ela não tenha magoado.
De tudo isso, de tudo que ela fez, creio que a única em que dava pra ver alguma virtude seria em se prostituir porque apesar da imoralidade é o único ato que Julyanna realizou em toda sua vida adulta que não tenha sido de alguma forma ilegal e que não prejudica ninguém a não ser ela mesma.
Parte Três - A morte de Julyanna
Esses dias Julyanna me mandou um monte de mensagens pedindo desesperadamente pra que eu explicasse pra num sei quem (na verdade um monte de pessoas) o que aconteceu quatro anos atrás.
Não tive paciência de ouvir todos os áudios que ela me mandou, mas ela escreveu que "estava um veneno".
Creio ter chegado no limite da minha paciência.
No futuro, meu filho vai decidir o que pensar a respeito de Julyanna, é uma decisão que só cabe a ele e não cabe a mim influenciar.
Fico triste porque esse domingo é dias das mães, ele chegou em casa contando que está tendo balinhas e chocolates na escola dele essa semana toda porque "é dia das mães pai, eu tenho mamãe, eu tenho a Bee, eu tenho a vovó, tem a titia, é dia da mães pai, é dia da Bee, é dia da vovó, é dia da titia, é dia do papai..."
Essa decisão cabe a ele, eu não permito que jamais alguém ofenda a Julyanna aqui em casa, não permito mesmo e já levei até soco na cara por causa disso, mas eu creio que isso é o maior exemplo que posso dar pra meu filho acerca de como se deve tratar uma mulher, que é com respeito, apesar e em qualquer espécie de circunstância.
Mas Julyanna passou dos limites, dessa vez ela extrapolou todas as regras possíveis e tive que registrar um boletim de ocorrências contra ela. Então a escrivã me perguntou por que diabos eu aceitei fazer aquela audiência como advogado de Julyanna? E não teve como responder isso em voz alta, mas era porque eu vi um pouco de dignidade na atitude de se prostituir, passou pela minha cabeça a hipótese de que, talvez, Julyanna, tivesse decidido nunca mais prejudicar alguém que não fosse ela própria nessa vida. Infelizmente eu estava errado.
Então me perguntaram se eu esperava ver ela punida, presa, condenada, se eu esperava alguma justiça pra Julyanna nessa vida.
E na verdade pra mim tanto faz, ela está morta mesmo. Ela morreu e agora vaga pelo mundo do inferno como naquele desenho do Caverna do Dragão.
Julyanna não tem pra onde ir, não tem uma pessoa se quer nesse mundo que sinta orgulho ou saudade ou se quer compaixão por ela, não há ninguém no mundo que goste dela.
Os familiares de Julyanna sentem vergonha da pessoa que ela se tornou, ela não é bem vinda em sua própria casa.
Julyanna não vê seus filhos há mais de dois anos, eles são pequenos e vão crescer sem ela em suas vidas, o coraçãozinho deles (do meu com certeza) já está preenchido com o amor e companhia das pessoas que fazem realmente parte de suas vidinhas.
Julyanna utiliza nomes falsos em redes sociais porque existem dezenas de pessoas a procurando, existem pessoas que querem vê-la no mínimo morta ou presa.
Julyanna não pode ter plano de telefone controle ou pré pago, Julyanna muda de número a cada duas semanas pra não ser achada, Julyanna vive nas sombras, ninguém sabe onde ela realmente está.
Julyanna não pode ter conta bancária porque todo dinheiro seria comido pela Justiça, Julyanna não pode ter bens em seu nome, não pode ter residência fixa, não pode se quer trabalhar de carteira assinada, Julyanna deve ter votado pela última vez na eleições entre o Lula e Alckmin, ela não tem direitos políticos vigentes, Julyanna se quer pode viajar de avião.
Julyanna mora em uma casa de prostituição e vez por outra é assaltada ou extorquida por agiotas, cafetões e gente da pior espécie. E o pior de tudo é que essas são as únicas pessoas que ela ainda pode contar porque não existe mais ninguém nesse planeta que daria um voto de confiança pra Julyanna.
Julyanna está morta. Talvez ela exista, mas não de verdade. Ou talvez esteja morta mesmo quem vai saber? Se por acaso aconteceu isso alguém reparou? Se acontecer alguém sentiria falta?
por Chaves
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