domingo, 26 de maio de 2019

Samuel, o Juiz

O céu chorava contra a terra; cada gota tão pesada como uma pedra, castigando e umidificando os arredores da casa. Relâmpagos iluminavam subitamente as ruas, toldadas pela noite, e trovões reverberavam-lhe os urros ao longo da vizinhança como uma orquestra de leões, cantando e assombrando todos os moradores dali, alertando-os para ficarem dentro de casa. Lá fora, o vento frio cortava como navalha. Luz rutilava na sala de estar de uma das residências. Lá dentro, na cozinha, uma chaleira assentava calmamente em cima do fogão, adormecida e ainda não quente o bastante. Na sala, uma mão irrefreada escrevia no caderno. Dominava este, assim como um amante subjuga-lhe a amada. A mão continuou escrevendo; fora criada para 'fazê-lo. Era esse seu destino, escrever.

Eventualmente, a mão parou. Com um longo suspiro, o indivíduo largou a caneta, que despencou sobre o caderno, agora cheio de anotações. Calmamente, o homem retirou os óculos, limpou as lentes do dispositivo com uma flanela negra e o repousou sobre a mesa ao lado, junto da caneta e do caderno. Agora, o escritor esperava e observava as ruas afora, através da janela da sala, sentado confortavelmente em sua poltrona. Vestia um pijama branco, um luxuoso roupão negro e aconchegantes sapatos de dormir. Observou a sala ao redor, e fitou os olhos na grande estante que ficava ao lado do banheiro de visitas. Esta, feita de madeira envernizada, brilhava majestosamente, e erguia-se até o teto. Era decorada por livros, troféus e garrafas vazias. Ao lado da estante, a poucos passos de distância, uma mesa auxiliar repousava, enrugada e marcada por riscos de desgaste e manchas causadas pelo sol. Mas lá ficava ela, encolhida, perto da magnífica estante de livros. A pequena mesa parecia esforçar-se para sustentar o retrato e o livro grosso empoeirados que nela jaziam. As paredes da sala eram tão brancas quanto as nuvens da manhã mais bela, com exceção de uma mancha desvanecida em forma de cruz, vestígio do objeto que já não estava mais lá. O ar pesou-se nos pulmões do escritor, e um tênue formigamento mordiscou-lhe a mão direita ao olhar para a mancha que pairava sobre a mesa. Porém, esses incômodos desvaneceram quando o rosto sorridente de sua mãe surgiu-lhe na mente. O ar que respirava percorreu-lhe pelos pulmões suavemente e o formigamento cessou.

"Não falo com ela há tanto tempo...", pensou.

Ela o convidou para visitá-la em casa várias vezes nos últimos meses, mas ele recusou:

"Perdoe-me, mãe. Estou bastante ocupado, sabe...? Meu livro...", essa era sempre sua resposta.

Não obstante, Maria, sua mãe, insistia em vê-lo através de chamadas de vídeo pelo celular.

"Por que não manda mensagem, mãe? É mais fácil", dissera sorrindo uma vez.

"Pra mim, é mais fácil fazer chamada de vídeo", ela respondera, "é só apertar um botão. Além disso, posso vê-lo", concluira sorrindo.

Recordou-se da última vez que a visitou. Ela serviu-lhe chá, como de costume, e falou; o escritor ouviu, mas não escutou. Não escutava o que ela dizia há algum tempo. Desde quando...

Maria adorava falar sobre as experiências engraçadas que tinha no instituto onde trabalhava. Nunca se esqueceu de quando ela o contou sobre Marcos, um dos pacientes de lá:

"Ele sempre pede que eu massageie os ombros dele", Maria dissera aos risos, "me falou que tenho mãos macias."

Ainda riam juntos nessa época...

Quando Maria se aposentou, começou a fazer trabalho voluntário em um instituto de deficientes mentais; dizia que isso mantia-lhe a mente ocupada e afastava o enfado e outros sentimentos ruins de si. Lia no rosto de sua mãe que ela gostava do trabalho, pois passava horas e horas falando sobre o mesmo quando se viam, além de beberem chá e rezar. Outrora, o escritor regalava-se com tudo isso... 

"Como está sua pequenina?", perguntou-lhe a mãe da última vez que a visitou.

"Está bem..."

"Não a vejo há muito. Sinto saudades daquela mocinha linda. Quando poderemos visitá-la novamente?"

"Não sei", respondeu indiferente.

"Está tudo bem? Você anda tão... disperso."

"Sim, mãe...", as palavras flutuavam-lhe, apaticamente, para fora da boca.

"Você sabe que pode me falar qualquer coisa. Quero o seu bem..."

"Sim, mãe. Eu sei."

"Anda bebendo?", ela perguntou e segurou-lhe a mão direita, que repousava, adormecida, em cima da mesa, sem tocar a xícara de chá.

"Não", ele retirou sua a mão dali, abandonando a de Maria, que tremia, solitária, em cima da mesa.

"Tem rezado? Tem lido a Bíblia?"

"Sim", mentiu.

"Vamos à igreja juntos neste final de semana? Creio que irá ajudá-lo.. faz tanto tempo que não vamos juntos... desde...", não concluiu. Bebericou seu chá e fitou o chão.

"Bem... eu ando bastante ocupado, sabe? Escrevendo... tenho que terminar meu livro. Depois... depois nós vamos."

"Ah, sim... entendo. Tudo bem", ela sorriu, mas seus olhos ficaram vermelhos.

Sentia o coração pesado por ter recusado o convite de sua mãe. Era bastante religiosa. Ela presenteou-lhe com a Bíblia sagrada e uma cruz quando ele se casou. Também levava-o à igreja ao menos uma vez na semana quando era criança, além de rezar ao seu lado todas as noites antes de colocá-lo para dormir. Quando o escritor não conseguia adormecer por medo do escuro, ela recitava-lhe os versículos de Salmos, capítulo 121:

"'Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro.
O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.
Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará.
Eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel.
O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita.
O sol não te molestará de dia nem a lua de noite.
O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.' Boa noite, querido. Mamãe te ama."

Recordou-se do confortável e quente abraço que o sono lhe concedia ao ouvir a gentil voz de sua mãe murmurar tais versículos. Agora, esses abraços eram escassos; o sono parecia fugir-lhe com demasia, e sua cama passara a ser um lugar de recordações amargas e de visitantes efêmeras. Sentia-se mal por não visitar a senhora sua mãe com mais frequência, mas sua mão tinha o objetivo de escrever, e nada poderia impedi-la. Nada. Encarou no mar de escuridão afora, e então olhou o relógio de ouro que adornava-lhe o pulso destro. Ainda era cedo.

"Mais alguns minutos até o chá ficar pronto", pensou.

Seus olhos encontraram-se com a velha mesa sobre a qual o livro e o retrato jaziam. Hesitou por um instante, mas acabou levantando da poltrona e se dirigiu ao móvel. Viu a mancha na parede deixada pela cruz ausente que pairava sobre a mesa à sua frente ficar maior ao aproximar-se. Apesar de estar a poucos passos de distância, a caminhada até lá pareceu demorar horas. A frágil mesa encolheu-se diante dele como um idoso debilitado. Poeira envolvia por completo o grosso livro, com uma cruz na capa. Estendeu a mão direita como se fosse tocá-lo, mas um formigamento mordiscou-lhe o punho. Recuou. Cravou os olhos no retrato ao lado, também empoeirado e castigado. Ao encará-lo, a orquestra da tempestade lá fora desvaneceu lentamente. Três sorrisos ornamentavam a foto: o de uma mulher, o de um homem e o de uma garotinha, em meio aos dois adultos. Fitou friamente a mulher e a si mesmo por um segundo. Os lábios destes esboçavam algo semelhante a sorrisos, e suas faces eram de um branco fantasmagórico. Esfriou-se-lhe o sangue e tremeu-se-lhe a mandíbula ao ver o rosto da mulher, e imediatamente, o escritor postou os olhos na garotinha. Na foto, abraçava-os, e seu cabelo reluzia uma cor dourada bastante viva. O rosto dela emitia uma luz quente, e ela tinha o sorriso mais sincero dos três. Congelou-se a barriga e pesou-se o coração do escritor. Imediatamente, retirou o olhar do retrato e fugiu dali para a magnífica estante de livros e troféus ao lado. Admirou-a e todos os objetos que repousavam nela. Sua bela madeira marrom envernizada brilhava e aquecia a sala. Passeou com os olhos pelos retratos, livros e garrafas vazias. Porém, fixou o olhar em um grande troféu dourado em forma de mão. Destra e reluzente, se destacava na estante, e dentre os dedos, repousava um lápis. Segurou o troféu por um momento. Desvaneceu-se-lhe o frio na barriga, assim como o peso dentro do peito. Um sutil sorriso escreveu-se-lhe nos lábios. Após devolver a mão dourada ao seu devido lugar, conseguiu ouvir novamente o barulho da chuva e dos trovões. Por um momento, esquecera do temporal lá fora. Virou-se em direção à cozinha. Já era hora. O chá já devia estar quase pronto.

Quando estava prestes a dar o primeiro passo, três fortes batidas fizeram a porta de entrada de sua casa tremer. Ele parou. A chuva castigava o local com mais força ainda; os raios iluminavam sinistramente os cômodos sombrios da residência, seguidos pelos rugidos reverberantes dos trovões. Virou-se. Encarou a porta.

"Quem pode ser numa hora dessas?", disse consigo mesmo. Esperou mais um pouco. Poderia estar ouvindo coisas.

"TUM, TUM, TUM!", as três batidas atingiram a porta com mais força ainda.

"Quem é?!", indagou. Tentou soar firme, mas sua voz tremeu um pouco.

Ninguém respondeu...

Arrepios escalaram-lhe a espinha dorsal. Franziu o cenho e respirou profundo. Seu celular estava no bolso, caso precisasse. Dirigiu-se à porta com passos leves e lentos. As luzes da sala ameaçaram apagar-se por um breve momento, mas ficou grato por isso não ter ocorrido. Espiou pelo olho mágico da porta...

O ar escapou-lhe dos pulmões por alguns segundos.

Do outro lado, uma figura envolta em vestes negras se erguia, alta e esguia, debaixo de um guarda-chuva, também negro. O escritor afastou-se da porta e retirou o celular do bolso. Cogitou chamar a polícia.

"Por que não respondeu nada quando perguntei quem era?", pensou. Também ponderou subir as escadas e chamá-la, avisá-la, ou ao menos perguntar o que pensava sobre tudo aquilo. Mas era de madrugada e não queria acordá-la. Também não queria soar como um covarde.

"Não pode ser coisa boa numa hora dessas...", concluiu. Desbloqueou a tela de seu celular, mas quando estava prestes a digitar, mais três batidas agrediram a porta atrás dele:

"TUM, TUM, TUM!"

Deixou o celular cair no chão.

"Quem é'?!", o escritor perguntou mais alto.

"Olá!...", respondeu a voz lá fora, "...lamento perturbá-lo assim tão tarde! Meu carro estragou no meio da estrada! Só preciso utilizar seu telefone para chamar o reboque."

...

"Não irei demorar um segundo, prometo!", continuou, "peço perdão por te incomodar, mas poderia me ajudar com esse problema?"

"Não tem celular?", redarguiu o escritor.

"Qual é o seu nome?"

"Meu nome?! Nem te conheço..."

"Sim, é claro. Perdão. Estava tentando ser cortês. Meu nome é Samuel. Estava voltando de uma viagem a serviço quando meu carro pifou. Ao sair do carro para checar o motor, meu celular caiu no chão alagado. Não funciona mais... caminhei um pouco em busca de um telefone público, mas não achei nenhum. Então vi a luz da sua sala acesa... poderia me ajudar, por favor, senhor...?"

"Por que não esperou o dia amanhecer para viajar?", interrogou. Não obteve resposta. Continuou:

"Por favor, retire-se. Ou... ou chamarei a polícia", avisou.

"Não estou mentindo... tive que viajar nesta hora por motivos pessoais. Houve uma emergência... alguém próximo a mim precisa muito de minha ajuda. Mas... tudo bem. Não precisa abrir a porta, nem chamar a polícia. Não quero confusão. Vou me retirar."

Estava dividido. Não sabia se ele falava a verdade, mas o temporal iria castigá-lo. E se esse alguém próximo a ele realmente precisasse de ajuda? Finalmente, tomou uma decisão:

"Espere!", o escritor gritou para que o homem pudesse ouvi-lo, "Rafael... meu nome é Rafael."

"Rafael", ele respondeu, "permita-me fazer somente uma ligação. Será rápido, prometo."

Hesitou mais uma vez, mas acabou abrindo a porta. O vento arrepiante adentrou a sala e se espalhou pelos cômodos da casa. As frias e finas gotas de chuva umedeceram-lhe o rosto. O corpo de Rafael estremeceu, apesar do roupão que o cobria. Lá fora, a chuva estava bem mais forte do que pensava. Sentiu-se mal por ter feito o homem esperar por tanto tempo.

"Perdão. Não podemos confiar em qualquer um nos dias de hoje, sabe?", Rafael explicou-se.

"Tudo bem... não o culpo."

O homem fechou o guarda-chuva, revelando-lhe o rosto pálido, fino e pontiagudo. Tinha os olhos tão escuros quanto a própria noite, toldados por profundas olheiras. O estranho chacoalhou o guarda-chuva antes de entrar e enxugou a sola dos sapatos, também negros, no tapete de boas vindas da porta. Trajava um terno, gravata e calças sociais. Rafael fechou a porta imediatamente após ele entrar.

"Que chuva! E que azar o meu... moro tão perto. Estou a poucos quilômetros de distância de casa."

Só agora o escritor reparou na voz do estranho, não destorcida pelo barulho da tempestade lá fora. Era baixa e profunda, e soava como algo que nunca ouvira dantes.

"Sim, sim... sente-se!", apontou para o sofá da sala. "Aqui, pode usar meu celular."

Entregou-lhe o aparelho enquanto o homem se aconchegava no sofá. Ao sentar-se, os olhos do homem chamado Samuel estudaram a sala. Fixou o olhar rapidamente na estante e na velha mesa.

"Muito obrigado", disse Samuel.

"Vou pegar uma toalha para se enxugar um pouco...", disse Rafael.

Dirigiu-se ao banheiro da sala, pegou a toalha de rosto e a entregou ao indivíduo. Enquanto o homem tentava ligar para o reboque, enxugou-se e devolveu a toalha com um tênue sorriso familiar no rosto. As pálpebras do homem pendiam, como se pudessem fechar-se a qualquer instante, e os círculos escuros que contornavam-lhe os olhos davão uma sensação de desconforto a Rafael. Samuel tentou ligar várias vezes, em vão. Então, desistiu e colocou o celular em cima do sofá.

"Bem...nenhum telefone atende."

"Provavelmente por causa da chuva", redarguiu o escritor, "ou por causa do horário."

"Olhe, me desculpe. Se quiser, posso me retirar e esperar a chuva passar em meu carro. Já te incomodei demais."

Rafael quase concordou. Por um segundo, quis falar àquele estranho para ir embora; sair e nunca mais voltar. Porém, sentiu pena do homem... a natureza estava furiosa naquele dia.

"Fique tranquilo", acabou dizendo, "a tempestade irá passar em breve. Pode ficar até então."

"Obrigado, mas provavelmente quer descansar. Creio que não é capaz de fazê-lo com um estranho debaixo de seu teto."

"Já descansei o suficiente. Não se preocupe. Estava até fazendo chá... Aceita?"

Samuel esboçou aquele mmesmo sorriso novamente.

"Sim", ele respondeu, "muito obrigado."

"A cozinha... é por aqui..."

Ao virar as costas, o homem chamado Samuel aparentou crescer. Não parecia mais ser o indivíduo para quem abrira a porta da casa; era como se ele ocupasse todo o cômodo atrás de si. Um enorme peso caiu sobre as costas do escritor, pressionando-lhe os ombros para baixo. Parou. Olhou para trás. Lá estava o homem: alto, mas não do mesmo tanto que sentiu quando deu-lhe as costas, esguio e com olheiras pesadas. Os lábios do estranho encresparam-se, formando-lhe um sorriso no rosto pálido. Sorriso bastante familiar... Rafael também encrespou os lábios, e lhe deu as costas mais uma vez. Sentiu aquela mesma sensação novamente, como se o homem atrás de si se apoderasse de toda a sala. Só que desta vez, não olhou para trás; seguiu direto para a cozinha. Lá, Rafael puxou uma das cadeiras da mesa de jantar e fez um gesto para que o homem se sentasse. Ele o fez, e com um aceno, agradeceu.

"Bela casa", Samuel disse.

"Obrigado", respondeu o escritor, "a pessoa que precisa de sua ajuda... é urgente?"

"Ah, sim... ela ficará bem", sorriu.

"...ah", respondeu Rafael, "tem certeza? Parecia ser bastante urgente..."

"Sim... tudo vai ficar bem agora", sorriu novamente; mas este sorriso perpetuou. Os olhares dos dois se cruzaram. Viu olhos negros. O formigamento na mão direita de Rafael voltou a incomodá-lo. Ele abriu e fechou os dedos lentamente com a intenção abrandar a tênue dor. Desviou a atenção para a chaleira e a tocou cautelosamente. Estava fria. Mais fria do que antes de colocá-la no fogão.

"Estranho", disse consigo mesmo, "já deveria estar começando a apitar".

Percebeu que o fogão estava desligado. Tentou acender a chama novamente, mas ela se apagou rapidamente, como se tivesse sido sugada por algo. Teve aquela sensação atrás de si de novo enquanto tentava reacender a boca do fogão. O formigamento voltou a mordiscar-lhe o punho destro. O frio invadiu subitamente a cozinha e abraçou Rafael por trás. A respiração pesou-se-lhe nos pulmões. Rafael arquejou.

"Tudo bem?", perguntou Samuel.

"Sim... sim. Ficando doente... esse tempo, sabe?"

"Então esse chá vai lhe fazer bem", respondeu com outro sorriso.

"Sim... vai sim..."

Finalmente, conseguiu acender a chama da boca do fogão. Um breve silêncio caiu sobre a cozinha.

"Rafael, sente-se. Sinta-se em casa", disse sorrindo.

"Ah, sim... claro", riu desengonçadamente em resposta.

Sentou-se em frente ao homem. Remexia-se na cadeira, incapaz de se acomodar.

"Então...", disse Rafael, "Samuel... o que faz da vida, se me permite perguntar?"

"Sou juiz", respondeu.

"... juiz? Legal", forçou um sorriso.

Silêncio. Rafael pigarreou.

"Deve ser bastante ocupado", ele continuou.

"Muito. Não é fácil."

"Imagino. Culpar, inocentar... muita responsabilidade, não é?"

"Ah, mas eu sempre sei quem é culpado ou inocente", disse encarando o escritor nos olhos, "a questão é... e o réu? Também sabe?"

"...entendi", respondeu intrigado.

"O mais difícil de um julgamento é o despertar", continuou Samuel, "o abrir dos olhos; é difícil e doloroso. Meu maior desafio é esse; ajudar o réu que não vê a começar a ver. E mais importante ainda, entender o porquê da pena aplicada. É como um bebê que chora ao abrir os olhos para enxergar a realidade ao seu redor pela primeira vez. Dói, mas é um preço justo que deve ser pago para não se viver na cegueira para sempre."

O que ele disse deixou Rafael perplexo. O sorriso de Samuel perpetuava. Um sorriso tênue, frio... e forçado.

"...sim, claro", o escritor devolveu com uma risada baixa e sem graça, "...em qual área atua? É juiz criminal? Cível?"

"Atuo em todas essas áreas", respondeu secamente.

"Entendi...", respondeu Rafael, mais confuso ainda.

"Você é escritor", disse Samuel. Pausou. Mas não desviou os olhos, "belo troféu na sala", continuou, "belo prêmio. É membro de alguma academia de letras?"

"Não", respondeu Rafael com um sutil riso. "...ainda não. Quem sabe no futuro, se Deus quiser."

"Sim... se Deus quiser", disse Samuel. Seus olhos ainda o penetravam, fixos. Não se moviam. Sequer piscavam.

"Escreve sobre o quê? Se me permite fazer tal pergunta, é claro."

A cortesia dele o acalmava um pouco. Mas havia algo sobre o homem que deixava Rafael inquieto. Esperava que a chuva passasse logo para que o homem fosse embora.

"Escrevo livros de autoajuda."

"Interessante", disse Samuel, "parece ter mais responsabilidade em suas mãos do que eu."

"Sim, mas eu...", refletiu o escritor, "eu gosto disso... ter a oportunidade de ajudar pessoas que sequer conhecerei. É muito bom. Amo o que faço."

"Bem, pelo que vi em sua sala, realmente ama o que faz... mais do que tudo", sorriu e encarou o escritor.

A chaleira começou a emitir um apito tênue.

"Tem bastante orgulho do que faz, não é?", ele continuou. Cerrou os olhos, fixos em Rafael. E o sorriso continuava lá.

"Bem... sim."

O escritor desviou os olhos dos de Samuel. Pigarreou. Continuou:

"Uma vez conheci uma fã que tinha depressão...", suas mãos tremiam sutilmente; a chaleira começou a emitir um apito mais forte.

"... ela me disse que meus livros ajudaram-na a superar a doença. Fiquei muito feliz."

"Sim...", concordou Samuel com os olhos ainda cerrados, "como você é bom..."

Rafael sorriu, ansioso, em resposta, "cada um ajuda como pode."

Samuel acenou lentamente a cabeça em resposta, ainda encarando-o. O escritor postou o olhar no chão e pigarreou novamente. A chaleira apitava alto.

"Sim...", Samuel finamelte redarguiu, com os olhos semicerrados, "responda-me algo, Rafael..."

Após alguns segundos de silêncio, concluiu:

"...por que não conseguiu ajudar a própria esposa?"

A pergunta o pegou de surpresa. Rafael ficou perplexo. O apito da chaleira, alto e estridente, agora enchia a cozinha.

"Perdão?! O que?!"

E a chaleira apitava alto...

Rafael se perdeu nas palavras, pesadas demais para serem ditas. O passado lúgubre cortou-lhe a mente, e ficou preso em uma espécie de transe. As feições dela reapareceram em sua imaginação. Loira, pele clara... e triste.

E a chaleira apitava alto...

Recordações apoderaram-se-lhe dos pensamentos: um olhar, uma conversa, um abraço, um beijo; ele de joelhos, ela sorrindo, hospital, um bebê, uma criança, uma família, uma bíblia, um retrato, uma cruz na parede; escrever, garrafas vazias, brigas, escrever, psicólogos, escrever, mais brigas; sorrisos ausentes, escrever, garrafas vazias, criança ausente, remédios, overdose, hospital; papéis, advogados, escrever, mais garrafas vazias, faca, sangue, hospital, funeral, bíblia empoeirada, retrato empoeirado, cruz quebrada.

E a chaleira apitava alto...

Acelerou-se-lhe o coração dentro do peito; batia tão rápido que aparentava querer sair dali. O formigamento voltou a mordiscar-lhe a mão direita; lágrimas subiram-lhe aos olhos, mas nenhuma delas escorreu-lhe o rosto.

E a chaleira apitava alto...

De súbito, voltou-lhe a consciência para o mundo real. Ele se recompôs. Conseguia pensar com mais clareza agora. Parecia ter perdido-se nas próprias memórias por uma eternidade.

"C-como...", parou um pouco, "como você... sabe?", conseguiu vomitar algumas das inúmeras indagações desordenadas que tinha, "q-quem é você?"

Encarou o indivíduo em sua frente. Agora, o sorriso do estranho desvanecera. Enxergava um homem austero, com um olhar que lhe rasgava a alma. Seus olhos pareciam mais negros do que antes; duas órbitas escuras que buscavam sugar algo de Rafael.

"O chá primeiro", disse Samuel, "retire a chaleira do fogão. Pegue duas xícaras e sirva-nos. Depois, sente-se para continuarmos nossa conversa."

Rafael continuou fitando a figura em sua frente. Não conseguia se mexer. Estava petrificado.

"Você... é algum policial? Algum agente?", perguntou, mas sabia que a resposta seria...

"Não."

A não ser pelo som da chaleira, o silêncio dominou a cozinha, e só agora Rafael percebeu que o temporal cessara. Porém, o frio continuava. Congelaram-se-lhe as entranhas, e retesaram-se-lhe os pelos dos braços.

"Sou juiz. Não menti para você. Agora, levante-se e pegue a chaleira, por favor."

"O-olha", continuou Rafael, ofegante, "n-não sei o que você quer... mas eu abri a porta de minha casa para você. Te ajudei. A chuva... parou. Já pode continuar. Já pode... ir. P-por favor, não sei o que você quer... m-mas... p-por favor..."

O homem parecia pedra. Nada que Rafael disse o fez mudar de feição. Continuou encarando-o friamente.

"A chaleira, Rafael", disse.

Suava. Tremiam-se-lhe os braços sob a mesa. Com muita força, conseguiu mover as pernas, pesadas como pedras. Lembrou-se que o celular estava na sala, em cima do sofá.

"Posso... ir ao banheiro?"

"Agora não, Rafael. Agora irá pegar o chá."

Respirou profundo. Nunca imaginou-se numa situação dessas. Seus pensamentos decolaram enquanto levantava-se para buscar o chá. Desde quando o observara? O que queria? Como sabia que era viúvo? Teria ele uma arma? Ao dirigir-se para a chaleira, sentiu-se espiado, apesar do indivíduo sequer mexer a cabeça. Novamente, uma força invisível caiu sobre Rafael, pressionando-o, como se quisesse fazê-lo implodir. Sua mão direita voltou a doer...

A chaleira cessou seu apito ao ser retirada do fogão, e o silêncio desabou sobre toda a casa. Lembrou-se da companheira no andar de cima. O que faria agora? Ao colocar o recipiente na mesa, ouviu o chá dançar lá dentro. O rangir agudo emitido pela alça, ao soltá-la, cortou-lhe os ouvidos, assim como o tinir do impacto da mesma com o alumínio da chaleira. Posicionou a xícara e o pires em frente a Samuel. O barulho seco dos objetos de porcelana se encontrando ressoou por toda a casa. Perguntou a si mesmo se ela teria acordado. Os olhos de Samuel finalmente se moveram; voltaram a rasgá-lo, e as mãos de Rafael voltaram a tremer. A mão direita doía-lhe e pulsava tão forte quanto o coração. Rafael soltou um gemido baixo de dor.

"Espero que passe em breve", disse o juiz, "mas isso depende de você, é claro. Agora, sente-se."

Obedeceu. Sentou-se na mesma cadeira de antes, do lado oposto de Samuel, e em frente ao mesmo. O estranho bebericou o chá. Depois, serviu Rafael calmamente.

"Beba. Vai sentir-se mais calmo."

Respirou lentamente. Acalmou-se. Então, encontrou a coragem que lhe escapara:

"Fale logo o que quer. Se quisesse machucar alguém, já o teria feito. Não está aqui para fazer isso. O que quer? Dinheiro? Leve tudo. Só o faça logo. Não resistirei nem chamarei a polícia. Por favor, só o faça logo. Depois, vá embora. Deixe-nos em paz."

"Burro!", pensou Rafael, "Seu burro! 'Deixe-me!' Deveria ter falado 'deixe-me!'"

"Não estou aqui por dinheiro, Rafael. E não se preocupe com a moça lá em cima. Ela não tem nada a ver com o que se passa aqui."

"O que quer então?! Por favor, não me machuque", sua voz tremia.

"Eu não quero vê-lo machucado. Mas também não posso prometê-lo que irá sair inteiro desta conversa."

"Meu Deus!", exclamou, amedrontado, "Por favor, e-eu tenho família", implorou.

"Sim. Eu sei. Sei muito bem que tem família."

"Não machuque-os, por favor..."

Sentiu um rio de lágrimas querer subir-lhe à cabeça e jorrar-lhe pelos olhos, mas conseguiu conter-se.

"Não irei machucá-los; irei ajudá-los. Irei livrá-los. Livrá-los da dor. Livrá-los de tudo."

As luzes de toda a casa se apagaram, e Rafael foi engolido por um mar de trevas.

"Meu Deus do céu!", gritou Rafael, "Deixe-os fora disso, por favor!", berrou desesperado.

"Ave Maria, cheia de graça...", começou a rezar e o rio de lágrimas bateu-lhe contra as pálpebras dos olhos, agora fechados, "O Senhor é convosco...", as palavras prenderam-se-lhe na garganta, "bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre...", seu coração queria sair pela a boca, "Jesus!", terminou, em vão.

"De nada adianta rezar sem enxergar, Rafael", disse a voz à sua frente. A presença do homem ocupou a casa por completo; ouviu o ar arrepiante exalado pelas narinas do estranho por todos os lados. Não conseguiu segurar mais. Rafael desabou em prantos ao continuar a oração.

"Santa Maria, Mãe de Deus...", soluçou e bebeu das próprias lágrimas, "rogai por nós...", os soluços dominaram-lhe a garganta por completo, "pecadores, agora e na hora da nossa morte...", com as mãos fechadas com força, as unhas perfuraram-lhe a própria pele. Seu punho direito estava prestes a explodir; sua boca era um cálice de lágrimas. Após três longos e pesados soluços, terminou, com dificuldade: "... Amém!"

Com as pálpebras ainda comprimidas, sentiu os ombros leves e a casa vazia. Apesar dos cortes feitos pelas próprias unhas, sua mão parou de doer. Acalmou-se. Decidiu abrir os olhos, e a luz da cozinha adentrou-lhe as córneas. Mas lá continuava ele, imóvel, austero, taciturno.

"Mais calmo?", perguntou o juiz.

"Q-que diabos é você?!", perguntou Rafael, com a voz ainda trêmula, limpando as mãos sujas de sangue em seu roupão.

"Já lhe disse. Meu nome é Samuel", bebericou um pouco mais de seu chá, "Sou juiz. Não quero vê-lo machucado, mas estou aqui para fazer meu trabalho."

"Seu trabalho? Isto é um pesadelo. Acorde!", gritou Rafael, "Acorde!"

"Não é um pesadelo, Rafael. Enxergue logo a realidade e poderemos acabar com isto. E por favor, tente manter a calma."

"Vai... vai me julgar pelo quê? Não fiz nada de errado! Não machuquei ninguém!", gritou esperando ser ouvido pela companheira lá em cima, em seu quarto.

"Será?", rebateu o juiz.

"Sou... sou uma pessoa normal! N-não fiz nada de mais", suplicou. Não queria ficar sozinho ali...

"Veremos..."

Ass: Wally

5 comentários:

  1. Nossa Diogo achei ótimo meu filho.. uma trama interessante e intrigante. Mas afinal...ele é juiz mesmo? Rss

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    1. Fico feliz por ter gostado, mãe. Vou escrever a continuação e poderá tirar as próprias conclusões! :)

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  2. Wally, parabéns pelo conto. Gostei muito. Você é um "escriba" talentoso. Sou escritor, membro vitalício da cadeira 29 da Academia de Letras de Goiânia. Vou indicá-lo ao Antonio Almeida, editor da editora Kelps, que tem sido um grande suporte à cultura e letras, em especial, o jovem escritor que inicia no ofício das letras.

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