"Quer casar comigo?", perguntou de joelhos.
Atônita, ela cobriu a boca com as mãos e o fitou por alguns segundos. Por um breve momento, Rafael pensou que ela diria não, mas as palavras que quebraram o silêncio insuportável foram outras:
"Sim", disse ainda perplexa, com os olhos esmeralda avermelhados pelas lágrimas, "sim!", repetiu mais alto e abanou o rosto com a mão esquerda, "é claro que sim!"
Acentuou-se-lhe o palpitar do coração:
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Gentilmente, colocou a aliança no anelar canhoto de Ada. Levantou-se. E eles se abraçaram mais forte do que nunca. Um intenso e rápido pulsar veio de dentro do tórax dela enquanto a envolvia nos braços.
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Sentiu o ombro no qual ela repousava a cabeça umedecido. Quando a encarou novamente, viu lágrimas rolarem-lhe dos olhos. Ela disse:
"Eu... eu te a-"
"Eu também. Eu também."
O ar estava fresco. O vento doce beijava-lhe o rosto e as folhas das árvores à sua cercania farfalhavam airosamente. O sol começava a esconder-se atrás do lago quiescente que repousava logo ao lado. O sereno cheiro da água, ruborizada pelos derradeiros raios de luz, enchiam prazerosamente os pulmões de Rafael. Nunca esteve tão feliz.
"Então era esse o seu plano desde o princípio? E eu bobinha pensei que somente sairíamos para assistir a um filme no cinema e ir jantar", disse rindo. Enxugou as lágrimas do rosto.
"Bom que não percebeu", riu de volta, "teria estragado a surpresa."
"Pensando bem, você estava agindo de modo estranho desde quando me buscou em casa. Abriu a porta do carro para mim e puxou a cadeira para eu sentar no restaurante. Também quis jantar mais cedo porque disse que queria ver o pôr do sol no parque comigo. As pistas estavam por todos os lados, eu que não percebi", riu novamente. Amava a risada dela.
"Como assim, 'estranho'? Está me dizendo que de costume, não sou cavalheiro?", brincou.
"Bem... sempre foi educado e gentil, mas nunca foi um Romeu da vida. Não estou reclamando, só que... pode ser assim sempre, tá?"
"Tudo bem, Julieta", olhou os arredores e perdeu-se na nostalgia que aquele lugar proporcionava. Continuou:
"Lembra-se daqui? Foi aqui que nós começam-... o que foi?"
Estava cabisbaixa e parecia aflita.
"Nada... é só que... e sua mãe?"
"O que tem, minha mãe?"
"Ela já sabe?"
"Sim."
"Não mente?"
"Não. Por que iria mentir? É minha mãe. Ela tem que ficar sabendo uma hora. Vamos nos casar, Ada... não é tipo de coisa que dá pra esconder, sabe? Mesmo se quisesse..."
"O que ela achou?"
"Ficou feliz."
"Seja sincero, por favor."
"Não mentiria pra você. Aliás, você a subestima muito. Ela gosta de você."
"Tá bem... isso porque acabou de falar que não mentiria para mim."
"Não minto. Ela ficou feliz!"
"Para, Rafa."
"Por que ela não ficaria?"
"Bem... depois de...", ela desviou o olhar, "bem, já não gostava muito de mim quando me conheceu porque ela é muito religiosa, já eu..."
"Isso nunca interferiu em nada."
"Tá... não era tão ruim assim antes. Mas depois do incidente... quando ficou sabendo o que eu tinha feito... quando me viu no hospital naquele estado, ela me chamou para igreja dela, mas eu não quis ir... aí ela mudou de vez comigo. Nunca mais foi a mesma. Foi um erro meu, eu sei. Deveria ter ido, não custava nada. Mas eu estava naqueles momentos, sabe? Eu mesma não me reconheço quando fico daquele jeito."
"Isso é coisa da sua cabeça, Ada. Ela sempre gostou muito de você. Ela só queria te ajudar, só isso. Ela é assim mesmo. Tenha paciência. Com o tempo, vocês duas vão se dar muito bem, tenho certeza."
Ela continuava cabisbaixa.
"Olha...", continuou Rafael, "só acredite em mim, tá? Vai dar tudo certo. Já te decepcionei?"
"Não...", ela começou a chorar.
"Meu amor... o que foi?"
"Por quê?", Ada o fitou, com o olhar ruborizado, "Por que eu? É talentoso... poderia estar com o-", parou de falar. Fechou os olhos, que verteram lágrimas silenciosas, e comprimiu os lábios, "Bem... poderia não estar comigo. Eu sou... doente. Tenho algo que vai me assombrar para sempre, Rafael."
"Eu sei. Mas quero estar lá todos os dias para ajudá-la. De agora em diante, somos nós dois contra aquilo. Nunca mais terá de lutar sozinha. Nunca mais."
Ela sorriu e o abraçou.
"Nunca mais. Prometo", pensou.
Dentro dos peitos do casal, intensas batidas se uniam em uníssono:
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Ada enxugou o pranto do rosto mais uma vez.
"Nossa", ela disse, "que dia intenso", sorriu. Continuou: "sim, eu me lembro deste parque. É lindo aqui. Comprou sorvete para gente daquele vendedor ali. O mesmo sorvete que você deixou cair no chão", ela gracejou.
"Fiz um favor pra você. Te poupei de fingir que estava gostando. A careta que você fez quando experimentou...", sorriu, "...só que não tinha coragem de falar. Estávamos só... como é que a garotada fala?... 'ficando'. Hoje em dia, você mesma bateria na minha mão para derrubar o sorvete."
"Você também fez careta quando experimentou. Aí deixou a coisa cair 'sem querer'", fez os gestos de aspas com os dedos. Riram juntos. Olharam-se nos olhos... e seguraram mãos.
"Quer terminar de ver o sol se pôr?", perguntou Rafael.
"Sim", ela respondeu sorrindo de orelha a orelha. Ele apreciou os detalhes daquele sorriso. Inexplicavelmente, o tempo desacelerou. Cada segundo pareceu durar horas; um presente de Deus, como se Ele soubesse que o escritor queria se perder no vasto oceano que era a beleza dela, e também nas suas imperfeições. Admirou o cintilar esverdeado em seu olhar, chamas esmeraldas que escaldavam o coração de Rafael, assim como as tênues rugas que ornamentavam-lhe os arredores dos olhos. Deixou os ternos lábios de Ada lançarem-lhe um feitiço, o levando para um lugar onde não poderia ouvir nada além da canção amena e gentil da voz e das risadas dela; mas também regalou-se com a timidez da pequena cicatriz que adornava-lhe o canto direito do lábio superior. Bebeu do dourado emitido por seus cabelos e contemplou o sol desvanecer atrás dela, coroando-a com as belas chamas rubras da luz do fim do dia; permitiu que a mistura do áureo dos cabelos e do fogo do sol colorisse-lhe o mundo ao redor, como se aquela imagem fosse um quadro mágico, desenhado pelo mais prestímano dos magos; um quadro gracioso e deleitoso, donairoso e apolíneo, perfeito e imperfeito. Mas até mesmo em suas imperfeições, perfeito, assim como ela.
...
Apreciou aquele momento.
...
Se embriagou atemporalmente com aquela obra de arte. Mas então, sentiu as pernas, mãos, braços, rosto, boca e língua pegajosos. Pesaram-lhe as roupas, encharcadas, sobre seu corpo. Um líquido vermelho-escuro cobriu-lhe a visão. Relutantemente, privou a pintura em sua frente de sua admiração e olhou para as mãos.
Sangue.
"Não", olhou para os pés, pernas e braços, desesperado.
Sangue.
"Não! não, não, não!", urrou. Redirecionou a atenção para onde o quadro que pintara estava, mas deparou-se com uma banheira que transbordava mais vermelho ainda. Ao seu redor, as paredes tinham em sua superfície letras carmesim que liam:
"FRACA, INÚTIL."
"NÃO!", bradou, "não me deixe aqui de novo! Não me abandone aqui! Imploro! POR FAVOR!"
Silêncio. Começou a chorar.
"Por favor... não...", suplicou aos soluços, "não me abandone de novo... Tinha me salvado... por favor..."
Silêncio.
"É tudo culpa sua! SUA! Quer me ver sofrer!", as palavras rasgaram-lhe a garganta, apesar dos alertas de dor para não dizê-las que sua mão direita o enviou, "por quê?!", indagou aos prantos, "por que quer me ver sofrer?!"
Seus protestos pairaram sozinhos no banheiro, até serem quebrados por um borbulhar vindo da banheira. Bolhas avermelhadas emergiam do denso sangue que lá jazia, fazendo o líquido escuro transbordar e encharcar mais ainda a porcelana do chão. Um agressivo e alto palpitar de um coração ressoou no banheiro.
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
E então...
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
... ela levantou-se lá de dentro com a faca em mãos. Sua coroa rubro-dourada continuava intacta, mas agora emanava terror, assim como seu olhar verde, agora fosco e inexpressivo. Longas unhas enegrecidas esticavam-se-lhe dos dedos, e Rafael conseguia ver o crânio e maxilar chamuscados, onde as queimaduras consumiram-lhe a carne outrora. As pálpebras de seu olho direito já não existiam; foram devoradas pelo fogo invisível que o escritor presenciara, assim como parte da carne das costelas, dos seios, das pernas e do pescoço. Gemidos guturais estridentes vinham do que sobrava-lhe da traqueia, despida de carne.
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Abalado, o escritor recusava-se a acreditar que aquilo era ela, sua Ada. Ela moveu o pé esquerdo, que pingava carmesim, para fora da banheira. Ao apoiar-se no chão, seu membro estalou, como se todos os ossos dali estivessem quebrados. Ergueu a faca que carregava na mão esquerda, e a lâmina afiada cintilou, assim como o círculo dourado em seu anelar. Os baixos gemidos coaxantes e as longas unhas podres dela o fizeram estremecer. Ele não conseguia se mover, como se um feitiço tivesse-lhe sido lançado sobre o corpo. O pé direito de Ada acompanhou o canhoto, e Rafael viu-lhe a tíbia fraturada rasgar a dantes macia pele da perna ao apoiar-se no porcelanato. Sangue esguichou do ferimento, ela perdeu o equilíbrio e desabou. Ficou imóvel por alguns segundos, mas então...
Tutuuuuuuuuuuum!
Tutuuuuuuuuuuum!
Voltou a gemer esganiçadamente e começou a se arrastar, ainda brandindo a faca. Suas alongadas garras arranharam o chão, emitindo um som demasiado desconfortável. Algumas delas quebraram e desprenderam-se-lhe dos dedos, levando consigo pedaços de carne rubro-negras. Estava se aproximando...
Tutuuuuuuuuuuum!
Ainda em choque, Rafael deu um passo para trás, mas escorregou no chão, sujo de sangue, e caiu. Suas costas encontraram a parede atrás de si. Sentado, observava sua Ada aproximar-se lentamente.
Tutuuuuuuuuuuum!
"Tudo bem, meu amor", pensou, "eu mereço... está assim por minha culpa. Mereço morrer. Leve-me. Queimaremos juntos no inferno. "
Tutuuuuuuuuuuum!
Finalmente, a mão dela alcançou-lhe a perna, apertando-a com força.
"Perdoe-me, pequena Eva. Falhei com você, assim como falhei com sua mãe e sua avó. Perdão", disse para si mesmo.
Ela pareceu ter ouvido-lhe os pensamentos. Crocitou um torturado e insalubre grito irregular pelo buraco da garganta. Aquele som fúnebre arrepiou todos os pelos do corpo do escritor.
"O som que anuncia minha morte; uma canção de sofrimento, ódio e ressentimento."
Tutuuuuuuuuuuum!
Ada rastejou-se sobre o corpo de Rafael. O olho esquerdo dela, esbugalhado; o direito, despido das próprias pálpebras. Ele sentiu a dor, raiva e tristeza que cintilavam-lhe no olhar; viu os ossos expostos da mandíbula dela comprimirem-se. Ela ergueu o braço destro, agarrou firme a mão esquerda do escritor e empunhou alto a faca.
"É agora. Faça-o!", os derradeiros pensamentos ecoaram-lhe na mente, "não desviarei meu olhar. Quero morrer olhando-a nos olhos!"
Manejou a arma em direção à mão canhota dele, e então...
Tutuuuuuuuuuuum!
... repousou o objeto nos dedos dele. Ela encarou o punho destro de Rafael e coaxou um longo e lento lamento através do orifício em sua traqueia; lágrimas rolaram-lhe pelo rosto deformado. Ele fitou a faca deitada na própria palma, sem agarrá-la com os dedos, ainda perplexo com tudo aquilo. Lastimando, ela fechou lentamente o olho que ainda era provido de pálpebras e repousou a cabeça no colo dele. A aliança no anelar dela brilhava, e ela arquejava. O pulsar desvanecia:
Tuuuuuuuum...
"A-ada?", chamou-a, ainda espantado. Umedeceu-lhe o colo. Ela exalava fracas arfadas...
"E-eu...", gaguejou, sem saber o que falar. Respirou fundo. Era ela, sua Ada. Continuou:
"E-eu estou aqui. Não vou a lugar algum. Não vou te deixar."
Lembrou-se da promessa que fizera a ela há anos: "não lutará sozinha."
...
Lembrou-se do que dissera depois; anos depois. Depois de se casarem, depois de terem uma linda filha, depois das inúmeras horas que passara escrevendo, depois das brigas, depois da bebida dele, depois dos remédios dela, depois da primeira e da segunda tentativa de suicídio de Ada, depois de mais brigas, depois da cruz quebrada, depois da Bíblia empoeirada, depois... de pedir um divórcio. Também lembrou-se da feição soturna de Ada ao ouvir:
"Nós tentamos por muito tempo, mas isso foi longe demais. Está afetando a vida de nossa filha... e também minha carreira. Pode contar com a minha ajuda sempre, mas acredito que será melhor se nós nos separarmos".
...doeu-lhe o punho direito.
"Me desculpe", disse.
Tuuuuuuum...
"É linda mesmo assim", pensou, "ainda é linda, minha Ada", acariciou-lhe os cabelos rubro-dourados. Fatigado, o palpitar se extinguia:
Tuuuuuum...
"Não se vá, por favor..."
Imaginou que estavam de volta àquele lugar mágico, ao lado do plácido lago, somente os dois. O vento suave afagava-lhe o rosto; raios de luz do pôr do sol adornavam o local... e ela também.
"Ela está aqui comigo! Posso vê-la!"
tuuuuum...
Estava de joelhos novamente, e Ada sorria. O sorriso mais belo que qualquer pessoa poderia desejar ver. Ela olhava a aliança, e lágrimas escorriam-lhe rosto abaixo. Ele segurava-lhe a mão, mas desta vez, iria segurar-lhe a mão para sempre. E não iria largá-la. Não ali. Nunca mais.
"Não vou te abandonar. Não desta vez, prometo!"
Tuuuum...
Mas eles não estavam lá, e ela não sorria. O sol não a coroava, mas sim o sangue. Também não havia um sereno lago ao seu redor, mas sim um inferno carmesim... e ele não poderia mais segurar a mão dela para sempre. Ela não moveu-se-lhe mais no colo...
"Não me deixe... conseguia senti-la! Estava aqui, na minha frente! Por favor..."
Tuuum...
Deitou-se-lhe ao lado da cônjuge, sua eterna companheira. Quis morrer bem ali, ao lado dela.
Tuum..
Remorso... finalmente se apoderou de Rafael. O pesado pranto rasgou-lhe o rosto. Jogado sobre o chão, chorou por muito tempo...
Tum.
O palpitar cessou.
Ass: Wally
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
sábado, 31 de agosto de 2019
Ada, a Cônjuge
"Finalmente parou de gritar?", perguntou calmamente. O homem estranho o encarava com os olhos soturnos cor de ônix, fixos em Rafael. A luz da cozinha estava acesa, iluminando o local com um amarelo enjoativo. As entranhas remexeram-lhe o jantar que comera tranquilamente horas atrás, quando ainda não imaginava que se encontraria na situação de agora. Virou o rosto e vomitou.
"Por favor, deixe-me ir...", suplicou com a voz rouca e esganiçada, após limpar os restos de comida dos lábios. Tentou mover os braços e pernas, sem sucesso; suas mãos pareciam estar amarradas à cadeira com cordas invisíveis, e seus pés, petrificados.
"Já lhe disse que ficará aqui até ser julgado. Não adianta chorar ou gritar", respondeu em um tom austero.
Rafael sentia-se exausto. Só queria dormir; deitar-se na cama e esquecer de tudo o que acontecera; deixar as lúgubres memórias deste encontro desvanecerem-se ao ser acolhido pelo sono; acordar no dia seguinte e perceber que tudo não passou de um terrível pesadelo.
"Tá... ", sussurrou em um tom estridente, "tá bem", disse ofegante, "a-acabe logo com isso... por favor... só termine logo. Faça o que deve fazer...", terminou arquejando.
Samuel bebericou o chá da pequena xícara que segurava com os dedos, longos e finos, com o olhar ainda cravado no escritor. Os círculos negros ao redor dos olhos encovados do estranho homem aparentaram ficar ainda mais escuros; ele estudava os olhos de Rafael, como se estes fossem a porta de entrada pela qual o juiz acessava os pensamentos, a alma, os desejos e o passado do escritor... e também seus pecados. Após repousar a xícara sobre o píres, falou:
"Antes disso, quero que busque algo para mim."
"O-o quê?", quis saber na esperança de que seja lá o que quisesse fosse a saída desta situação.
"A faca", respondeu em um tom sereno, porém sutilmente gutural.
Enrijeceram-lhe os pelos do corpo de Rafael; acelerou-se-lhe o coração dentro do peito.
"Meu Deus todo poderoso, proteja-me", pensou, "faça disso tudo um sonho, por favor! Faça com que ele desapareça e que tudo volte ao normal!"
Porém, Samuel não desapareceu. Continuava lá, sentado à sua frente, austero e inabalado, apesar das preces. Rafael sentiu-se abandonado. Respirou lentamente e tentou apanhar as palavras com mais calma:
"P-pra que quer uma faca?"
"Rafael, é juiz?", interrogou solenemente.
"N-não..."
"Então não faça perguntas. Juízes fazem perguntas. Interrogados às respondem. Agora, providencie-me a faca, por favor", a voz dele era tranquila, mas incisiva, e seus olhos, negros, fixos em Rafael, cortavam-lhe a alma. Um breve silêncio apoderou-se da cozinha. Tentou esconder o medo e a ansiedade que atormentavam-lhe o coração, mas os dedos trêmulos das mãos o entregavam. Respirou profundo novamente, então disse:
"B-Bem", gaguejou, "h-há várias facas atrás de você... dentro das gavetas, debaixo da pia", conseguiu concluir a frase, malgrado o peso imensurável das palavras. Sentia o sangue correr-lhe mais rápido do que nunca dentro do corpo. O formigamento volvou a mordiscar-lhe o punho direito.
"Não quero uma faca, Rafael. Quero a faca.", suas palavras pairaram no ar.
...
"Q-qual faca...?", quebrou o silêncio.
"Não se faça de burro", disse com calma, "não gosto de pessoas que se fazem de burras. Sabe muito bem de qual faca estou falando."
O fúnebre passado apoderou-lhe dos pensamentos...
Sangue. Sangue transbordou-lhe nas memórias. Agora, estas o trouxeram de volta ao banheiro de seu quarto de casal: grande, luxuoso e, naquele momento, vermelho. Na banheira, um corpo. Cabelos dourados flutuavam no líquido carmesim dali. Ao lado da banheira e das mãos dela, delicadas e pálidas, uma faca. A faca.
"Busque-a. Traga-a para mim", disse Samuel.
"M-mas a faca não está comigo. Não minto. A polícia a levou no dia em que-", não conseguiu terminar.
"Está sim. Lá em cima, no mesmo lugar do ocorrido", ele redarguiu.
"Como?!", pensou, aterrorizado. Os dedos frios do medo tocaram-lhe as costelas e apertaram-lhe o estômago, congelando a barriga de Rafael. Sua mão direita voltou a pulsar e doer.
"Está esperando o quê?", inquiriu Samuel.
...
Os olhos do juiz penetraram a alma do escritor, estupefato.
"N-não é poss-"
"Minha paciência tem limite, Rafael", interrompeu-o.
...
"T-tudo bem. Já que diz que ela e-está lá em cima, a trarei aqui...", balbuciou.
Sentiu as pernas livres, mas inquietas. Começou a mover os pés, trêmulos, e levantou-se da cadeira. Os olhos de Samuel acompanharam-no. As pernas do escritor eram tão firmes quanto folhas soltas em uma tempestade. Receou despencar sobre o chão a qualquer momento. Até mesmo de pé, erguendo-se diante daquele estranho homem, Rafael sentia-se inferior. Queria andar mais; continuar seu caminho até a faca para acabar logo com isso, mas não conseguiu. Fitou a escuridão macabra que dominava as escadas, ao lado da cozinha, que o levariam até o segundo andar da casa, onde supostamente encontraria o objeto.
"A faca", pensou, "não pode ser... não pode estar aqui..."
Samuel, imóvel e em silêncio, continuou encarando Rafael. Apenas os olhos daquele moviam-se, acompanhando este para onde quer que fosse. Sequer via o tórax do juiz mover-se para respirar, nem escutava o ar entrando-lhe e saindo-lhe das narinas. O corpo daquele homem parecia ser um casulo; lar de algo muito... maior. Finalmente, conseguiu arrastar as pernas lentamente até as escadas, próximas à cozinha. Cada um de seus pés fazia reverberar um alto baque no ambiente ao encontrar-se com o chão.
"Poderei encontrar-me com ela lá em cima. Ela tem celular! Chamaremos a polícia! Faremos qualquer coisa", pensou, "gritaremos, rezaremos, seja lá o que for! Pelo menos não estarei sozinho com-"
Parou em frente às escadas; as trevas apoderavam-se de cada degrau, fazendo do segundo andar um mar de escuridão. Virou a cabeça e viu que os olhos de Samuel o aguardavam, apesar da cabeça deste manter-se imóvel. Mexera apenas os olhos, mais negros e opacos do que as noites mais sombrias, desde quando se acomodara na cadeira da cozinha. O breu que aguardava Rafael degraus acima era bastante semelhante ao contido nas pupilas de Samuel. Estremeceu. Esforçou-se para que o pé direito se movesse de encontro ao primeiro degrau diante de si. A madeira protestou com um rangido alto e desagradável. Quis dar outra olhadela para trás, mas desta vez, conteve-se. Seu pé esquerdo também se moveu, e depois foi liderado novamente pelo direito, e o movimento se repetiu, assim como o choramingar da madeira debaixo de si, até o escritor ser engolido pelas trevas.
Não enxergava nada ali. O frio rasgou-lhe a pele e os pulmões. A não ser pelo ranger dos próprios passos sobre os degraus, não ouvia mais nada. Sua respiração consistia de rápidas e ansiosas baforadas. Enfim, percebeu que havia chegado ao segundo andar. Parou e virou em direção ao corredor à esquerda, ainda cego pela escuridão. Parecia estar em um local totalmente diferente de sua casa, mas sabia que o quarto estava a poucos passos de distância.
"Cinco. Cinco passos é o que preciso para chegar lá", pensou.
Novamente, o pé direito liderou a caminhada, e a mão destra apalpava a parede ao lado, em busca da porta do quarto. Sentiu o interruptor de luz sob os dedos, mas este mostrou-se inútil ao ser apertado. A escuridão persistiu, assim como os protestos da madeira debaixo de seus pés. Deu outro passo, e mais um, e a madeira do chão continuou chorando em desdém com todo aquele movimento. Antes que pudesse dar o quarto passo, um clarão adentrou repentinamente o ambiente. Através da janela no fim do corredor, viu linhas brancas e finas, como dedos deformados e contorcidos, rasgarem o céu negro lá fora, das nuvens até o chão. O breve lampejo que adentrou o local revelou os quadros pendurados nas paredes de ambos os lados, assim como a porta de seu quarto, aberta e bastante próxima. Então, as trevas surgiram novamente, acompanhadas de um estrondoso rugido que reverberou fortemente pela noite:
"truuuuuuuuum."
As paredes tremeram, assim como o chão, e até mesmo o corpo de Rafael. Retesaram-se-lhe os cabelos da nuca, e calafrios escalaram-lhe a pele do corpo. O susto o fez parar. Sentia-se observado por todos os lados, como se o breu fosse uma enorme pupila, acompanhando cada movimento que fizesse, por mais sutil e insignificante que fosse. Permaneceu imóvel... ouviu a madeira do chão que tinha deixado para trás ranger sozinha, como se tivesse sido pressionada por algo escondido nas trevas. Ofegante, voltou a andar.
"Quatro, cinco", contou em voz baixa. Seguiu de olhos fechados, com a mão direita ainda apalpando a parede. Finalmente, sentiu a madeira da porta em seus dedos e abriu os olhos novamente, apesar de não conseguir enxergar quase nada. Estava semiaberta, e emitiu suaves estalos quando a empurrou gentilmente. Graças à tênue luz emitida pelos dígitos do despertador de cabeceira ao lado da cama, conseguia ver o vulto dela. Estava lá, inerte, lançada sobre o colchão. Não a ouvia respirar. Tentou ligar o interruptor de luz do cômodo, mas assim como o do corredor, mostrou-se inútil. Do outro lado da cama, ficava o banheiro, onde Samuel disse que iria encontrar a faca.
"Não pode ser", disse para si mesmo, "mesmo que esteja lá, o que quer fazer com a faca?"
Uma voz no fundo da sua mente dizia que tudo era possível depois do que acontecera nesta noite. Uma parte de si jamais desejava ver qualquer objeto que o fizesse lembrar do que ocorreu naquele banheiro, muito menos a faca. Até mesmo reformara o cômodo após a tragédia. Retirou a banheira que lá havia, assim como o revestimento de porcelanato, polido e branco, do local, e o substituiu por elegantes mármore e granito. O simples pensamento de encontrar a lâmina rubra sobre o chão de porcelana revirava-lhe as entranhas. Não sabia como proceder.
"Ele perceberá se fizer movimentos bruscos', pensou, "devo me aproximar dela sem fazer barulho e pedir para que ligue para a polícia. Tudo em silêncio. Ele consegue me ver, tenho certeza!"
Olhou para o relógio de ouro em seu pulso direito e ficou perplexo com o horário que o dispositivo exibia. A princípio, pensou estar estragado, mas o despertador em seu quarto confirmava o contrário.
"1:21", declaravam atemporalmente os aparelhos.
"Já deveriam ser quase 4 da manhã", pensou, "que diabos está acontecendo aqui, meu Deus?!"
Penetrou o quarto com cautela. Seus passos sorrateiros o levaram até a mulher debruçada sobre a cama.
"Ei!", sussurou, "acorde!", balançando sutilmente os ombros dela, "acorde!", tentou novamente.
Ela exalou um baixo e longo suspiro. Agora, tinha a impressão de que os olhos dela estavam abertos. Pareciam estar lançados sobre Rafael. Não tinha certeza, pois a luz emitida pelo despertador era demasiada tênue.
"Está acordada?", quis saber em voz baixa.
A porta atrás de si fechou rispidamente, com um alto e seco ruído. Os móveis do quarto tremeram, assim como Rafael, que estudou o cômodo, amedrontado. Quando voltou-lhe a atenção para a cama e para a mulher que ali repousava, teve a impressão de que os olhos dela estavam esbugalhados, encarando-o. Não sabia se a mente pregava-lhe uma peça, pois o breu toldava-lhe a visão. O suspiro agudo que ela emitia prolongou-se e acentou-se.
"Ei! Está acordada?", sussurrou novamente.
A madeira do chão próxima à porta estalou lentamente. Rafael estremeceu. Observou os seus arredores, alerta. Então, disse em voz alta:
"T-tudo bem! E-estou indo para o banheiro buscar a faca!"
As palavras pairaram solitárias no ar e desvaneceram lentamente, enquanto o pesado silêncio apoderava-se novamente do lugar. Por alguns segundos, pôde ouvir apenas o farfalhar das folhas das árvores, fora da casa, e o sussuro do vento querendo entrar pelas janelas do quarto.
Petrificou-se o corpo de Rafael...
Pesados soluços, acompanhados de um choro baixo e esganiçado deixaram os cabelos de Rafael em pé. Inicialmente, recusou-se a olhar para trás. Fechou os olhos e assim ficou por alguns segundos, enquanto seu corpo, trêmulo, arrepiava-se da cabeça aos pés. Os gemidos taciturnos que vinham atrás dele aparentavam ser emitidos por uma mulher. Decidiu olhar...
De pé, ao lado da cama, erguia-se outra silhueta, esguia e com longos cabelos despenteados. Acariciava gentilmente, com dedos finos e contorcidos, a cabeça da mulher deitada; moviam-se irregularmente por entre as mechas da conhecida de Rafael, estalando a cada movimento que faziam. Longas unhas, encobertas pela escuridão, despontavam-lhe dos dedos. Algo jorrava-lhe dos pulsos. O lamento fúnebre e os estalos emitidos pelos movimentos torturados daquele ser congelaram o corpo de Rafael. Urina espalhou-se-lhe pelas virilhas.
"P-pai nosso", começou em voz baixa, "q-que estais n-no... n-n-no", e parou, incapaz de terminar. A mão destra voltou-lhe a pulsar como um coração, fazendo-o encolher de dor. A criatura notou Rafael. O lamento lúgubre e os soluços da silhueta macabra cessaram. Parou de acariciar o cabelo da mulher debruçada sobre a cama. Os membros daquela coisa emitiram sons desconfortáveis, como se todos os ossos de seu corpo estivessem deslocados; os dedos, deformados, esticavam-se-lhes sob o cobertor da escuridão, e as longas unhas, garras que rasgavam toda a coragem que restava no escritor, esticavam-se ameaçadoramente. O ser virou o pescoço lentamente, redirecionando sua atenção para Rafael. A cacofonia óssea do movimento o fez urinar nas calças novamente. O pegajoso líquido ainda jorrava dos pulsos da silhueta sombria, espalhando-se pelo chão. O ser não se movia, apenas encarava-o...
"Mexa-se! Corra!", pensou em vão. O próprio corpo recusava-se a obedecer. Ardia-lhe o punho direito. E a criatura continuava lá, imóvel, olhando-o...
"Meu Deus!", pensou, "proteja-me! Sei que pequei; cometi erros... mas ainda sou fiel. Ajude-me!"
Por fim, libertaram-se-lhe os membros das amarras invisíveis que os imobilizavam e suas pernas levaram-no o mais rápido possível para dentro do banheiro. Entrou e bateu a porta atrás de si. Ofegante, agarrou a maçaneta com toda a força que tinha, temendo que a criatura fosse segui-lo, mas não ouviu nenhum movimento vindo do outro lado. A maçaneta permaneceu inerte em sua mão, mas ainda recusava-se a soltá-la.
"Que diabos era aquilo?!", pensou, "que diabos, meu Deus?!"
Tentou acalmar-se. Depois de alguns minutos, respirou um pouco aliviado.
"Tenho que pegar logo essa faca. Pelo menos terei alguma coisa para me defender", disse consigo mesmo.
As trevas cegavam-no. Tentou ligar o interruptor de luz, mas o resultado era exatamente aquele que esperava. O piso era frio e liso sob seus pés, e o seco gotejo de algo contra o chão adentrou-lhe os ouvidos. Subitamente, as lampadas do local acenderam, e o mundo de Rafael desabou...
Lá estava ela, nua, dentro da banheira. Os longos cabelos dourados dela ensolaravam o ambiente, e sua amena pele clara reluzia no porcelanato branco das paredes e do chão; um gracioso sorriso adornava-lhe os lábios, e seu encantador olhar esmeralda caía sobre Rafael.
"Meu amor", ela estendeu a mão, "sente-se ao meu lado. Senti tanta falta de você", a voz dela era tão suave aos ouvidos do escritor quanto a garoa noturna mais aconchegante, que leva sono e sossego àquela mente ansiosa, incapaz de dormir. Atônito, disse:
"Ada?! C-com... n-não pode... não pode ser..."
"Meu amor... Rafa, sou eu. Venha", ainda estendia-lhe a mão, "temos muito a conversar. Quero saber como você está; como nossa princesa está. Venha..."
"Amor?", as lágrimas subiram-lhe aos olhos, "é realmente você? N-não é possível..."
"É claro que sim, meu bem. Sou eu!"
"E-eu... ando vendo tantas... coisas", hesitou, "n-não sei mais no que acreditar... tanto aconteceu nesta noite...", silenciosas lágrimas escorreram-lhe rosto abaixo.
"Eu sei, amor. Quero ajudá-lo... ajudá-lo a sair deste pesadelo. Confie em mim. Quero seu bem; sempre quis. Mas antes, quero conversar."
"Tu-tudo bem", enxugou os olhos e agachou-se ao lado dela. Ela segurou as mãos de Rafael.
"É-é ela!", pensou. Abraçou-a com força.
Não havia água na banheira, nem aquele outro líquido... vermelho. Sentiu-se aliviado. Porém, havia outra coisa lá dentro: uma faca. Repousava junto aos delicados pés de Ada. Rafael estremeceu.
"Por quê? Por que fez aquilo?"
"Estava doente, Rafael... precisava de ajuda. Não consegui me recuperar. Era insuportável... viver."
"E-eu tentei te ajudar", disse inconformado, "teria continuado tentando até não ter mais forças. Por q-", parou de falar. Lágrimas umedeceram-lhe os olhos, "nossa garotinha sente tanto a sua falta", terminou.
"Nossa garotinha...", avermelharam-se os olhos dela, "nossa princesa... nossa pequena Eva. Como sinto falta dela...", ela lastimou. Ressoaram-se-lhe o pranto pelo banheiro. Ele a abraçou novamente. Choraram juntos.
"Eu te amo", ele disse com o peito pesado, "perdoe-me, Ada. Falhei... Perdão pelo que disse. Pelo que fiz."
"Tudo bem, meu amor", ela disse. As lágrimas ainda rolavam-lhe rosto abaixo, "ainda pode me ajudar."
"Posso?", perguntou esperançoso.
"Sim", esticou a mão e pegou a faca que repousava-lhe entre os pés, "corte-a", olhou para a mão direita de Rafael, "corte-a, meu amor. Livre-se. Enxergue."
Rafael recuou.
"A-Ada...", disse enleado, "c-como pediria isso de mim? Como isso iria ajudá-la?"
"Meu amor, você não entende", ela coçou a pele dos braços, "arde tanto", avermelharam-se-lhe os olhos novamente, "sinto-me tão sozinha...", brilhava-lhe o olhar, rubi, sob a luz, "não há outra saída... Deve cortá-la!", exclamou.
"Meu bem, minha Ada...", ele disse acariciando a face dela, "não há necessidade disso! Sempre estarei aqui. Pode... pode me visitar sempre! Mas... mas o que está sugerindo é o pior dos pecados."
"Quem é você para falar sobre pecar?!", protestou rispidamente.
O escritor ficou sem resposta por alguns segundos...
"Sim", lembrou-se das palavras que disse a ela, e o coração tornou-se-lhe excessivamente pesado dentro do peito, "perdoe-me. Errei...", a lástima apoderou-se novamente de seus olhos, "não há um dia sequer em que não me arrependo do que disse e do que fiz. É uma culpa que carregarei eternamente. Porém, não posso desistir. Não posso abandonar minha mãe, muito menos nossa filha. Amo-as."
"Mentiroso", ela bradou, "sempre foi e sempre será um mentiroso. Mente para a própria mãe e filha, assim como mentiu para mim! Mente para Ele! PEQUEI POR CULPA SUA!"
"Ada...", acelerou-se-lhe o coração.
"Diz temer o julgamento de Deus, mas repete os mesmos pecados do passado! Recusa-se a enxergar! Diz amar sua mãe, mas a abandona pelos mesmos motivos que me abandonou, enquanto ela sofre da mesma doença que eu tive! E nossa filha?! O amor que tem pelo álcool mostrou-se mais poderoso do que o que tem por ela! Diga-me, sua cobra mentirosa, por que há tantas garrafas vazias na sua casa ao invés de brinquedos de criança?! Por que há uma pessoa qualquer deitada na sua cama ao invés de uma filha pedindo para que leia uma historinha antes de dormir?! Por que dedica-se tanto aos seus malditos livros ao invés de ensiná-la a ler e a escrever?! HIPÓCRITA! MENTIROSO!", a cólera dela ecoou pelo banheiro.
Rafael estava desnorteado, sem saber o que responder. Cólera cintilava nos olhos dela, e ela agarrava a faca com força. A luz das lâmpadas reluziam na lâmina da arma. Ele via ódio em seu rosto. Respirou fundo e disse:
"Você está certa. Sou um mentiroso e um hipócrita. Errei e continuo errando. Peço desculpas, Ada", olhou-a nos olhos, cheios de rancor, "Você não merece isso. Nem minha mãe ou nossa filha. Eu lhe dou minha palavra que irei mudar. Eu... eu ainda posso mudar. Vou melhorar", repousou a mão canhota sobre a dela, que erguia a faca. Ela voltou a prantear:
"Por favor...", soluçava, "n-não me deixe sozinha. Lá é horrível. Por favor, Rafa... pegue a faca... n-não quero voltar para lá."
"E-eu", não sabia o que falar, "meu bem... eu rezarei por você todos os dias. Prometo. Ele irá protegê-la. Ele ainda te ama, assim como eu."
"Por favor", suplicou lagrimejando, "Amor da minha vida, eu imploro! Ele... ele vai me levar de volta para lá!"
"Vamos orar, meu amor! Oremos juntos!"
"Não", urrou, "não vai funcionar! Pege a faca e corte-a!"
"Ore comigo meu amor. Não perca a fé! Pai nosso.."
A pele dela ruborizou-se. Ela se coçou agressivamente. Um alto chiado encheu o banheiro; um vapor denso e malcheiroso subiu-lhe do corpo. Ela gritou.
"Rafael!", guinchou, "p-pelo amor de Deus! Proteja-me! N-não quero voltar para lá! POR FAVOR!", esbravejava de dor e contorcia o pescoço, "ARDE! ELE VAI ME LEVAR DE VOLTA! VOU ARDER PARA SEMPRE!", bolhas rosadas formaram-se-lhe por todo o corpo. Rafael estava em choque, mas continuou:
"Que estais nos Céus!", disse em voz alta, enquanto o vapor que saía do corpo de sua ex-esposa enchia o local, "santificado seja o Vosso Nome", continuou enquanto ela ladrava, "venha a nós o vosso Reino", as bolhas no corpo de Ada começaram a estourar, desprendendo pedaços negros de carne; o chiado acentuou-se, "SEJA FEITA A VOSSA VONTADE", tentou rezar mais alto ainda, inutilmente, "ASSIM NA TERRA COMO NO... COMO NO... c-como no...", viu partes do crânio debaixo da derme enegrecida da testa e do olho esquerdo de Ada; apareciam-lhe o maxilar e os dentes da bochecha direita, despidos de carne e chamuscados pelo vapor impiedoso; costelas, úmero, fêmur e tíbias estavam expostos, carbonizados. Gritos de dor reverberavam por ali. Em meio àquela sauna putrefata, o escritor estava petrificado, com os olhos arregalados, boquiaberto e com lágrimas de espanto descendo-lhe pelo rosto. Não conseguiu terminar de proferir as palavras. Sentia a mão direita pulsar, mas isso pouco importava agora.
"RAFAEL", ainda gritava Ada, "NÃO ME ABANDONE DE NOVO! A FACA! PEGUE A FACA!"
Mas ele continuou paralisado, incrédulo. Desesperada e urrando, com a arma em mãos, ela cortou os próprios pulsos. A afiada lâmina emitiu um estridente silvo ao rasgar a pele. Sangue jorrou para todos os lados, sujando o rosto de Rafael, suas roupas, as paredes e o teto. O carmesim encheu rapidamente a banheira, e ela, aos poucos, parou de gritar. Lentamente, o esmeralda nos olhos dela desvaneceu-se; agora estavam foscos, mortos; e a coroa dourada que antes carregava na cabeça tornou-se rubra ao flutuar no próprio sangue.
O vermelho apoderou-se daquele ambiente novamente... mas desta vez, havia mais; muito mais. Pingava do teto, escorria pelas paredes e pelo rosto do escritor.
"Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue", pensou, "falhei novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente."
Rafael não piscava; ainda estava boquiaberto e com os olhos esbugalhados. O rubro gosto azedo da culpa enjoava-lhe a língua; deixou o carmesim de sua ex-companheira enfeitar-lhe as pupilas e observou debilmente o banheiro, escarlate e insalubre. Como se tivesse vontade própria, o sangue nas paredes foi tomando lentamente o formato de letras enquanto escorria até o chão:
"FRACA, INÚTIL", lia-se por todos os lados.
Ass: Wally
"Por favor, deixe-me ir...", suplicou com a voz rouca e esganiçada, após limpar os restos de comida dos lábios. Tentou mover os braços e pernas, sem sucesso; suas mãos pareciam estar amarradas à cadeira com cordas invisíveis, e seus pés, petrificados.
"Já lhe disse que ficará aqui até ser julgado. Não adianta chorar ou gritar", respondeu em um tom austero.
Rafael sentia-se exausto. Só queria dormir; deitar-se na cama e esquecer de tudo o que acontecera; deixar as lúgubres memórias deste encontro desvanecerem-se ao ser acolhido pelo sono; acordar no dia seguinte e perceber que tudo não passou de um terrível pesadelo.
"Tá... ", sussurrou em um tom estridente, "tá bem", disse ofegante, "a-acabe logo com isso... por favor... só termine logo. Faça o que deve fazer...", terminou arquejando.
Samuel bebericou o chá da pequena xícara que segurava com os dedos, longos e finos, com o olhar ainda cravado no escritor. Os círculos negros ao redor dos olhos encovados do estranho homem aparentaram ficar ainda mais escuros; ele estudava os olhos de Rafael, como se estes fossem a porta de entrada pela qual o juiz acessava os pensamentos, a alma, os desejos e o passado do escritor... e também seus pecados. Após repousar a xícara sobre o píres, falou:
"Antes disso, quero que busque algo para mim."
"O-o quê?", quis saber na esperança de que seja lá o que quisesse fosse a saída desta situação.
"A faca", respondeu em um tom sereno, porém sutilmente gutural.
Enrijeceram-lhe os pelos do corpo de Rafael; acelerou-se-lhe o coração dentro do peito.
"Meu Deus todo poderoso, proteja-me", pensou, "faça disso tudo um sonho, por favor! Faça com que ele desapareça e que tudo volte ao normal!"
Porém, Samuel não desapareceu. Continuava lá, sentado à sua frente, austero e inabalado, apesar das preces. Rafael sentiu-se abandonado. Respirou lentamente e tentou apanhar as palavras com mais calma:
"P-pra que quer uma faca?"
"Rafael, é juiz?", interrogou solenemente.
"N-não..."
"Então não faça perguntas. Juízes fazem perguntas. Interrogados às respondem. Agora, providencie-me a faca, por favor", a voz dele era tranquila, mas incisiva, e seus olhos, negros, fixos em Rafael, cortavam-lhe a alma. Um breve silêncio apoderou-se da cozinha. Tentou esconder o medo e a ansiedade que atormentavam-lhe o coração, mas os dedos trêmulos das mãos o entregavam. Respirou profundo novamente, então disse:
"B-Bem", gaguejou, "h-há várias facas atrás de você... dentro das gavetas, debaixo da pia", conseguiu concluir a frase, malgrado o peso imensurável das palavras. Sentia o sangue correr-lhe mais rápido do que nunca dentro do corpo. O formigamento volvou a mordiscar-lhe o punho direito.
"Não quero uma faca, Rafael. Quero a faca.", suas palavras pairaram no ar.
...
"Q-qual faca...?", quebrou o silêncio.
"Não se faça de burro", disse com calma, "não gosto de pessoas que se fazem de burras. Sabe muito bem de qual faca estou falando."
O fúnebre passado apoderou-lhe dos pensamentos...
Sangue. Sangue transbordou-lhe nas memórias. Agora, estas o trouxeram de volta ao banheiro de seu quarto de casal: grande, luxuoso e, naquele momento, vermelho. Na banheira, um corpo. Cabelos dourados flutuavam no líquido carmesim dali. Ao lado da banheira e das mãos dela, delicadas e pálidas, uma faca. A faca.
"Busque-a. Traga-a para mim", disse Samuel.
"M-mas a faca não está comigo. Não minto. A polícia a levou no dia em que-", não conseguiu terminar.
"Está sim. Lá em cima, no mesmo lugar do ocorrido", ele redarguiu.
"Como?!", pensou, aterrorizado. Os dedos frios do medo tocaram-lhe as costelas e apertaram-lhe o estômago, congelando a barriga de Rafael. Sua mão direita voltou a pulsar e doer.
"Está esperando o quê?", inquiriu Samuel.
...
Os olhos do juiz penetraram a alma do escritor, estupefato.
"N-não é poss-"
"Minha paciência tem limite, Rafael", interrompeu-o.
...
"T-tudo bem. Já que diz que ela e-está lá em cima, a trarei aqui...", balbuciou.
Sentiu as pernas livres, mas inquietas. Começou a mover os pés, trêmulos, e levantou-se da cadeira. Os olhos de Samuel acompanharam-no. As pernas do escritor eram tão firmes quanto folhas soltas em uma tempestade. Receou despencar sobre o chão a qualquer momento. Até mesmo de pé, erguendo-se diante daquele estranho homem, Rafael sentia-se inferior. Queria andar mais; continuar seu caminho até a faca para acabar logo com isso, mas não conseguiu. Fitou a escuridão macabra que dominava as escadas, ao lado da cozinha, que o levariam até o segundo andar da casa, onde supostamente encontraria o objeto.
"A faca", pensou, "não pode ser... não pode estar aqui..."
Samuel, imóvel e em silêncio, continuou encarando Rafael. Apenas os olhos daquele moviam-se, acompanhando este para onde quer que fosse. Sequer via o tórax do juiz mover-se para respirar, nem escutava o ar entrando-lhe e saindo-lhe das narinas. O corpo daquele homem parecia ser um casulo; lar de algo muito... maior. Finalmente, conseguiu arrastar as pernas lentamente até as escadas, próximas à cozinha. Cada um de seus pés fazia reverberar um alto baque no ambiente ao encontrar-se com o chão.
"Poderei encontrar-me com ela lá em cima. Ela tem celular! Chamaremos a polícia! Faremos qualquer coisa", pensou, "gritaremos, rezaremos, seja lá o que for! Pelo menos não estarei sozinho com-"
Parou em frente às escadas; as trevas apoderavam-se de cada degrau, fazendo do segundo andar um mar de escuridão. Virou a cabeça e viu que os olhos de Samuel o aguardavam, apesar da cabeça deste manter-se imóvel. Mexera apenas os olhos, mais negros e opacos do que as noites mais sombrias, desde quando se acomodara na cadeira da cozinha. O breu que aguardava Rafael degraus acima era bastante semelhante ao contido nas pupilas de Samuel. Estremeceu. Esforçou-se para que o pé direito se movesse de encontro ao primeiro degrau diante de si. A madeira protestou com um rangido alto e desagradável. Quis dar outra olhadela para trás, mas desta vez, conteve-se. Seu pé esquerdo também se moveu, e depois foi liderado novamente pelo direito, e o movimento se repetiu, assim como o choramingar da madeira debaixo de si, até o escritor ser engolido pelas trevas.
Não enxergava nada ali. O frio rasgou-lhe a pele e os pulmões. A não ser pelo ranger dos próprios passos sobre os degraus, não ouvia mais nada. Sua respiração consistia de rápidas e ansiosas baforadas. Enfim, percebeu que havia chegado ao segundo andar. Parou e virou em direção ao corredor à esquerda, ainda cego pela escuridão. Parecia estar em um local totalmente diferente de sua casa, mas sabia que o quarto estava a poucos passos de distância.
"Cinco. Cinco passos é o que preciso para chegar lá", pensou.
Novamente, o pé direito liderou a caminhada, e a mão destra apalpava a parede ao lado, em busca da porta do quarto. Sentiu o interruptor de luz sob os dedos, mas este mostrou-se inútil ao ser apertado. A escuridão persistiu, assim como os protestos da madeira debaixo de seus pés. Deu outro passo, e mais um, e a madeira do chão continuou chorando em desdém com todo aquele movimento. Antes que pudesse dar o quarto passo, um clarão adentrou repentinamente o ambiente. Através da janela no fim do corredor, viu linhas brancas e finas, como dedos deformados e contorcidos, rasgarem o céu negro lá fora, das nuvens até o chão. O breve lampejo que adentrou o local revelou os quadros pendurados nas paredes de ambos os lados, assim como a porta de seu quarto, aberta e bastante próxima. Então, as trevas surgiram novamente, acompanhadas de um estrondoso rugido que reverberou fortemente pela noite:
"truuuuuuuuum."
As paredes tremeram, assim como o chão, e até mesmo o corpo de Rafael. Retesaram-se-lhe os cabelos da nuca, e calafrios escalaram-lhe a pele do corpo. O susto o fez parar. Sentia-se observado por todos os lados, como se o breu fosse uma enorme pupila, acompanhando cada movimento que fizesse, por mais sutil e insignificante que fosse. Permaneceu imóvel... ouviu a madeira do chão que tinha deixado para trás ranger sozinha, como se tivesse sido pressionada por algo escondido nas trevas. Ofegante, voltou a andar.
"Quatro, cinco", contou em voz baixa. Seguiu de olhos fechados, com a mão direita ainda apalpando a parede. Finalmente, sentiu a madeira da porta em seus dedos e abriu os olhos novamente, apesar de não conseguir enxergar quase nada. Estava semiaberta, e emitiu suaves estalos quando a empurrou gentilmente. Graças à tênue luz emitida pelos dígitos do despertador de cabeceira ao lado da cama, conseguia ver o vulto dela. Estava lá, inerte, lançada sobre o colchão. Não a ouvia respirar. Tentou ligar o interruptor de luz do cômodo, mas assim como o do corredor, mostrou-se inútil. Do outro lado da cama, ficava o banheiro, onde Samuel disse que iria encontrar a faca.
"Não pode ser", disse para si mesmo, "mesmo que esteja lá, o que quer fazer com a faca?"
Uma voz no fundo da sua mente dizia que tudo era possível depois do que acontecera nesta noite. Uma parte de si jamais desejava ver qualquer objeto que o fizesse lembrar do que ocorreu naquele banheiro, muito menos a faca. Até mesmo reformara o cômodo após a tragédia. Retirou a banheira que lá havia, assim como o revestimento de porcelanato, polido e branco, do local, e o substituiu por elegantes mármore e granito. O simples pensamento de encontrar a lâmina rubra sobre o chão de porcelana revirava-lhe as entranhas. Não sabia como proceder.
"Ele perceberá se fizer movimentos bruscos', pensou, "devo me aproximar dela sem fazer barulho e pedir para que ligue para a polícia. Tudo em silêncio. Ele consegue me ver, tenho certeza!"
Olhou para o relógio de ouro em seu pulso direito e ficou perplexo com o horário que o dispositivo exibia. A princípio, pensou estar estragado, mas o despertador em seu quarto confirmava o contrário.
"1:21", declaravam atemporalmente os aparelhos.
"Já deveriam ser quase 4 da manhã", pensou, "que diabos está acontecendo aqui, meu Deus?!"
Penetrou o quarto com cautela. Seus passos sorrateiros o levaram até a mulher debruçada sobre a cama.
"Ei!", sussurou, "acorde!", balançando sutilmente os ombros dela, "acorde!", tentou novamente.
Ela exalou um baixo e longo suspiro. Agora, tinha a impressão de que os olhos dela estavam abertos. Pareciam estar lançados sobre Rafael. Não tinha certeza, pois a luz emitida pelo despertador era demasiada tênue.
"Está acordada?", quis saber em voz baixa.
A porta atrás de si fechou rispidamente, com um alto e seco ruído. Os móveis do quarto tremeram, assim como Rafael, que estudou o cômodo, amedrontado. Quando voltou-lhe a atenção para a cama e para a mulher que ali repousava, teve a impressão de que os olhos dela estavam esbugalhados, encarando-o. Não sabia se a mente pregava-lhe uma peça, pois o breu toldava-lhe a visão. O suspiro agudo que ela emitia prolongou-se e acentou-se.
"Ei! Está acordada?", sussurrou novamente.
A madeira do chão próxima à porta estalou lentamente. Rafael estremeceu. Observou os seus arredores, alerta. Então, disse em voz alta:
"T-tudo bem! E-estou indo para o banheiro buscar a faca!"
As palavras pairaram solitárias no ar e desvaneceram lentamente, enquanto o pesado silêncio apoderava-se novamente do lugar. Por alguns segundos, pôde ouvir apenas o farfalhar das folhas das árvores, fora da casa, e o sussuro do vento querendo entrar pelas janelas do quarto.
Petrificou-se o corpo de Rafael...
Pesados soluços, acompanhados de um choro baixo e esganiçado deixaram os cabelos de Rafael em pé. Inicialmente, recusou-se a olhar para trás. Fechou os olhos e assim ficou por alguns segundos, enquanto seu corpo, trêmulo, arrepiava-se da cabeça aos pés. Os gemidos taciturnos que vinham atrás dele aparentavam ser emitidos por uma mulher. Decidiu olhar...
De pé, ao lado da cama, erguia-se outra silhueta, esguia e com longos cabelos despenteados. Acariciava gentilmente, com dedos finos e contorcidos, a cabeça da mulher deitada; moviam-se irregularmente por entre as mechas da conhecida de Rafael, estalando a cada movimento que faziam. Longas unhas, encobertas pela escuridão, despontavam-lhe dos dedos. Algo jorrava-lhe dos pulsos. O lamento fúnebre e os estalos emitidos pelos movimentos torturados daquele ser congelaram o corpo de Rafael. Urina espalhou-se-lhe pelas virilhas.
"P-pai nosso", começou em voz baixa, "q-que estais n-no... n-n-no", e parou, incapaz de terminar. A mão destra voltou-lhe a pulsar como um coração, fazendo-o encolher de dor. A criatura notou Rafael. O lamento lúgubre e os soluços da silhueta macabra cessaram. Parou de acariciar o cabelo da mulher debruçada sobre a cama. Os membros daquela coisa emitiram sons desconfortáveis, como se todos os ossos de seu corpo estivessem deslocados; os dedos, deformados, esticavam-se-lhes sob o cobertor da escuridão, e as longas unhas, garras que rasgavam toda a coragem que restava no escritor, esticavam-se ameaçadoramente. O ser virou o pescoço lentamente, redirecionando sua atenção para Rafael. A cacofonia óssea do movimento o fez urinar nas calças novamente. O pegajoso líquido ainda jorrava dos pulsos da silhueta sombria, espalhando-se pelo chão. O ser não se movia, apenas encarava-o...
"Mexa-se! Corra!", pensou em vão. O próprio corpo recusava-se a obedecer. Ardia-lhe o punho direito. E a criatura continuava lá, imóvel, olhando-o...
"Meu Deus!", pensou, "proteja-me! Sei que pequei; cometi erros... mas ainda sou fiel. Ajude-me!"
Por fim, libertaram-se-lhe os membros das amarras invisíveis que os imobilizavam e suas pernas levaram-no o mais rápido possível para dentro do banheiro. Entrou e bateu a porta atrás de si. Ofegante, agarrou a maçaneta com toda a força que tinha, temendo que a criatura fosse segui-lo, mas não ouviu nenhum movimento vindo do outro lado. A maçaneta permaneceu inerte em sua mão, mas ainda recusava-se a soltá-la.
"Que diabos era aquilo?!", pensou, "que diabos, meu Deus?!"
Tentou acalmar-se. Depois de alguns minutos, respirou um pouco aliviado.
"Tenho que pegar logo essa faca. Pelo menos terei alguma coisa para me defender", disse consigo mesmo.
As trevas cegavam-no. Tentou ligar o interruptor de luz, mas o resultado era exatamente aquele que esperava. O piso era frio e liso sob seus pés, e o seco gotejo de algo contra o chão adentrou-lhe os ouvidos. Subitamente, as lampadas do local acenderam, e o mundo de Rafael desabou...
Lá estava ela, nua, dentro da banheira. Os longos cabelos dourados dela ensolaravam o ambiente, e sua amena pele clara reluzia no porcelanato branco das paredes e do chão; um gracioso sorriso adornava-lhe os lábios, e seu encantador olhar esmeralda caía sobre Rafael.
"Meu amor", ela estendeu a mão, "sente-se ao meu lado. Senti tanta falta de você", a voz dela era tão suave aos ouvidos do escritor quanto a garoa noturna mais aconchegante, que leva sono e sossego àquela mente ansiosa, incapaz de dormir. Atônito, disse:
"Ada?! C-com... n-não pode... não pode ser..."
"Meu amor... Rafa, sou eu. Venha", ainda estendia-lhe a mão, "temos muito a conversar. Quero saber como você está; como nossa princesa está. Venha..."
"Amor?", as lágrimas subiram-lhe aos olhos, "é realmente você? N-não é possível..."
"É claro que sim, meu bem. Sou eu!"
"E-eu... ando vendo tantas... coisas", hesitou, "n-não sei mais no que acreditar... tanto aconteceu nesta noite...", silenciosas lágrimas escorreram-lhe rosto abaixo.
"Eu sei, amor. Quero ajudá-lo... ajudá-lo a sair deste pesadelo. Confie em mim. Quero seu bem; sempre quis. Mas antes, quero conversar."
"Tu-tudo bem", enxugou os olhos e agachou-se ao lado dela. Ela segurou as mãos de Rafael.
"É-é ela!", pensou. Abraçou-a com força.
Não havia água na banheira, nem aquele outro líquido... vermelho. Sentiu-se aliviado. Porém, havia outra coisa lá dentro: uma faca. Repousava junto aos delicados pés de Ada. Rafael estremeceu.
"Por quê? Por que fez aquilo?"
"Estava doente, Rafael... precisava de ajuda. Não consegui me recuperar. Era insuportável... viver."
"E-eu tentei te ajudar", disse inconformado, "teria continuado tentando até não ter mais forças. Por q-", parou de falar. Lágrimas umedeceram-lhe os olhos, "nossa garotinha sente tanto a sua falta", terminou.
"Nossa garotinha...", avermelharam-se os olhos dela, "nossa princesa... nossa pequena Eva. Como sinto falta dela...", ela lastimou. Ressoaram-se-lhe o pranto pelo banheiro. Ele a abraçou novamente. Choraram juntos.
"Eu te amo", ele disse com o peito pesado, "perdoe-me, Ada. Falhei... Perdão pelo que disse. Pelo que fiz."
"Tudo bem, meu amor", ela disse. As lágrimas ainda rolavam-lhe rosto abaixo, "ainda pode me ajudar."
"Posso?", perguntou esperançoso.
"Sim", esticou a mão e pegou a faca que repousava-lhe entre os pés, "corte-a", olhou para a mão direita de Rafael, "corte-a, meu amor. Livre-se. Enxergue."
Rafael recuou.
"A-Ada...", disse enleado, "c-como pediria isso de mim? Como isso iria ajudá-la?"
"Meu amor, você não entende", ela coçou a pele dos braços, "arde tanto", avermelharam-se-lhe os olhos novamente, "sinto-me tão sozinha...", brilhava-lhe o olhar, rubi, sob a luz, "não há outra saída... Deve cortá-la!", exclamou.
"Meu bem, minha Ada...", ele disse acariciando a face dela, "não há necessidade disso! Sempre estarei aqui. Pode... pode me visitar sempre! Mas... mas o que está sugerindo é o pior dos pecados."
"Quem é você para falar sobre pecar?!", protestou rispidamente.
O escritor ficou sem resposta por alguns segundos...
"Sim", lembrou-se das palavras que disse a ela, e o coração tornou-se-lhe excessivamente pesado dentro do peito, "perdoe-me. Errei...", a lástima apoderou-se novamente de seus olhos, "não há um dia sequer em que não me arrependo do que disse e do que fiz. É uma culpa que carregarei eternamente. Porém, não posso desistir. Não posso abandonar minha mãe, muito menos nossa filha. Amo-as."
"Mentiroso", ela bradou, "sempre foi e sempre será um mentiroso. Mente para a própria mãe e filha, assim como mentiu para mim! Mente para Ele! PEQUEI POR CULPA SUA!"
"Ada...", acelerou-se-lhe o coração.
"Diz temer o julgamento de Deus, mas repete os mesmos pecados do passado! Recusa-se a enxergar! Diz amar sua mãe, mas a abandona pelos mesmos motivos que me abandonou, enquanto ela sofre da mesma doença que eu tive! E nossa filha?! O amor que tem pelo álcool mostrou-se mais poderoso do que o que tem por ela! Diga-me, sua cobra mentirosa, por que há tantas garrafas vazias na sua casa ao invés de brinquedos de criança?! Por que há uma pessoa qualquer deitada na sua cama ao invés de uma filha pedindo para que leia uma historinha antes de dormir?! Por que dedica-se tanto aos seus malditos livros ao invés de ensiná-la a ler e a escrever?! HIPÓCRITA! MENTIROSO!", a cólera dela ecoou pelo banheiro.
Rafael estava desnorteado, sem saber o que responder. Cólera cintilava nos olhos dela, e ela agarrava a faca com força. A luz das lâmpadas reluziam na lâmina da arma. Ele via ódio em seu rosto. Respirou fundo e disse:
"Você está certa. Sou um mentiroso e um hipócrita. Errei e continuo errando. Peço desculpas, Ada", olhou-a nos olhos, cheios de rancor, "Você não merece isso. Nem minha mãe ou nossa filha. Eu lhe dou minha palavra que irei mudar. Eu... eu ainda posso mudar. Vou melhorar", repousou a mão canhota sobre a dela, que erguia a faca. Ela voltou a prantear:
"Por favor...", soluçava, "n-não me deixe sozinha. Lá é horrível. Por favor, Rafa... pegue a faca... n-não quero voltar para lá."
"E-eu", não sabia o que falar, "meu bem... eu rezarei por você todos os dias. Prometo. Ele irá protegê-la. Ele ainda te ama, assim como eu."
"Por favor", suplicou lagrimejando, "Amor da minha vida, eu imploro! Ele... ele vai me levar de volta para lá!"
"Vamos orar, meu amor! Oremos juntos!"
"Não", urrou, "não vai funcionar! Pege a faca e corte-a!"
"Ore comigo meu amor. Não perca a fé! Pai nosso.."
A pele dela ruborizou-se. Ela se coçou agressivamente. Um alto chiado encheu o banheiro; um vapor denso e malcheiroso subiu-lhe do corpo. Ela gritou.
"Rafael!", guinchou, "p-pelo amor de Deus! Proteja-me! N-não quero voltar para lá! POR FAVOR!", esbravejava de dor e contorcia o pescoço, "ARDE! ELE VAI ME LEVAR DE VOLTA! VOU ARDER PARA SEMPRE!", bolhas rosadas formaram-se-lhe por todo o corpo. Rafael estava em choque, mas continuou:
"Que estais nos Céus!", disse em voz alta, enquanto o vapor que saía do corpo de sua ex-esposa enchia o local, "santificado seja o Vosso Nome", continuou enquanto ela ladrava, "venha a nós o vosso Reino", as bolhas no corpo de Ada começaram a estourar, desprendendo pedaços negros de carne; o chiado acentuou-se, "SEJA FEITA A VOSSA VONTADE", tentou rezar mais alto ainda, inutilmente, "ASSIM NA TERRA COMO NO... COMO NO... c-como no...", viu partes do crânio debaixo da derme enegrecida da testa e do olho esquerdo de Ada; apareciam-lhe o maxilar e os dentes da bochecha direita, despidos de carne e chamuscados pelo vapor impiedoso; costelas, úmero, fêmur e tíbias estavam expostos, carbonizados. Gritos de dor reverberavam por ali. Em meio àquela sauna putrefata, o escritor estava petrificado, com os olhos arregalados, boquiaberto e com lágrimas de espanto descendo-lhe pelo rosto. Não conseguiu terminar de proferir as palavras. Sentia a mão direita pulsar, mas isso pouco importava agora.
"RAFAEL", ainda gritava Ada, "NÃO ME ABANDONE DE NOVO! A FACA! PEGUE A FACA!"
Mas ele continuou paralisado, incrédulo. Desesperada e urrando, com a arma em mãos, ela cortou os próprios pulsos. A afiada lâmina emitiu um estridente silvo ao rasgar a pele. Sangue jorrou para todos os lados, sujando o rosto de Rafael, suas roupas, as paredes e o teto. O carmesim encheu rapidamente a banheira, e ela, aos poucos, parou de gritar. Lentamente, o esmeralda nos olhos dela desvaneceu-se; agora estavam foscos, mortos; e a coroa dourada que antes carregava na cabeça tornou-se rubra ao flutuar no próprio sangue.
O vermelho apoderou-se daquele ambiente novamente... mas desta vez, havia mais; muito mais. Pingava do teto, escorria pelas paredes e pelo rosto do escritor.
"Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue. Mais sangue", pensou, "falhei novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente. Novamente."
Rafael não piscava; ainda estava boquiaberto e com os olhos esbugalhados. O rubro gosto azedo da culpa enjoava-lhe a língua; deixou o carmesim de sua ex-companheira enfeitar-lhe as pupilas e observou debilmente o banheiro, escarlate e insalubre. Como se tivesse vontade própria, o sangue nas paredes foi tomando lentamente o formato de letras enquanto escorria até o chão:
"FRACA, INÚTIL", lia-se por todos os lados.
Ass: Wally
domingo, 18 de agosto de 2019
A sensatez da Raisa
Bom o que vou contar é extremamente controverso, tudo se passa em fração de segundos, naquele momento eu estava com a mão na perna dela, o ombro dela tocava em meu queixo todas as vezes que ela fazia o movimento de tragar o narguilê.
Eu não sou de narguilê, mas quando cheguei foi a segunda coisa que ela me ofereceu depois do whisky, não teve como recusar. É claro que eu tossi, era errado, tudo aquilo era errado.
Consciência pesada? Bom, poderia escrever mil parágrafos pra tentar explicar, mas em resumo, em certas ocasiões nem consciência eu tenho, em outras sou uma pessoa normal. As vezes liberto o hap que tem dentro de mim (hap é o vilão mais sádico que conheci, trancafiou cinco pessoas em seu porão por sete anos, um sequestrador, um carcereiro, um ladrão de mentes, um assassino, mas acima de tudo um cientista, um viajante, um explorador, de certa forma, o trabalho do hap não é desnecessário).
Ela me perguntou se eu já tinha pegado a menina que estava na nossa frente? Se isso aqui fosse um filme, nesse exato momento a câmera faria um movimento de 180 graus até chegar ao casal a nossa frente se beijando.
Ele, nosso amigo em comum, fez faculdade comigo, foi ao Mato Grosso comigo em uma louca viagem de carnaval, me levou pra Caldas Novas cerca de uns 03 meses atrás, ocasião onde conheci a Raisa.
Ela, bem, já contei um pouco sobre ela aqui nesse blog, reconheceria esse sorriso em qualquer lugar do mundo, aquela garota legal, que agora sorria para o meu amigo.
Respondi no ouvido da Raisa que "já tive uma história com ela no passado". Não satisfeita ela me perguntou "mas você pegou mesmo? mesmo?" Porra Raisa, não vacila! (claro, eu pensei, não falei isso alto)... é aconteceu isso mesmo, Raisa.
Então o que acontece a seguir é extremamente controverso e (tirem suas próprias conclusões) a garota do sorriso disse que minha namorada não deveria nem existir, que eu não deveria ter ido a casa dela aquele dia e a levado ao hospital, que deveria ter ficado no sul bebidas, que tudo seria diferente.
Neste ponto acho que a Raisa se sentiu mal.
Recapitulando, horas antes eu estava aqui em casa estudando, disseram no grupo que a Raisa queria me ver, é meu último fim de semana em Goiânia. A princípio eu ignorei.
Depois a Raisa mandou a localização do Alabama e disse que estava rolando um open bar. Eu ignorei.
Me mandaram mensagem no privado dizendo que se eu não fosse até lá a Raisa ia subir na caixa d'agua. Continuei estudando.
Então ela enviou novamente a localização, sem dizer mais nada. Segui estudando, mas disse que talvez mais tarde apareceria.
A quarta localização já era a casa do meu amigo, onde essa história se passa, a Raisa disse que estavam indo pra lá e me praticamente me intimou pra ir. Porra, ninguém é de ferro, a essa altura eu já tinha liberado o hap que tem dentro de mim.
Quando cheguei a Raisa me recebeu com um copo de whisky muito bem feito e narguilê. Estávamos ali meio que "de casal" os quatro.
Até então não tinha acontecido nada a não ser a mão na coxa, os dedos entrelaçados. Este poema, se é que se pode chamar assim, serve pra provar minhas suspeitas e finalizar de vez a história que nunca deveria ter sido contada sobre aquela garota legal, que estava ali do outro lado da mesa agarrada no nosso amigo.
Aquele grupo "viagem de Caldas Novas" que depois se tornou "histórias de Caldas" meio que não servia pra mais nada além de eu mandar localização e escrever "bora, Raisa!" sempre que eu ia pra algum lugar.
Os outros pensavam que eu era a fim dela, mas eu acho que mandava isso só de zuação mesmo, as vezes mandava até quando estava com minha gata.
Até que aconteceu isso. Bom nesse dia a Raisa me mandou localização quatro vezes e chegamos ao ponto da história em que em uma fração de segundos, estava eu ali, com as mãos na perna da Raisa fazendo carinho, ela tragando o narguile, tomávamos whiske no mesmo copo, em fim...
Acho que ela me mandou aquelas localizações também de curtição, igual eu sempre fiz, acho que rolou um sentimento recíproco de curtição, meio que ninguém entendeu, todos botaram pilha, todos pensaram que ia rolar (todos inclusive o hap que tem dentro de mim).
Mas todos os momentos que encostei minha bochecha na dela e beijei seu pescoço, todas as vezes que tentei soltar aquele "vem cá?" ela me interrompia, ela me impedia, ela me lembrava da minha namorada.
No dia seguinte eu saí do grupo. A noite falei com a Raisa, pedi pra ela o nome do tio dela ou o número do processo pra dar uma olhada, ela me agradeceu pela atenção e me perguntou porque eu saí do grupo, respondi que era pra estudar, que minha prova estava próxima.
A Raisa me colocou novamente no grupo e até o momento ninguém deu um pio por lá desde então/ até então. Então acho que por enquanto este é o fim.
por Chaves
Eu não sou de narguilê, mas quando cheguei foi a segunda coisa que ela me ofereceu depois do whisky, não teve como recusar. É claro que eu tossi, era errado, tudo aquilo era errado.
Consciência pesada? Bom, poderia escrever mil parágrafos pra tentar explicar, mas em resumo, em certas ocasiões nem consciência eu tenho, em outras sou uma pessoa normal. As vezes liberto o hap que tem dentro de mim (hap é o vilão mais sádico que conheci, trancafiou cinco pessoas em seu porão por sete anos, um sequestrador, um carcereiro, um ladrão de mentes, um assassino, mas acima de tudo um cientista, um viajante, um explorador, de certa forma, o trabalho do hap não é desnecessário).
Ela me perguntou se eu já tinha pegado a menina que estava na nossa frente? Se isso aqui fosse um filme, nesse exato momento a câmera faria um movimento de 180 graus até chegar ao casal a nossa frente se beijando.
Ele, nosso amigo em comum, fez faculdade comigo, foi ao Mato Grosso comigo em uma louca viagem de carnaval, me levou pra Caldas Novas cerca de uns 03 meses atrás, ocasião onde conheci a Raisa.
Ela, bem, já contei um pouco sobre ela aqui nesse blog, reconheceria esse sorriso em qualquer lugar do mundo, aquela garota legal, que agora sorria para o meu amigo.
Respondi no ouvido da Raisa que "já tive uma história com ela no passado". Não satisfeita ela me perguntou "mas você pegou mesmo? mesmo?" Porra Raisa, não vacila! (claro, eu pensei, não falei isso alto)... é aconteceu isso mesmo, Raisa.
Então o que acontece a seguir é extremamente controverso e (tirem suas próprias conclusões) a garota do sorriso disse que minha namorada não deveria nem existir, que eu não deveria ter ido a casa dela aquele dia e a levado ao hospital, que deveria ter ficado no sul bebidas, que tudo seria diferente.
Neste ponto acho que a Raisa se sentiu mal.
Recapitulando, horas antes eu estava aqui em casa estudando, disseram no grupo que a Raisa queria me ver, é meu último fim de semana em Goiânia. A princípio eu ignorei.
Depois a Raisa mandou a localização do Alabama e disse que estava rolando um open bar. Eu ignorei.
Me mandaram mensagem no privado dizendo que se eu não fosse até lá a Raisa ia subir na caixa d'agua. Continuei estudando.
Então ela enviou novamente a localização, sem dizer mais nada. Segui estudando, mas disse que talvez mais tarde apareceria.
A quarta localização já era a casa do meu amigo, onde essa história se passa, a Raisa disse que estavam indo pra lá e me praticamente me intimou pra ir. Porra, ninguém é de ferro, a essa altura eu já tinha liberado o hap que tem dentro de mim.
Quando cheguei a Raisa me recebeu com um copo de whisky muito bem feito e narguilê. Estávamos ali meio que "de casal" os quatro.
Até então não tinha acontecido nada a não ser a mão na coxa, os dedos entrelaçados. Este poema, se é que se pode chamar assim, serve pra provar minhas suspeitas e finalizar de vez a história que nunca deveria ter sido contada sobre aquela garota legal, que estava ali do outro lado da mesa agarrada no nosso amigo.
Aquele grupo "viagem de Caldas Novas" que depois se tornou "histórias de Caldas" meio que não servia pra mais nada além de eu mandar localização e escrever "bora, Raisa!" sempre que eu ia pra algum lugar.
Os outros pensavam que eu era a fim dela, mas eu acho que mandava isso só de zuação mesmo, as vezes mandava até quando estava com minha gata.
Até que aconteceu isso. Bom nesse dia a Raisa me mandou localização quatro vezes e chegamos ao ponto da história em que em uma fração de segundos, estava eu ali, com as mãos na perna da Raisa fazendo carinho, ela tragando o narguile, tomávamos whiske no mesmo copo, em fim...
Acho que ela me mandou aquelas localizações também de curtição, igual eu sempre fiz, acho que rolou um sentimento recíproco de curtição, meio que ninguém entendeu, todos botaram pilha, todos pensaram que ia rolar (todos inclusive o hap que tem dentro de mim).
Mas todos os momentos que encostei minha bochecha na dela e beijei seu pescoço, todas as vezes que tentei soltar aquele "vem cá?" ela me interrompia, ela me impedia, ela me lembrava da minha namorada.
No dia seguinte eu saí do grupo. A noite falei com a Raisa, pedi pra ela o nome do tio dela ou o número do processo pra dar uma olhada, ela me agradeceu pela atenção e me perguntou porque eu saí do grupo, respondi que era pra estudar, que minha prova estava próxima.
A Raisa me colocou novamente no grupo e até o momento ninguém deu um pio por lá desde então/ até então. Então acho que por enquanto este é o fim.
por Chaves
domingo, 26 de maio de 2019
Samuel, o Juiz
O céu chorava contra a terra; cada gota tão pesada como uma pedra, castigando e umidificando os arredores da casa. Relâmpagos iluminavam subitamente as ruas, toldadas pela noite, e trovões reverberavam-lhe os urros ao longo da vizinhança como uma orquestra de leões, cantando e assombrando todos os moradores dali, alertando-os para ficarem dentro de casa. Lá fora, o vento frio cortava como navalha. Luz rutilava na sala de estar de uma das residências. Lá dentro, na cozinha, uma chaleira assentava calmamente em cima do fogão, adormecida e ainda não quente o bastante. Na sala, uma mão irrefreada escrevia no caderno. Dominava este, assim como um amante subjuga-lhe a amada. A mão continuou escrevendo; fora criada para 'fazê-lo. Era esse seu destino, escrever.
Eventualmente, a mão parou. Com um longo suspiro, o indivíduo largou a caneta, que despencou sobre o caderno, agora cheio de anotações. Calmamente, o homem retirou os óculos, limpou as lentes do dispositivo com uma flanela negra e o repousou sobre a mesa ao lado, junto da caneta e do caderno. Agora, o escritor esperava e observava as ruas afora, através da janela da sala, sentado confortavelmente em sua poltrona. Vestia um pijama branco, um luxuoso roupão negro e aconchegantes sapatos de dormir. Observou a sala ao redor, e fitou os olhos na grande estante que ficava ao lado do banheiro de visitas. Esta, feita de madeira envernizada, brilhava majestosamente, e erguia-se até o teto. Era decorada por livros, troféus e garrafas vazias. Ao lado da estante, a poucos passos de distância, uma mesa auxiliar repousava, enrugada e marcada por riscos de desgaste e manchas causadas pelo sol. Mas lá ficava ela, encolhida, perto da magnífica estante de livros. A pequena mesa parecia esforçar-se para sustentar o retrato e o livro grosso empoeirados que nela jaziam. As paredes da sala eram tão brancas quanto as nuvens da manhã mais bela, com exceção de uma mancha desvanecida em forma de cruz, vestígio do objeto que já não estava mais lá. O ar pesou-se nos pulmões do escritor, e um tênue formigamento mordiscou-lhe a mão direita ao olhar para a mancha que pairava sobre a mesa. Porém, esses incômodos desvaneceram quando o rosto sorridente de sua mãe surgiu-lhe na mente. O ar que respirava percorreu-lhe pelos pulmões suavemente e o formigamento cessou.
"Não falo com ela há tanto tempo...", pensou.
Ela o convidou para visitá-la em casa várias vezes nos últimos meses, mas ele recusou:
"Perdoe-me, mãe. Estou bastante ocupado, sabe...? Meu livro...", essa era sempre sua resposta.
Não obstante, Maria, sua mãe, insistia em vê-lo através de chamadas de vídeo pelo celular.
"Por que não manda mensagem, mãe? É mais fácil", dissera sorrindo uma vez.
"Pra mim, é mais fácil fazer chamada de vídeo", ela respondera, "é só apertar um botão. Além disso, posso vê-lo", concluira sorrindo.
Recordou-se da última vez que a visitou. Ela serviu-lhe chá, como de costume, e falou; o escritor ouviu, mas não escutou. Não escutava o que ela dizia há algum tempo. Desde quando...
Maria adorava falar sobre as experiências engraçadas que tinha no instituto onde trabalhava. Nunca se esqueceu de quando ela o contou sobre Marcos, um dos pacientes de lá:
"Ele sempre pede que eu massageie os ombros dele", Maria dissera aos risos, "me falou que tenho mãos macias."
Ainda riam juntos nessa época...
Quando Maria se aposentou, começou a fazer trabalho voluntário em um instituto de deficientes mentais; dizia que isso mantia-lhe a mente ocupada e afastava o enfado e outros sentimentos ruins de si. Lia no rosto de sua mãe que ela gostava do trabalho, pois passava horas e horas falando sobre o mesmo quando se viam, além de beberem chá e rezar. Outrora, o escritor regalava-se com tudo isso...
"Como está sua pequenina?", perguntou-lhe a mãe da última vez que a visitou.
"Está bem..."
"Não a vejo há muito. Sinto saudades daquela mocinha linda. Quando poderemos visitá-la novamente?"
"Não sei", respondeu indiferente.
"Está tudo bem? Você anda tão... disperso."
"Sim, mãe...", as palavras flutuavam-lhe, apaticamente, para fora da boca.
"Você sabe que pode me falar qualquer coisa. Quero o seu bem..."
"Sim, mãe. Eu sei."
"Anda bebendo?", ela perguntou e segurou-lhe a mão direita, que repousava, adormecida, em cima da mesa, sem tocar a xícara de chá.
"Não", ele retirou sua a mão dali, abandonando a de Maria, que tremia, solitária, em cima da mesa.
"Tem rezado? Tem lido a Bíblia?"
"Sim", mentiu.
"Vamos à igreja juntos neste final de semana? Creio que irá ajudá-lo.. faz tanto tempo que não vamos juntos... desde...", não concluiu. Bebericou seu chá e fitou o chão.
"Bem... eu ando bastante ocupado, sabe? Escrevendo... tenho que terminar meu livro. Depois... depois nós vamos."
"Ah, sim... entendo. Tudo bem", ela sorriu, mas seus olhos ficaram vermelhos.
Sentia o coração pesado por ter recusado o convite de sua mãe. Era bastante religiosa. Ela presenteou-lhe com a Bíblia sagrada e uma cruz quando ele se casou. Também levava-o à igreja ao menos uma vez na semana quando era criança, além de rezar ao seu lado todas as noites antes de colocá-lo para dormir. Quando o escritor não conseguia adormecer por medo do escuro, ela recitava-lhe os versículos de Salmos, capítulo 121:
"'Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro.
O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.
Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará.
Eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel.
O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita.
O sol não te molestará de dia nem a lua de noite.
O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.' Boa noite, querido. Mamãe te ama."
Recordou-se do confortável e quente abraço que o sono lhe concedia ao ouvir a gentil voz de sua mãe murmurar tais versículos. Agora, esses abraços eram escassos; o sono parecia fugir-lhe com demasia, e sua cama passara a ser um lugar de recordações amargas e de visitantes efêmeras. Sentia-se mal por não visitar a senhora sua mãe com mais frequência, mas sua mão tinha o objetivo de escrever, e nada poderia impedi-la. Nada. Encarou no mar de escuridão afora, e então olhou o relógio de ouro que adornava-lhe o pulso destro. Ainda era cedo.
"Mais alguns minutos até o chá ficar pronto", pensou.
Seus olhos encontraram-se com a velha mesa sobre a qual o livro e o retrato jaziam. Hesitou por um instante, mas acabou levantando da poltrona e se dirigiu ao móvel. Viu a mancha na parede deixada pela cruz ausente que pairava sobre a mesa à sua frente ficar maior ao aproximar-se. Apesar de estar a poucos passos de distância, a caminhada até lá pareceu demorar horas. A frágil mesa encolheu-se diante dele como um idoso debilitado. Poeira envolvia por completo o grosso livro, com uma cruz na capa. Estendeu a mão direita como se fosse tocá-lo, mas um formigamento mordiscou-lhe o punho. Recuou. Cravou os olhos no retrato ao lado, também empoeirado e castigado. Ao encará-lo, a orquestra da tempestade lá fora desvaneceu lentamente. Três sorrisos ornamentavam a foto: o de uma mulher, o de um homem e o de uma garotinha, em meio aos dois adultos. Fitou friamente a mulher e a si mesmo por um segundo. Os lábios destes esboçavam algo semelhante a sorrisos, e suas faces eram de um branco fantasmagórico. Esfriou-se-lhe o sangue e tremeu-se-lhe a mandíbula ao ver o rosto da mulher, e imediatamente, o escritor postou os olhos na garotinha. Na foto, abraçava-os, e seu cabelo reluzia uma cor dourada bastante viva. O rosto dela emitia uma luz quente, e ela tinha o sorriso mais sincero dos três. Congelou-se a barriga e pesou-se o coração do escritor. Imediatamente, retirou o olhar do retrato e fugiu dali para a magnífica estante de livros e troféus ao lado. Admirou-a e todos os objetos que repousavam nela. Sua bela madeira marrom envernizada brilhava e aquecia a sala. Passeou com os olhos pelos retratos, livros e garrafas vazias. Porém, fixou o olhar em um grande troféu dourado em forma de mão. Destra e reluzente, se destacava na estante, e dentre os dedos, repousava um lápis. Segurou o troféu por um momento. Desvaneceu-se-lhe o frio na barriga, assim como o peso dentro do peito. Um sutil sorriso escreveu-se-lhe nos lábios. Após devolver a mão dourada ao seu devido lugar, conseguiu ouvir novamente o barulho da chuva e dos trovões. Por um momento, esquecera do temporal lá fora. Virou-se em direção à cozinha. Já era hora. O chá já devia estar quase pronto.
Quando estava prestes a dar o primeiro passo, três fortes batidas fizeram a porta de entrada de sua casa tremer. Ele parou. A chuva castigava o local com mais força ainda; os raios iluminavam sinistramente os cômodos sombrios da residência, seguidos pelos rugidos reverberantes dos trovões. Virou-se. Encarou a porta.
"Quem pode ser numa hora dessas?", disse consigo mesmo. Esperou mais um pouco. Poderia estar ouvindo coisas.
"TUM, TUM, TUM!", as três batidas atingiram a porta com mais força ainda.
"Quem é?!", indagou. Tentou soar firme, mas sua voz tremeu um pouco.
Ninguém respondeu...
Arrepios escalaram-lhe a espinha dorsal. Franziu o cenho e respirou profundo. Seu celular estava no bolso, caso precisasse. Dirigiu-se à porta com passos leves e lentos. As luzes da sala ameaçaram apagar-se por um breve momento, mas ficou grato por isso não ter ocorrido. Espiou pelo olho mágico da porta...
O ar escapou-lhe dos pulmões por alguns segundos.
Do outro lado, uma figura envolta em vestes negras se erguia, alta e esguia, debaixo de um guarda-chuva, também negro. O escritor afastou-se da porta e retirou o celular do bolso. Cogitou chamar a polícia.
"Por que não respondeu nada quando perguntei quem era?", pensou. Também ponderou subir as escadas e chamá-la, avisá-la, ou ao menos perguntar o que pensava sobre tudo aquilo. Mas era de madrugada e não queria acordá-la. Também não queria soar como um covarde.
"Não pode ser coisa boa numa hora dessas...", concluiu. Desbloqueou a tela de seu celular, mas quando estava prestes a digitar, mais três batidas agrediram a porta atrás dele:
"TUM, TUM, TUM!"
Deixou o celular cair no chão.
"Quem é'?!", o escritor perguntou mais alto.
"Olá!...", respondeu a voz lá fora, "...lamento perturbá-lo assim tão tarde! Meu carro estragou no meio da estrada! Só preciso utilizar seu telefone para chamar o reboque."
...
"Não irei demorar um segundo, prometo!", continuou, "peço perdão por te incomodar, mas poderia me ajudar com esse problema?"
"Não tem celular?", redarguiu o escritor.
"Qual é o seu nome?"
"Meu nome?! Nem te conheço..."
"Sim, é claro. Perdão. Estava tentando ser cortês. Meu nome é Samuel. Estava voltando de uma viagem a serviço quando meu carro pifou. Ao sair do carro para checar o motor, meu celular caiu no chão alagado. Não funciona mais... caminhei um pouco em busca de um telefone público, mas não achei nenhum. Então vi a luz da sua sala acesa... poderia me ajudar, por favor, senhor...?"
"Por que não esperou o dia amanhecer para viajar?", interrogou. Não obteve resposta. Continuou:
"Por favor, retire-se. Ou... ou chamarei a polícia", avisou.
"Não estou mentindo... tive que viajar nesta hora por motivos pessoais. Houve uma emergência... alguém próximo a mim precisa muito de minha ajuda. Mas... tudo bem. Não precisa abrir a porta, nem chamar a polícia. Não quero confusão. Vou me retirar."
Estava dividido. Não sabia se ele falava a verdade, mas o temporal iria castigá-lo. E se esse alguém próximo a ele realmente precisasse de ajuda? Finalmente, tomou uma decisão:
"Espere!", o escritor gritou para que o homem pudesse ouvi-lo, "Rafael... meu nome é Rafael."
"Rafael", ele respondeu, "permita-me fazer somente uma ligação. Será rápido, prometo."
Hesitou mais uma vez, mas acabou abrindo a porta. O vento arrepiante adentrou a sala e se espalhou pelos cômodos da casa. As frias e finas gotas de chuva umedeceram-lhe o rosto. O corpo de Rafael estremeceu, apesar do roupão que o cobria. Lá fora, a chuva estava bem mais forte do que pensava. Sentiu-se mal por ter feito o homem esperar por tanto tempo.
"Perdão. Não podemos confiar em qualquer um nos dias de hoje, sabe?", Rafael explicou-se.
"Tudo bem... não o culpo."
O homem fechou o guarda-chuva, revelando-lhe o rosto pálido, fino e pontiagudo. Tinha os olhos tão escuros quanto a própria noite, toldados por profundas olheiras. O estranho chacoalhou o guarda-chuva antes de entrar e enxugou a sola dos sapatos, também negros, no tapete de boas vindas da porta. Trajava um terno, gravata e calças sociais. Rafael fechou a porta imediatamente após ele entrar.
"Que chuva! E que azar o meu... moro tão perto. Estou a poucos quilômetros de distância de casa."
Só agora o escritor reparou na voz do estranho, não destorcida pelo barulho da tempestade lá fora. Era baixa e profunda, e soava como algo que nunca ouvira dantes.
"Sim, sim... sente-se!", apontou para o sofá da sala. "Aqui, pode usar meu celular."
Entregou-lhe o aparelho enquanto o homem se aconchegava no sofá. Ao sentar-se, os olhos do homem chamado Samuel estudaram a sala. Fixou o olhar rapidamente na estante e na velha mesa.
"Muito obrigado", disse Samuel.
"Vou pegar uma toalha para se enxugar um pouco...", disse Rafael.
Dirigiu-se ao banheiro da sala, pegou a toalha de rosto e a entregou ao indivíduo. Enquanto o homem tentava ligar para o reboque, enxugou-se e devolveu a toalha com um tênue sorriso familiar no rosto. As pálpebras do homem pendiam, como se pudessem fechar-se a qualquer instante, e os círculos escuros que contornavam-lhe os olhos davão uma sensação de desconforto a Rafael. Samuel tentou ligar várias vezes, em vão. Então, desistiu e colocou o celular em cima do sofá.
"Bem...nenhum telefone atende."
"Provavelmente por causa da chuva", redarguiu o escritor, "ou por causa do horário."
"Olhe, me desculpe. Se quiser, posso me retirar e esperar a chuva passar em meu carro. Já te incomodei demais."
Rafael quase concordou. Por um segundo, quis falar àquele estranho para ir embora; sair e nunca mais voltar. Porém, sentiu pena do homem... a natureza estava furiosa naquele dia.
"Fique tranquilo", acabou dizendo, "a tempestade irá passar em breve. Pode ficar até então."
"Obrigado, mas provavelmente quer descansar. Creio que não é capaz de fazê-lo com um estranho debaixo de seu teto."
"Já descansei o suficiente. Não se preocupe. Estava até fazendo chá... Aceita?"
Samuel esboçou aquele mmesmo sorriso novamente.
"Sim", ele respondeu, "muito obrigado."
"A cozinha... é por aqui..."
Ao virar as costas, o homem chamado Samuel aparentou crescer. Não parecia mais ser o indivíduo para quem abrira a porta da casa; era como se ele ocupasse todo o cômodo atrás de si. Um enorme peso caiu sobre as costas do escritor, pressionando-lhe os ombros para baixo. Parou. Olhou para trás. Lá estava o homem: alto, mas não do mesmo tanto que sentiu quando deu-lhe as costas, esguio e com olheiras pesadas. Os lábios do estranho encresparam-se, formando-lhe um sorriso no rosto pálido. Sorriso bastante familiar... Rafael também encrespou os lábios, e lhe deu as costas mais uma vez. Sentiu aquela mesma sensação novamente, como se o homem atrás de si se apoderasse de toda a sala. Só que desta vez, não olhou para trás; seguiu direto para a cozinha. Lá, Rafael puxou uma das cadeiras da mesa de jantar e fez um gesto para que o homem se sentasse. Ele o fez, e com um aceno, agradeceu.
"Bela casa", Samuel disse.
"Obrigado", respondeu o escritor, "a pessoa que precisa de sua ajuda... é urgente?"
"Ah, sim... ela ficará bem", sorriu.
"...ah", respondeu Rafael, "tem certeza? Parecia ser bastante urgente..."
"Sim... tudo vai ficar bem agora", sorriu novamente; mas este sorriso perpetuou. Os olhares dos dois se cruzaram. Viu olhos negros. O formigamento na mão direita de Rafael voltou a incomodá-lo. Ele abriu e fechou os dedos lentamente com a intenção abrandar a tênue dor. Desviou a atenção para a chaleira e a tocou cautelosamente. Estava fria. Mais fria do que antes de colocá-la no fogão.
"Estranho", disse consigo mesmo, "já deveria estar começando a apitar".
Percebeu que o fogão estava desligado. Tentou acender a chama novamente, mas ela se apagou rapidamente, como se tivesse sido sugada por algo. Teve aquela sensação atrás de si de novo enquanto tentava reacender a boca do fogão. O formigamento voltou a mordiscar-lhe o punho destro. O frio invadiu subitamente a cozinha e abraçou Rafael por trás. A respiração pesou-se-lhe nos pulmões. Rafael arquejou.
"Tudo bem?", perguntou Samuel.
"Sim... sim. Ficando doente... esse tempo, sabe?"
"Então esse chá vai lhe fazer bem", respondeu com outro sorriso.
"Sim... vai sim..."
Finalmente, conseguiu acender a chama da boca do fogão. Um breve silêncio caiu sobre a cozinha.
"Rafael, sente-se. Sinta-se em casa", disse sorrindo.
"Ah, sim... claro", riu desengonçadamente em resposta.
Sentou-se em frente ao homem. Remexia-se na cadeira, incapaz de se acomodar.
"Então...", disse Rafael, "Samuel... o que faz da vida, se me permite perguntar?"
"Sou juiz", respondeu.
"... juiz? Legal", forçou um sorriso.
Silêncio. Rafael pigarreou.
"Deve ser bastante ocupado", ele continuou.
"Muito. Não é fácil."
"Imagino. Culpar, inocentar... muita responsabilidade, não é?"
"Ah, mas eu sempre sei quem é culpado ou inocente", disse encarando o escritor nos olhos, "a questão é... e o réu? Também sabe?"
"...entendi", respondeu intrigado.
"O mais difícil de um julgamento é o despertar", continuou Samuel, "o abrir dos olhos; é difícil e doloroso. Meu maior desafio é esse; ajudar o réu que não vê a começar a ver. E mais importante ainda, entender o porquê da pena aplicada. É como um bebê que chora ao abrir os olhos para enxergar a realidade ao seu redor pela primeira vez. Dói, mas é um preço justo que deve ser pago para não se viver na cegueira para sempre."
O que ele disse deixou Rafael perplexo. O sorriso de Samuel perpetuava. Um sorriso tênue, frio... e forçado.
"...sim, claro", o escritor devolveu com uma risada baixa e sem graça, "...em qual área atua? É juiz criminal? Cível?"
"Atuo em todas essas áreas", respondeu secamente.
"Entendi...", respondeu Rafael, mais confuso ainda.
"Você é escritor", disse Samuel. Pausou. Mas não desviou os olhos, "belo troféu na sala", continuou, "belo prêmio. É membro de alguma academia de letras?"
"Não", respondeu Rafael com um sutil riso. "...ainda não. Quem sabe no futuro, se Deus quiser."
"Sim... se Deus quiser", disse Samuel. Seus olhos ainda o penetravam, fixos. Não se moviam. Sequer piscavam.
"Escreve sobre o quê? Se me permite fazer tal pergunta, é claro."
A cortesia dele o acalmava um pouco. Mas havia algo sobre o homem que deixava Rafael inquieto. Esperava que a chuva passasse logo para que o homem fosse embora.
"Escrevo livros de autoajuda."
"Interessante", disse Samuel, "parece ter mais responsabilidade em suas mãos do que eu."
"Sim, mas eu...", refletiu o escritor, "eu gosto disso... ter a oportunidade de ajudar pessoas que sequer conhecerei. É muito bom. Amo o que faço."
"Bem, pelo que vi em sua sala, realmente ama o que faz... mais do que tudo", sorriu e encarou o escritor.
A chaleira começou a emitir um apito tênue.
"Tem bastante orgulho do que faz, não é?", ele continuou. Cerrou os olhos, fixos em Rafael. E o sorriso continuava lá.
"Bem... sim."
O escritor desviou os olhos dos de Samuel. Pigarreou. Continuou:
"Uma vez conheci uma fã que tinha depressão...", suas mãos tremiam sutilmente; a chaleira começou a emitir um apito mais forte.
"... ela me disse que meus livros ajudaram-na a superar a doença. Fiquei muito feliz."
"Sim...", concordou Samuel com os olhos ainda cerrados, "como você é bom..."
Rafael sorriu, ansioso, em resposta, "cada um ajuda como pode."
Samuel acenou lentamente a cabeça em resposta, ainda encarando-o. O escritor postou o olhar no chão e pigarreou novamente. A chaleira apitava alto.
"Sim...", Samuel finamelte redarguiu, com os olhos semicerrados, "responda-me algo, Rafael..."
Após alguns segundos de silêncio, concluiu:
"...por que não conseguiu ajudar a própria esposa?"
A pergunta o pegou de surpresa. Rafael ficou perplexo. O apito da chaleira, alto e estridente, agora enchia a cozinha.
"Perdão?! O que?!"
E a chaleira apitava alto...
Rafael se perdeu nas palavras, pesadas demais para serem ditas. O passado lúgubre cortou-lhe a mente, e ficou preso em uma espécie de transe. As feições dela reapareceram em sua imaginação. Loira, pele clara... e triste.
E a chaleira apitava alto...
Recordações apoderaram-se-lhe dos pensamentos: um olhar, uma conversa, um abraço, um beijo; ele de joelhos, ela sorrindo, hospital, um bebê, uma criança, uma família, uma bíblia, um retrato, uma cruz na parede; escrever, garrafas vazias, brigas, escrever, psicólogos, escrever, mais brigas; sorrisos ausentes, escrever, garrafas vazias, criança ausente, remédios, overdose, hospital; papéis, advogados, escrever, mais garrafas vazias, faca, sangue, hospital, funeral, bíblia empoeirada, retrato empoeirado, cruz quebrada.
E a chaleira apitava alto...
Acelerou-se-lhe o coração dentro do peito; batia tão rápido que aparentava querer sair dali. O formigamento voltou a mordiscar-lhe a mão direita; lágrimas subiram-lhe aos olhos, mas nenhuma delas escorreu-lhe o rosto.
E a chaleira apitava alto...
De súbito, voltou-lhe a consciência para o mundo real. Ele se recompôs. Conseguia pensar com mais clareza agora. Parecia ter perdido-se nas próprias memórias por uma eternidade.
"C-como...", parou um pouco, "como você... sabe?", conseguiu vomitar algumas das inúmeras indagações desordenadas que tinha, "q-quem é você?"
Encarou o indivíduo em sua frente. Agora, o sorriso do estranho desvanecera. Enxergava um homem austero, com um olhar que lhe rasgava a alma. Seus olhos pareciam mais negros do que antes; duas órbitas escuras que buscavam sugar algo de Rafael.
"O chá primeiro", disse Samuel, "retire a chaleira do fogão. Pegue duas xícaras e sirva-nos. Depois, sente-se para continuarmos nossa conversa."
Rafael continuou fitando a figura em sua frente. Não conseguia se mexer. Estava petrificado.
"Você... é algum policial? Algum agente?", perguntou, mas sabia que a resposta seria...
"Não."
A não ser pelo som da chaleira, o silêncio dominou a cozinha, e só agora Rafael percebeu que o temporal cessara. Porém, o frio continuava. Congelaram-se-lhe as entranhas, e retesaram-se-lhe os pelos dos braços.
"Sou juiz. Não menti para você. Agora, levante-se e pegue a chaleira, por favor."
"O-olha", continuou Rafael, ofegante, "n-não sei o que você quer... mas eu abri a porta de minha casa para você. Te ajudei. A chuva... parou. Já pode continuar. Já pode... ir. P-por favor, não sei o que você quer... m-mas... p-por favor..."
O homem parecia pedra. Nada que Rafael disse o fez mudar de feição. Continuou encarando-o friamente.
"A chaleira, Rafael", disse.
Suava. Tremiam-se-lhe os braços sob a mesa. Com muita força, conseguiu mover as pernas, pesadas como pedras. Lembrou-se que o celular estava na sala, em cima do sofá.
"Posso... ir ao banheiro?"
"Agora não, Rafael. Agora irá pegar o chá."
Respirou profundo. Nunca imaginou-se numa situação dessas. Seus pensamentos decolaram enquanto levantava-se para buscar o chá. Desde quando o observara? O que queria? Como sabia que era viúvo? Teria ele uma arma? Ao dirigir-se para a chaleira, sentiu-se espiado, apesar do indivíduo sequer mexer a cabeça. Novamente, uma força invisível caiu sobre Rafael, pressionando-o, como se quisesse fazê-lo implodir. Sua mão direita voltou a doer...
A chaleira cessou seu apito ao ser retirada do fogão, e o silêncio desabou sobre toda a casa. Lembrou-se da companheira no andar de cima. O que faria agora? Ao colocar o recipiente na mesa, ouviu o chá dançar lá dentro. O rangir agudo emitido pela alça, ao soltá-la, cortou-lhe os ouvidos, assim como o tinir do impacto da mesma com o alumínio da chaleira. Posicionou a xícara e o pires em frente a Samuel. O barulho seco dos objetos de porcelana se encontrando ressoou por toda a casa. Perguntou a si mesmo se ela teria acordado. Os olhos de Samuel finalmente se moveram; voltaram a rasgá-lo, e as mãos de Rafael voltaram a tremer. A mão direita doía-lhe e pulsava tão forte quanto o coração. Rafael soltou um gemido baixo de dor.
"Espero que passe em breve", disse o juiz, "mas isso depende de você, é claro. Agora, sente-se."
Obedeceu. Sentou-se na mesma cadeira de antes, do lado oposto de Samuel, e em frente ao mesmo. O estranho bebericou o chá. Depois, serviu Rafael calmamente.
"Beba. Vai sentir-se mais calmo."
Respirou lentamente. Acalmou-se. Então, encontrou a coragem que lhe escapara:
"Fale logo o que quer. Se quisesse machucar alguém, já o teria feito. Não está aqui para fazer isso. O que quer? Dinheiro? Leve tudo. Só o faça logo. Não resistirei nem chamarei a polícia. Por favor, só o faça logo. Depois, vá embora. Deixe-nos em paz."
"Burro!", pensou Rafael, "Seu burro! 'Deixe-me!' Deveria ter falado 'deixe-me!'"
"Não estou aqui por dinheiro, Rafael. E não se preocupe com a moça lá em cima. Ela não tem nada a ver com o que se passa aqui."
"O que quer então?! Por favor, não me machuque", sua voz tremia.
"Eu não quero vê-lo machucado. Mas também não posso prometê-lo que irá sair inteiro desta conversa."
"Meu Deus!", exclamou, amedrontado, "Por favor, e-eu tenho família", implorou.
"Sim. Eu sei. Sei muito bem que tem família."
"Não machuque-os, por favor..."
Sentiu um rio de lágrimas querer subir-lhe à cabeça e jorrar-lhe pelos olhos, mas conseguiu conter-se.
"Não irei machucá-los; irei ajudá-los. Irei livrá-los. Livrá-los da dor. Livrá-los de tudo."
As luzes de toda a casa se apagaram, e Rafael foi engolido por um mar de trevas.
"Meu Deus do céu!", gritou Rafael, "Deixe-os fora disso, por favor!", berrou desesperado.
"Ave Maria, cheia de graça...", começou a rezar e o rio de lágrimas bateu-lhe contra as pálpebras dos olhos, agora fechados, "O Senhor é convosco...", as palavras prenderam-se-lhe na garganta, "bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre...", seu coração queria sair pela a boca, "Jesus!", terminou, em vão.
"De nada adianta rezar sem enxergar, Rafael", disse a voz à sua frente. A presença do homem ocupou a casa por completo; ouviu o ar arrepiante exalado pelas narinas do estranho por todos os lados. Não conseguiu segurar mais. Rafael desabou em prantos ao continuar a oração.
"Santa Maria, Mãe de Deus...", soluçou e bebeu das próprias lágrimas, "rogai por nós...", os soluços dominaram-lhe a garganta por completo, "pecadores, agora e na hora da nossa morte...", com as mãos fechadas com força, as unhas perfuraram-lhe a própria pele. Seu punho direito estava prestes a explodir; sua boca era um cálice de lágrimas. Após três longos e pesados soluços, terminou, com dificuldade: "... Amém!"
Com as pálpebras ainda comprimidas, sentiu os ombros leves e a casa vazia. Apesar dos cortes feitos pelas próprias unhas, sua mão parou de doer. Acalmou-se. Decidiu abrir os olhos, e a luz da cozinha adentrou-lhe as córneas. Mas lá continuava ele, imóvel, austero, taciturno.
"Mais calmo?", perguntou o juiz.
"Q-que diabos é você?!", perguntou Rafael, com a voz ainda trêmula, limpando as mãos sujas de sangue em seu roupão.
"Já lhe disse. Meu nome é Samuel", bebericou um pouco mais de seu chá, "Sou juiz. Não quero vê-lo machucado, mas estou aqui para fazer meu trabalho."
"Seu trabalho? Isto é um pesadelo. Acorde!", gritou Rafael, "Acorde!"
"Não é um pesadelo, Rafael. Enxergue logo a realidade e poderemos acabar com isto. E por favor, tente manter a calma."
"Vai... vai me julgar pelo quê? Não fiz nada de errado! Não machuquei ninguém!", gritou esperando ser ouvido pela companheira lá em cima, em seu quarto.
"Será?", rebateu o juiz.
"Sou... sou uma pessoa normal! N-não fiz nada de mais", suplicou. Não queria ficar sozinho ali...
"Veremos..."
Ass: Wally
Eventualmente, a mão parou. Com um longo suspiro, o indivíduo largou a caneta, que despencou sobre o caderno, agora cheio de anotações. Calmamente, o homem retirou os óculos, limpou as lentes do dispositivo com uma flanela negra e o repousou sobre a mesa ao lado, junto da caneta e do caderno. Agora, o escritor esperava e observava as ruas afora, através da janela da sala, sentado confortavelmente em sua poltrona. Vestia um pijama branco, um luxuoso roupão negro e aconchegantes sapatos de dormir. Observou a sala ao redor, e fitou os olhos na grande estante que ficava ao lado do banheiro de visitas. Esta, feita de madeira envernizada, brilhava majestosamente, e erguia-se até o teto. Era decorada por livros, troféus e garrafas vazias. Ao lado da estante, a poucos passos de distância, uma mesa auxiliar repousava, enrugada e marcada por riscos de desgaste e manchas causadas pelo sol. Mas lá ficava ela, encolhida, perto da magnífica estante de livros. A pequena mesa parecia esforçar-se para sustentar o retrato e o livro grosso empoeirados que nela jaziam. As paredes da sala eram tão brancas quanto as nuvens da manhã mais bela, com exceção de uma mancha desvanecida em forma de cruz, vestígio do objeto que já não estava mais lá. O ar pesou-se nos pulmões do escritor, e um tênue formigamento mordiscou-lhe a mão direita ao olhar para a mancha que pairava sobre a mesa. Porém, esses incômodos desvaneceram quando o rosto sorridente de sua mãe surgiu-lhe na mente. O ar que respirava percorreu-lhe pelos pulmões suavemente e o formigamento cessou.
"Não falo com ela há tanto tempo...", pensou.
Ela o convidou para visitá-la em casa várias vezes nos últimos meses, mas ele recusou:
"Perdoe-me, mãe. Estou bastante ocupado, sabe...? Meu livro...", essa era sempre sua resposta.
Não obstante, Maria, sua mãe, insistia em vê-lo através de chamadas de vídeo pelo celular.
"Por que não manda mensagem, mãe? É mais fácil", dissera sorrindo uma vez.
"Pra mim, é mais fácil fazer chamada de vídeo", ela respondera, "é só apertar um botão. Além disso, posso vê-lo", concluira sorrindo.
Recordou-se da última vez que a visitou. Ela serviu-lhe chá, como de costume, e falou; o escritor ouviu, mas não escutou. Não escutava o que ela dizia há algum tempo. Desde quando...
Maria adorava falar sobre as experiências engraçadas que tinha no instituto onde trabalhava. Nunca se esqueceu de quando ela o contou sobre Marcos, um dos pacientes de lá:
"Ele sempre pede que eu massageie os ombros dele", Maria dissera aos risos, "me falou que tenho mãos macias."
Ainda riam juntos nessa época...
Quando Maria se aposentou, começou a fazer trabalho voluntário em um instituto de deficientes mentais; dizia que isso mantia-lhe a mente ocupada e afastava o enfado e outros sentimentos ruins de si. Lia no rosto de sua mãe que ela gostava do trabalho, pois passava horas e horas falando sobre o mesmo quando se viam, além de beberem chá e rezar. Outrora, o escritor regalava-se com tudo isso...
"Como está sua pequenina?", perguntou-lhe a mãe da última vez que a visitou.
"Está bem..."
"Não a vejo há muito. Sinto saudades daquela mocinha linda. Quando poderemos visitá-la novamente?"
"Não sei", respondeu indiferente.
"Está tudo bem? Você anda tão... disperso."
"Sim, mãe...", as palavras flutuavam-lhe, apaticamente, para fora da boca.
"Você sabe que pode me falar qualquer coisa. Quero o seu bem..."
"Sim, mãe. Eu sei."
"Anda bebendo?", ela perguntou e segurou-lhe a mão direita, que repousava, adormecida, em cima da mesa, sem tocar a xícara de chá.
"Não", ele retirou sua a mão dali, abandonando a de Maria, que tremia, solitária, em cima da mesa.
"Tem rezado? Tem lido a Bíblia?"
"Sim", mentiu.
"Vamos à igreja juntos neste final de semana? Creio que irá ajudá-lo.. faz tanto tempo que não vamos juntos... desde...", não concluiu. Bebericou seu chá e fitou o chão.
"Bem... eu ando bastante ocupado, sabe? Escrevendo... tenho que terminar meu livro. Depois... depois nós vamos."
"Ah, sim... entendo. Tudo bem", ela sorriu, mas seus olhos ficaram vermelhos.
Sentia o coração pesado por ter recusado o convite de sua mãe. Era bastante religiosa. Ela presenteou-lhe com a Bíblia sagrada e uma cruz quando ele se casou. Também levava-o à igreja ao menos uma vez na semana quando era criança, além de rezar ao seu lado todas as noites antes de colocá-lo para dormir. Quando o escritor não conseguia adormecer por medo do escuro, ela recitava-lhe os versículos de Salmos, capítulo 121:
"'Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro.
O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.
Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará.
Eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel.
O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita.
O sol não te molestará de dia nem a lua de noite.
O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.' Boa noite, querido. Mamãe te ama."
Recordou-se do confortável e quente abraço que o sono lhe concedia ao ouvir a gentil voz de sua mãe murmurar tais versículos. Agora, esses abraços eram escassos; o sono parecia fugir-lhe com demasia, e sua cama passara a ser um lugar de recordações amargas e de visitantes efêmeras. Sentia-se mal por não visitar a senhora sua mãe com mais frequência, mas sua mão tinha o objetivo de escrever, e nada poderia impedi-la. Nada. Encarou no mar de escuridão afora, e então olhou o relógio de ouro que adornava-lhe o pulso destro. Ainda era cedo.
"Mais alguns minutos até o chá ficar pronto", pensou.
Seus olhos encontraram-se com a velha mesa sobre a qual o livro e o retrato jaziam. Hesitou por um instante, mas acabou levantando da poltrona e se dirigiu ao móvel. Viu a mancha na parede deixada pela cruz ausente que pairava sobre a mesa à sua frente ficar maior ao aproximar-se. Apesar de estar a poucos passos de distância, a caminhada até lá pareceu demorar horas. A frágil mesa encolheu-se diante dele como um idoso debilitado. Poeira envolvia por completo o grosso livro, com uma cruz na capa. Estendeu a mão direita como se fosse tocá-lo, mas um formigamento mordiscou-lhe o punho. Recuou. Cravou os olhos no retrato ao lado, também empoeirado e castigado. Ao encará-lo, a orquestra da tempestade lá fora desvaneceu lentamente. Três sorrisos ornamentavam a foto: o de uma mulher, o de um homem e o de uma garotinha, em meio aos dois adultos. Fitou friamente a mulher e a si mesmo por um segundo. Os lábios destes esboçavam algo semelhante a sorrisos, e suas faces eram de um branco fantasmagórico. Esfriou-se-lhe o sangue e tremeu-se-lhe a mandíbula ao ver o rosto da mulher, e imediatamente, o escritor postou os olhos na garotinha. Na foto, abraçava-os, e seu cabelo reluzia uma cor dourada bastante viva. O rosto dela emitia uma luz quente, e ela tinha o sorriso mais sincero dos três. Congelou-se a barriga e pesou-se o coração do escritor. Imediatamente, retirou o olhar do retrato e fugiu dali para a magnífica estante de livros e troféus ao lado. Admirou-a e todos os objetos que repousavam nela. Sua bela madeira marrom envernizada brilhava e aquecia a sala. Passeou com os olhos pelos retratos, livros e garrafas vazias. Porém, fixou o olhar em um grande troféu dourado em forma de mão. Destra e reluzente, se destacava na estante, e dentre os dedos, repousava um lápis. Segurou o troféu por um momento. Desvaneceu-se-lhe o frio na barriga, assim como o peso dentro do peito. Um sutil sorriso escreveu-se-lhe nos lábios. Após devolver a mão dourada ao seu devido lugar, conseguiu ouvir novamente o barulho da chuva e dos trovões. Por um momento, esquecera do temporal lá fora. Virou-se em direção à cozinha. Já era hora. O chá já devia estar quase pronto.
Quando estava prestes a dar o primeiro passo, três fortes batidas fizeram a porta de entrada de sua casa tremer. Ele parou. A chuva castigava o local com mais força ainda; os raios iluminavam sinistramente os cômodos sombrios da residência, seguidos pelos rugidos reverberantes dos trovões. Virou-se. Encarou a porta.
"Quem pode ser numa hora dessas?", disse consigo mesmo. Esperou mais um pouco. Poderia estar ouvindo coisas.
"TUM, TUM, TUM!", as três batidas atingiram a porta com mais força ainda.
"Quem é?!", indagou. Tentou soar firme, mas sua voz tremeu um pouco.
Ninguém respondeu...
Arrepios escalaram-lhe a espinha dorsal. Franziu o cenho e respirou profundo. Seu celular estava no bolso, caso precisasse. Dirigiu-se à porta com passos leves e lentos. As luzes da sala ameaçaram apagar-se por um breve momento, mas ficou grato por isso não ter ocorrido. Espiou pelo olho mágico da porta...
O ar escapou-lhe dos pulmões por alguns segundos.
Do outro lado, uma figura envolta em vestes negras se erguia, alta e esguia, debaixo de um guarda-chuva, também negro. O escritor afastou-se da porta e retirou o celular do bolso. Cogitou chamar a polícia.
"Por que não respondeu nada quando perguntei quem era?", pensou. Também ponderou subir as escadas e chamá-la, avisá-la, ou ao menos perguntar o que pensava sobre tudo aquilo. Mas era de madrugada e não queria acordá-la. Também não queria soar como um covarde.
"Não pode ser coisa boa numa hora dessas...", concluiu. Desbloqueou a tela de seu celular, mas quando estava prestes a digitar, mais três batidas agrediram a porta atrás dele:
"TUM, TUM, TUM!"
Deixou o celular cair no chão.
"Quem é'?!", o escritor perguntou mais alto.
"Olá!...", respondeu a voz lá fora, "...lamento perturbá-lo assim tão tarde! Meu carro estragou no meio da estrada! Só preciso utilizar seu telefone para chamar o reboque."
...
"Não irei demorar um segundo, prometo!", continuou, "peço perdão por te incomodar, mas poderia me ajudar com esse problema?"
"Não tem celular?", redarguiu o escritor.
"Qual é o seu nome?"
"Meu nome?! Nem te conheço..."
"Sim, é claro. Perdão. Estava tentando ser cortês. Meu nome é Samuel. Estava voltando de uma viagem a serviço quando meu carro pifou. Ao sair do carro para checar o motor, meu celular caiu no chão alagado. Não funciona mais... caminhei um pouco em busca de um telefone público, mas não achei nenhum. Então vi a luz da sua sala acesa... poderia me ajudar, por favor, senhor...?"
"Por que não esperou o dia amanhecer para viajar?", interrogou. Não obteve resposta. Continuou:
"Por favor, retire-se. Ou... ou chamarei a polícia", avisou.
"Não estou mentindo... tive que viajar nesta hora por motivos pessoais. Houve uma emergência... alguém próximo a mim precisa muito de minha ajuda. Mas... tudo bem. Não precisa abrir a porta, nem chamar a polícia. Não quero confusão. Vou me retirar."
Estava dividido. Não sabia se ele falava a verdade, mas o temporal iria castigá-lo. E se esse alguém próximo a ele realmente precisasse de ajuda? Finalmente, tomou uma decisão:
"Espere!", o escritor gritou para que o homem pudesse ouvi-lo, "Rafael... meu nome é Rafael."
"Rafael", ele respondeu, "permita-me fazer somente uma ligação. Será rápido, prometo."
Hesitou mais uma vez, mas acabou abrindo a porta. O vento arrepiante adentrou a sala e se espalhou pelos cômodos da casa. As frias e finas gotas de chuva umedeceram-lhe o rosto. O corpo de Rafael estremeceu, apesar do roupão que o cobria. Lá fora, a chuva estava bem mais forte do que pensava. Sentiu-se mal por ter feito o homem esperar por tanto tempo.
"Perdão. Não podemos confiar em qualquer um nos dias de hoje, sabe?", Rafael explicou-se.
"Tudo bem... não o culpo."
O homem fechou o guarda-chuva, revelando-lhe o rosto pálido, fino e pontiagudo. Tinha os olhos tão escuros quanto a própria noite, toldados por profundas olheiras. O estranho chacoalhou o guarda-chuva antes de entrar e enxugou a sola dos sapatos, também negros, no tapete de boas vindas da porta. Trajava um terno, gravata e calças sociais. Rafael fechou a porta imediatamente após ele entrar.
"Que chuva! E que azar o meu... moro tão perto. Estou a poucos quilômetros de distância de casa."
Só agora o escritor reparou na voz do estranho, não destorcida pelo barulho da tempestade lá fora. Era baixa e profunda, e soava como algo que nunca ouvira dantes.
"Sim, sim... sente-se!", apontou para o sofá da sala. "Aqui, pode usar meu celular."
Entregou-lhe o aparelho enquanto o homem se aconchegava no sofá. Ao sentar-se, os olhos do homem chamado Samuel estudaram a sala. Fixou o olhar rapidamente na estante e na velha mesa.
"Muito obrigado", disse Samuel.
"Vou pegar uma toalha para se enxugar um pouco...", disse Rafael.
Dirigiu-se ao banheiro da sala, pegou a toalha de rosto e a entregou ao indivíduo. Enquanto o homem tentava ligar para o reboque, enxugou-se e devolveu a toalha com um tênue sorriso familiar no rosto. As pálpebras do homem pendiam, como se pudessem fechar-se a qualquer instante, e os círculos escuros que contornavam-lhe os olhos davão uma sensação de desconforto a Rafael. Samuel tentou ligar várias vezes, em vão. Então, desistiu e colocou o celular em cima do sofá.
"Bem...nenhum telefone atende."
"Provavelmente por causa da chuva", redarguiu o escritor, "ou por causa do horário."
"Olhe, me desculpe. Se quiser, posso me retirar e esperar a chuva passar em meu carro. Já te incomodei demais."
Rafael quase concordou. Por um segundo, quis falar àquele estranho para ir embora; sair e nunca mais voltar. Porém, sentiu pena do homem... a natureza estava furiosa naquele dia.
"Fique tranquilo", acabou dizendo, "a tempestade irá passar em breve. Pode ficar até então."
"Obrigado, mas provavelmente quer descansar. Creio que não é capaz de fazê-lo com um estranho debaixo de seu teto."
"Já descansei o suficiente. Não se preocupe. Estava até fazendo chá... Aceita?"
Samuel esboçou aquele mmesmo sorriso novamente.
"Sim", ele respondeu, "muito obrigado."
"A cozinha... é por aqui..."
Ao virar as costas, o homem chamado Samuel aparentou crescer. Não parecia mais ser o indivíduo para quem abrira a porta da casa; era como se ele ocupasse todo o cômodo atrás de si. Um enorme peso caiu sobre as costas do escritor, pressionando-lhe os ombros para baixo. Parou. Olhou para trás. Lá estava o homem: alto, mas não do mesmo tanto que sentiu quando deu-lhe as costas, esguio e com olheiras pesadas. Os lábios do estranho encresparam-se, formando-lhe um sorriso no rosto pálido. Sorriso bastante familiar... Rafael também encrespou os lábios, e lhe deu as costas mais uma vez. Sentiu aquela mesma sensação novamente, como se o homem atrás de si se apoderasse de toda a sala. Só que desta vez, não olhou para trás; seguiu direto para a cozinha. Lá, Rafael puxou uma das cadeiras da mesa de jantar e fez um gesto para que o homem se sentasse. Ele o fez, e com um aceno, agradeceu.
"Bela casa", Samuel disse.
"Obrigado", respondeu o escritor, "a pessoa que precisa de sua ajuda... é urgente?"
"Ah, sim... ela ficará bem", sorriu.
"...ah", respondeu Rafael, "tem certeza? Parecia ser bastante urgente..."
"Sim... tudo vai ficar bem agora", sorriu novamente; mas este sorriso perpetuou. Os olhares dos dois se cruzaram. Viu olhos negros. O formigamento na mão direita de Rafael voltou a incomodá-lo. Ele abriu e fechou os dedos lentamente com a intenção abrandar a tênue dor. Desviou a atenção para a chaleira e a tocou cautelosamente. Estava fria. Mais fria do que antes de colocá-la no fogão.
"Estranho", disse consigo mesmo, "já deveria estar começando a apitar".
Percebeu que o fogão estava desligado. Tentou acender a chama novamente, mas ela se apagou rapidamente, como se tivesse sido sugada por algo. Teve aquela sensação atrás de si de novo enquanto tentava reacender a boca do fogão. O formigamento voltou a mordiscar-lhe o punho destro. O frio invadiu subitamente a cozinha e abraçou Rafael por trás. A respiração pesou-se-lhe nos pulmões. Rafael arquejou.
"Tudo bem?", perguntou Samuel.
"Sim... sim. Ficando doente... esse tempo, sabe?"
"Então esse chá vai lhe fazer bem", respondeu com outro sorriso.
"Sim... vai sim..."
Finalmente, conseguiu acender a chama da boca do fogão. Um breve silêncio caiu sobre a cozinha.
"Rafael, sente-se. Sinta-se em casa", disse sorrindo.
"Ah, sim... claro", riu desengonçadamente em resposta.
Sentou-se em frente ao homem. Remexia-se na cadeira, incapaz de se acomodar.
"Então...", disse Rafael, "Samuel... o que faz da vida, se me permite perguntar?"
"Sou juiz", respondeu.
"... juiz? Legal", forçou um sorriso.
Silêncio. Rafael pigarreou.
"Deve ser bastante ocupado", ele continuou.
"Muito. Não é fácil."
"Imagino. Culpar, inocentar... muita responsabilidade, não é?"
"Ah, mas eu sempre sei quem é culpado ou inocente", disse encarando o escritor nos olhos, "a questão é... e o réu? Também sabe?"
"...entendi", respondeu intrigado.
"O mais difícil de um julgamento é o despertar", continuou Samuel, "o abrir dos olhos; é difícil e doloroso. Meu maior desafio é esse; ajudar o réu que não vê a começar a ver. E mais importante ainda, entender o porquê da pena aplicada. É como um bebê que chora ao abrir os olhos para enxergar a realidade ao seu redor pela primeira vez. Dói, mas é um preço justo que deve ser pago para não se viver na cegueira para sempre."
O que ele disse deixou Rafael perplexo. O sorriso de Samuel perpetuava. Um sorriso tênue, frio... e forçado.
"...sim, claro", o escritor devolveu com uma risada baixa e sem graça, "...em qual área atua? É juiz criminal? Cível?"
"Atuo em todas essas áreas", respondeu secamente.
"Entendi...", respondeu Rafael, mais confuso ainda.
"Você é escritor", disse Samuel. Pausou. Mas não desviou os olhos, "belo troféu na sala", continuou, "belo prêmio. É membro de alguma academia de letras?"
"Não", respondeu Rafael com um sutil riso. "...ainda não. Quem sabe no futuro, se Deus quiser."
"Sim... se Deus quiser", disse Samuel. Seus olhos ainda o penetravam, fixos. Não se moviam. Sequer piscavam.
"Escreve sobre o quê? Se me permite fazer tal pergunta, é claro."
A cortesia dele o acalmava um pouco. Mas havia algo sobre o homem que deixava Rafael inquieto. Esperava que a chuva passasse logo para que o homem fosse embora.
"Escrevo livros de autoajuda."
"Interessante", disse Samuel, "parece ter mais responsabilidade em suas mãos do que eu."
"Sim, mas eu...", refletiu o escritor, "eu gosto disso... ter a oportunidade de ajudar pessoas que sequer conhecerei. É muito bom. Amo o que faço."
"Bem, pelo que vi em sua sala, realmente ama o que faz... mais do que tudo", sorriu e encarou o escritor.
A chaleira começou a emitir um apito tênue.
"Tem bastante orgulho do que faz, não é?", ele continuou. Cerrou os olhos, fixos em Rafael. E o sorriso continuava lá.
"Bem... sim."
O escritor desviou os olhos dos de Samuel. Pigarreou. Continuou:
"Uma vez conheci uma fã que tinha depressão...", suas mãos tremiam sutilmente; a chaleira começou a emitir um apito mais forte.
"... ela me disse que meus livros ajudaram-na a superar a doença. Fiquei muito feliz."
"Sim...", concordou Samuel com os olhos ainda cerrados, "como você é bom..."
Rafael sorriu, ansioso, em resposta, "cada um ajuda como pode."
Samuel acenou lentamente a cabeça em resposta, ainda encarando-o. O escritor postou o olhar no chão e pigarreou novamente. A chaleira apitava alto.
"Sim...", Samuel finamelte redarguiu, com os olhos semicerrados, "responda-me algo, Rafael..."
Após alguns segundos de silêncio, concluiu:
"...por que não conseguiu ajudar a própria esposa?"
A pergunta o pegou de surpresa. Rafael ficou perplexo. O apito da chaleira, alto e estridente, agora enchia a cozinha.
"Perdão?! O que?!"
E a chaleira apitava alto...
Rafael se perdeu nas palavras, pesadas demais para serem ditas. O passado lúgubre cortou-lhe a mente, e ficou preso em uma espécie de transe. As feições dela reapareceram em sua imaginação. Loira, pele clara... e triste.
E a chaleira apitava alto...
Recordações apoderaram-se-lhe dos pensamentos: um olhar, uma conversa, um abraço, um beijo; ele de joelhos, ela sorrindo, hospital, um bebê, uma criança, uma família, uma bíblia, um retrato, uma cruz na parede; escrever, garrafas vazias, brigas, escrever, psicólogos, escrever, mais brigas; sorrisos ausentes, escrever, garrafas vazias, criança ausente, remédios, overdose, hospital; papéis, advogados, escrever, mais garrafas vazias, faca, sangue, hospital, funeral, bíblia empoeirada, retrato empoeirado, cruz quebrada.
E a chaleira apitava alto...
Acelerou-se-lhe o coração dentro do peito; batia tão rápido que aparentava querer sair dali. O formigamento voltou a mordiscar-lhe a mão direita; lágrimas subiram-lhe aos olhos, mas nenhuma delas escorreu-lhe o rosto.
E a chaleira apitava alto...
De súbito, voltou-lhe a consciência para o mundo real. Ele se recompôs. Conseguia pensar com mais clareza agora. Parecia ter perdido-se nas próprias memórias por uma eternidade.
"C-como...", parou um pouco, "como você... sabe?", conseguiu vomitar algumas das inúmeras indagações desordenadas que tinha, "q-quem é você?"
Encarou o indivíduo em sua frente. Agora, o sorriso do estranho desvanecera. Enxergava um homem austero, com um olhar que lhe rasgava a alma. Seus olhos pareciam mais negros do que antes; duas órbitas escuras que buscavam sugar algo de Rafael.
"O chá primeiro", disse Samuel, "retire a chaleira do fogão. Pegue duas xícaras e sirva-nos. Depois, sente-se para continuarmos nossa conversa."
Rafael continuou fitando a figura em sua frente. Não conseguia se mexer. Estava petrificado.
"Você... é algum policial? Algum agente?", perguntou, mas sabia que a resposta seria...
"Não."
A não ser pelo som da chaleira, o silêncio dominou a cozinha, e só agora Rafael percebeu que o temporal cessara. Porém, o frio continuava. Congelaram-se-lhe as entranhas, e retesaram-se-lhe os pelos dos braços.
"Sou juiz. Não menti para você. Agora, levante-se e pegue a chaleira, por favor."
"O-olha", continuou Rafael, ofegante, "n-não sei o que você quer... mas eu abri a porta de minha casa para você. Te ajudei. A chuva... parou. Já pode continuar. Já pode... ir. P-por favor, não sei o que você quer... m-mas... p-por favor..."
O homem parecia pedra. Nada que Rafael disse o fez mudar de feição. Continuou encarando-o friamente.
"A chaleira, Rafael", disse.
Suava. Tremiam-se-lhe os braços sob a mesa. Com muita força, conseguiu mover as pernas, pesadas como pedras. Lembrou-se que o celular estava na sala, em cima do sofá.
"Posso... ir ao banheiro?"
"Agora não, Rafael. Agora irá pegar o chá."
Respirou profundo. Nunca imaginou-se numa situação dessas. Seus pensamentos decolaram enquanto levantava-se para buscar o chá. Desde quando o observara? O que queria? Como sabia que era viúvo? Teria ele uma arma? Ao dirigir-se para a chaleira, sentiu-se espiado, apesar do indivíduo sequer mexer a cabeça. Novamente, uma força invisível caiu sobre Rafael, pressionando-o, como se quisesse fazê-lo implodir. Sua mão direita voltou a doer...
A chaleira cessou seu apito ao ser retirada do fogão, e o silêncio desabou sobre toda a casa. Lembrou-se da companheira no andar de cima. O que faria agora? Ao colocar o recipiente na mesa, ouviu o chá dançar lá dentro. O rangir agudo emitido pela alça, ao soltá-la, cortou-lhe os ouvidos, assim como o tinir do impacto da mesma com o alumínio da chaleira. Posicionou a xícara e o pires em frente a Samuel. O barulho seco dos objetos de porcelana se encontrando ressoou por toda a casa. Perguntou a si mesmo se ela teria acordado. Os olhos de Samuel finalmente se moveram; voltaram a rasgá-lo, e as mãos de Rafael voltaram a tremer. A mão direita doía-lhe e pulsava tão forte quanto o coração. Rafael soltou um gemido baixo de dor.
"Espero que passe em breve", disse o juiz, "mas isso depende de você, é claro. Agora, sente-se."
Obedeceu. Sentou-se na mesma cadeira de antes, do lado oposto de Samuel, e em frente ao mesmo. O estranho bebericou o chá. Depois, serviu Rafael calmamente.
"Beba. Vai sentir-se mais calmo."
Respirou lentamente. Acalmou-se. Então, encontrou a coragem que lhe escapara:
"Fale logo o que quer. Se quisesse machucar alguém, já o teria feito. Não está aqui para fazer isso. O que quer? Dinheiro? Leve tudo. Só o faça logo. Não resistirei nem chamarei a polícia. Por favor, só o faça logo. Depois, vá embora. Deixe-nos em paz."
"Burro!", pensou Rafael, "Seu burro! 'Deixe-me!' Deveria ter falado 'deixe-me!'"
"Não estou aqui por dinheiro, Rafael. E não se preocupe com a moça lá em cima. Ela não tem nada a ver com o que se passa aqui."
"O que quer então?! Por favor, não me machuque", sua voz tremia.
"Eu não quero vê-lo machucado. Mas também não posso prometê-lo que irá sair inteiro desta conversa."
"Meu Deus!", exclamou, amedrontado, "Por favor, e-eu tenho família", implorou.
"Sim. Eu sei. Sei muito bem que tem família."
"Não machuque-os, por favor..."
Sentiu um rio de lágrimas querer subir-lhe à cabeça e jorrar-lhe pelos olhos, mas conseguiu conter-se.
"Não irei machucá-los; irei ajudá-los. Irei livrá-los. Livrá-los da dor. Livrá-los de tudo."
As luzes de toda a casa se apagaram, e Rafael foi engolido por um mar de trevas.
"Meu Deus do céu!", gritou Rafael, "Deixe-os fora disso, por favor!", berrou desesperado.
"Ave Maria, cheia de graça...", começou a rezar e o rio de lágrimas bateu-lhe contra as pálpebras dos olhos, agora fechados, "O Senhor é convosco...", as palavras prenderam-se-lhe na garganta, "bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre...", seu coração queria sair pela a boca, "Jesus!", terminou, em vão.
"De nada adianta rezar sem enxergar, Rafael", disse a voz à sua frente. A presença do homem ocupou a casa por completo; ouviu o ar arrepiante exalado pelas narinas do estranho por todos os lados. Não conseguiu segurar mais. Rafael desabou em prantos ao continuar a oração.
"Santa Maria, Mãe de Deus...", soluçou e bebeu das próprias lágrimas, "rogai por nós...", os soluços dominaram-lhe a garganta por completo, "pecadores, agora e na hora da nossa morte...", com as mãos fechadas com força, as unhas perfuraram-lhe a própria pele. Seu punho direito estava prestes a explodir; sua boca era um cálice de lágrimas. Após três longos e pesados soluços, terminou, com dificuldade: "... Amém!"
Com as pálpebras ainda comprimidas, sentiu os ombros leves e a casa vazia. Apesar dos cortes feitos pelas próprias unhas, sua mão parou de doer. Acalmou-se. Decidiu abrir os olhos, e a luz da cozinha adentrou-lhe as córneas. Mas lá continuava ele, imóvel, austero, taciturno.
"Mais calmo?", perguntou o juiz.
"Q-que diabos é você?!", perguntou Rafael, com a voz ainda trêmula, limpando as mãos sujas de sangue em seu roupão.
"Já lhe disse. Meu nome é Samuel", bebericou um pouco mais de seu chá, "Sou juiz. Não quero vê-lo machucado, mas estou aqui para fazer meu trabalho."
"Seu trabalho? Isto é um pesadelo. Acorde!", gritou Rafael, "Acorde!"
"Não é um pesadelo, Rafael. Enxergue logo a realidade e poderemos acabar com isto. E por favor, tente manter a calma."
"Vai... vai me julgar pelo quê? Não fiz nada de errado! Não machuquei ninguém!", gritou esperando ser ouvido pela companheira lá em cima, em seu quarto.
"Será?", rebateu o juiz.
"Sou... sou uma pessoa normal! N-não fiz nada de mais", suplicou. Não queria ficar sozinho ali...
"Veremos..."
Ass: Wally
quarta-feira, 8 de maio de 2019
A Morte de Julyanna
Parte Um - Uma linda moça
Dizem que o bem e o mal são como alguém e sua própria sombra, algo que não se pode evitar. Dentre as milhares de possibilidades que existem, os diversos caminhos em que minha vida tomou é claro que existem aquelas realidades onde eu não conheci Julyanna, pra falar a verdade gostaria de estar em uma delas.
Por outro lado, Julyanna é minha sombra, só consigo ser bom sabendo da existência do mal e se não houvesse o mal, talvez eu o fosse.
Julyanna nasceu bonita, mas se tornou feia, a escuridão foi tomando pouco a pouco o seu interior até chegar ao ponto em que não da pra ver algo bom nela, apenas breu.
Houve um tempo, entretanto, em que Julyanna era uma adolescente de apenas treze anos de idade que gostava de dançar, uma linda moça com um futuro grandioso pela frente, que tirava boas notas e obedecia sua mãe.
Julyanna veio de uma família pobre na qual até então ninguém havia feito faculdade, mas todos acreditavam que ela seria a primeira.
Julyanna tinha um sorriso encantador, pele branca, cabelos morenos, altura mediana, olhos castanhos, barriga chapada. Praticava dança de salão, competia por sua escola, era convidada pra danças nas festas de São João. Nessa época Julyanna ainda não namorava, apesar de não faltar pretendentes, se dedicava muito mais a escola, com notas excelentes, e a dança, como esporte.
Diante de todas as possibilidades, Julyanna optou pela escuridão.
Parte dois - Um pouco de virtude
A escrivã me perguntou por que diabos aceitei representar Julyanna como advogado naquela audiência?
É claro que não foi por dinheiro porque bem eu sabia que não existiria razão nesse mundo pra pensar que ela pagaria meus honorários em sua totalidade, fiquei até surpreso de ter recebido um quinto do pactuado.
Também não foi por convicção pessoal ou por sentimento de solidariedade porque eu sei que ela é culpada e não pode existir razão nesse mundo que me faça solidarizar com alguém tão ruim, não existem motivos pra sentir empatia por Julyanna.
No dia em que Julyanna fugiu de Goiânia pra sabe-se lá onde todos sabiam que ela iria se prostituir, me fiz de desentendido e a levei na rodoviária, senti-me aliviado por ter despachado esse entulho de nossas vidas e desejei que ela nunca mais voltasse.
As pessoas me perguntam se eu tenho remorso ou vergonha de alguém com o qual me relacionei ter se tornado isso e de verdade, disso eu não tenho.
De toda escuridão que se tornou Julyanna, isso é a única coisa que me faz ver um pouco de virtude nela, porque de todos os crimes que ela cometeu, de todas as pessoas que ela passou pra trás, de todos os sonhos que ela destruiu, de todas as famílias que ela fez desmoronar, de todos os golpes que ela aplicou, de todas as pessoas que decepcionou e deixou pra trás, inclusive nosso filho, de todas as decepções e vexame que ela causou pra sua própria mãe, vó e na verdade de todos que passaram em seu caminho, porque creio não ter havido ninguém nessa vida que ela não tenha magoado.
De tudo isso, de tudo que ela fez, creio que a única em que dava pra ver alguma virtude seria em se prostituir porque apesar da imoralidade é o único ato que Julyanna realizou em toda sua vida adulta que não tenha sido de alguma forma ilegal e que não prejudica ninguém a não ser ela mesma.
Parte Três - A morte de Julyanna
Esses dias Julyanna me mandou um monte de mensagens pedindo desesperadamente pra que eu explicasse pra num sei quem (na verdade um monte de pessoas) o que aconteceu quatro anos atrás.
Não tive paciência de ouvir todos os áudios que ela me mandou, mas ela escreveu que "estava um veneno".
Creio ter chegado no limite da minha paciência.
No futuro, meu filho vai decidir o que pensar a respeito de Julyanna, é uma decisão que só cabe a ele e não cabe a mim influenciar.
Fico triste porque esse domingo é dias das mães, ele chegou em casa contando que está tendo balinhas e chocolates na escola dele essa semana toda porque "é dia das mães pai, eu tenho mamãe, eu tenho a Bee, eu tenho a vovó, tem a titia, é dia da mães pai, é dia da Bee, é dia da vovó, é dia da titia, é dia do papai..."
Essa decisão cabe a ele, eu não permito que jamais alguém ofenda a Julyanna aqui em casa, não permito mesmo e já levei até soco na cara por causa disso, mas eu creio que isso é o maior exemplo que posso dar pra meu filho acerca de como se deve tratar uma mulher, que é com respeito, apesar e em qualquer espécie de circunstância.
Mas Julyanna passou dos limites, dessa vez ela extrapolou todas as regras possíveis e tive que registrar um boletim de ocorrências contra ela. Então a escrivã me perguntou por que diabos eu aceitei fazer aquela audiência como advogado de Julyanna? E não teve como responder isso em voz alta, mas era porque eu vi um pouco de dignidade na atitude de se prostituir, passou pela minha cabeça a hipótese de que, talvez, Julyanna, tivesse decidido nunca mais prejudicar alguém que não fosse ela própria nessa vida. Infelizmente eu estava errado.
Então me perguntaram se eu esperava ver ela punida, presa, condenada, se eu esperava alguma justiça pra Julyanna nessa vida.
E na verdade pra mim tanto faz, ela está morta mesmo. Ela morreu e agora vaga pelo mundo do inferno como naquele desenho do Caverna do Dragão.
Julyanna não tem pra onde ir, não tem uma pessoa se quer nesse mundo que sinta orgulho ou saudade ou se quer compaixão por ela, não há ninguém no mundo que goste dela.
Os familiares de Julyanna sentem vergonha da pessoa que ela se tornou, ela não é bem vinda em sua própria casa.
Julyanna não vê seus filhos há mais de dois anos, eles são pequenos e vão crescer sem ela em suas vidas, o coraçãozinho deles (do meu com certeza) já está preenchido com o amor e companhia das pessoas que fazem realmente parte de suas vidinhas.
Julyanna utiliza nomes falsos em redes sociais porque existem dezenas de pessoas a procurando, existem pessoas que querem vê-la no mínimo morta ou presa.
Julyanna não pode ter plano de telefone controle ou pré pago, Julyanna muda de número a cada duas semanas pra não ser achada, Julyanna vive nas sombras, ninguém sabe onde ela realmente está.
Julyanna não pode ter conta bancária porque todo dinheiro seria comido pela Justiça, Julyanna não pode ter bens em seu nome, não pode ter residência fixa, não pode se quer trabalhar de carteira assinada, Julyanna deve ter votado pela última vez na eleições entre o Lula e Alckmin, ela não tem direitos políticos vigentes, Julyanna se quer pode viajar de avião.
Julyanna mora em uma casa de prostituição e vez por outra é assaltada ou extorquida por agiotas, cafetões e gente da pior espécie. E o pior de tudo é que essas são as únicas pessoas que ela ainda pode contar porque não existe mais ninguém nesse planeta que daria um voto de confiança pra Julyanna.
Julyanna está morta. Talvez ela exista, mas não de verdade. Ou talvez esteja morta mesmo quem vai saber? Se por acaso aconteceu isso alguém reparou? Se acontecer alguém sentiria falta?
por Chaves
Dizem que o bem e o mal são como alguém e sua própria sombra, algo que não se pode evitar. Dentre as milhares de possibilidades que existem, os diversos caminhos em que minha vida tomou é claro que existem aquelas realidades onde eu não conheci Julyanna, pra falar a verdade gostaria de estar em uma delas.
Por outro lado, Julyanna é minha sombra, só consigo ser bom sabendo da existência do mal e se não houvesse o mal, talvez eu o fosse.
Julyanna nasceu bonita, mas se tornou feia, a escuridão foi tomando pouco a pouco o seu interior até chegar ao ponto em que não da pra ver algo bom nela, apenas breu.
Houve um tempo, entretanto, em que Julyanna era uma adolescente de apenas treze anos de idade que gostava de dançar, uma linda moça com um futuro grandioso pela frente, que tirava boas notas e obedecia sua mãe.
Julyanna veio de uma família pobre na qual até então ninguém havia feito faculdade, mas todos acreditavam que ela seria a primeira.
Julyanna tinha um sorriso encantador, pele branca, cabelos morenos, altura mediana, olhos castanhos, barriga chapada. Praticava dança de salão, competia por sua escola, era convidada pra danças nas festas de São João. Nessa época Julyanna ainda não namorava, apesar de não faltar pretendentes, se dedicava muito mais a escola, com notas excelentes, e a dança, como esporte.
Diante de todas as possibilidades, Julyanna optou pela escuridão.
Parte dois - Um pouco de virtude
A escrivã me perguntou por que diabos aceitei representar Julyanna como advogado naquela audiência?
É claro que não foi por dinheiro porque bem eu sabia que não existiria razão nesse mundo pra pensar que ela pagaria meus honorários em sua totalidade, fiquei até surpreso de ter recebido um quinto do pactuado.
Também não foi por convicção pessoal ou por sentimento de solidariedade porque eu sei que ela é culpada e não pode existir razão nesse mundo que me faça solidarizar com alguém tão ruim, não existem motivos pra sentir empatia por Julyanna.
No dia em que Julyanna fugiu de Goiânia pra sabe-se lá onde todos sabiam que ela iria se prostituir, me fiz de desentendido e a levei na rodoviária, senti-me aliviado por ter despachado esse entulho de nossas vidas e desejei que ela nunca mais voltasse.
As pessoas me perguntam se eu tenho remorso ou vergonha de alguém com o qual me relacionei ter se tornado isso e de verdade, disso eu não tenho.
De toda escuridão que se tornou Julyanna, isso é a única coisa que me faz ver um pouco de virtude nela, porque de todos os crimes que ela cometeu, de todas as pessoas que ela passou pra trás, de todos os sonhos que ela destruiu, de todas as famílias que ela fez desmoronar, de todos os golpes que ela aplicou, de todas as pessoas que decepcionou e deixou pra trás, inclusive nosso filho, de todas as decepções e vexame que ela causou pra sua própria mãe, vó e na verdade de todos que passaram em seu caminho, porque creio não ter havido ninguém nessa vida que ela não tenha magoado.
De tudo isso, de tudo que ela fez, creio que a única em que dava pra ver alguma virtude seria em se prostituir porque apesar da imoralidade é o único ato que Julyanna realizou em toda sua vida adulta que não tenha sido de alguma forma ilegal e que não prejudica ninguém a não ser ela mesma.
Parte Três - A morte de Julyanna
Esses dias Julyanna me mandou um monte de mensagens pedindo desesperadamente pra que eu explicasse pra num sei quem (na verdade um monte de pessoas) o que aconteceu quatro anos atrás.
Não tive paciência de ouvir todos os áudios que ela me mandou, mas ela escreveu que "estava um veneno".
Creio ter chegado no limite da minha paciência.
No futuro, meu filho vai decidir o que pensar a respeito de Julyanna, é uma decisão que só cabe a ele e não cabe a mim influenciar.
Fico triste porque esse domingo é dias das mães, ele chegou em casa contando que está tendo balinhas e chocolates na escola dele essa semana toda porque "é dia das mães pai, eu tenho mamãe, eu tenho a Bee, eu tenho a vovó, tem a titia, é dia da mães pai, é dia da Bee, é dia da vovó, é dia da titia, é dia do papai..."
Essa decisão cabe a ele, eu não permito que jamais alguém ofenda a Julyanna aqui em casa, não permito mesmo e já levei até soco na cara por causa disso, mas eu creio que isso é o maior exemplo que posso dar pra meu filho acerca de como se deve tratar uma mulher, que é com respeito, apesar e em qualquer espécie de circunstância.
Mas Julyanna passou dos limites, dessa vez ela extrapolou todas as regras possíveis e tive que registrar um boletim de ocorrências contra ela. Então a escrivã me perguntou por que diabos eu aceitei fazer aquela audiência como advogado de Julyanna? E não teve como responder isso em voz alta, mas era porque eu vi um pouco de dignidade na atitude de se prostituir, passou pela minha cabeça a hipótese de que, talvez, Julyanna, tivesse decidido nunca mais prejudicar alguém que não fosse ela própria nessa vida. Infelizmente eu estava errado.
Então me perguntaram se eu esperava ver ela punida, presa, condenada, se eu esperava alguma justiça pra Julyanna nessa vida.
E na verdade pra mim tanto faz, ela está morta mesmo. Ela morreu e agora vaga pelo mundo do inferno como naquele desenho do Caverna do Dragão.
Julyanna não tem pra onde ir, não tem uma pessoa se quer nesse mundo que sinta orgulho ou saudade ou se quer compaixão por ela, não há ninguém no mundo que goste dela.
Os familiares de Julyanna sentem vergonha da pessoa que ela se tornou, ela não é bem vinda em sua própria casa.
Julyanna não vê seus filhos há mais de dois anos, eles são pequenos e vão crescer sem ela em suas vidas, o coraçãozinho deles (do meu com certeza) já está preenchido com o amor e companhia das pessoas que fazem realmente parte de suas vidinhas.
Julyanna utiliza nomes falsos em redes sociais porque existem dezenas de pessoas a procurando, existem pessoas que querem vê-la no mínimo morta ou presa.
Julyanna não pode ter plano de telefone controle ou pré pago, Julyanna muda de número a cada duas semanas pra não ser achada, Julyanna vive nas sombras, ninguém sabe onde ela realmente está.
Julyanna não pode ter conta bancária porque todo dinheiro seria comido pela Justiça, Julyanna não pode ter bens em seu nome, não pode ter residência fixa, não pode se quer trabalhar de carteira assinada, Julyanna deve ter votado pela última vez na eleições entre o Lula e Alckmin, ela não tem direitos políticos vigentes, Julyanna se quer pode viajar de avião.
Julyanna mora em uma casa de prostituição e vez por outra é assaltada ou extorquida por agiotas, cafetões e gente da pior espécie. E o pior de tudo é que essas são as únicas pessoas que ela ainda pode contar porque não existe mais ninguém nesse planeta que daria um voto de confiança pra Julyanna.
Julyanna está morta. Talvez ela exista, mas não de verdade. Ou talvez esteja morta mesmo quem vai saber? Se por acaso aconteceu isso alguém reparou? Se acontecer alguém sentiria falta?
por Chaves
sexta-feira, 3 de maio de 2019
Aquela História Que Eu Contei
Parte Um - Um sorriso
Sei lá pode parecer clichê, mas até hoje sempre que eu lembro dela é o sorriso que me vêm na cabeça. Me lembro que ela estava sorrindo pra mim, literalmente, foi o que ela disse, eu tive que perguntar por que ela não parava de sorrir, ela disse "não estou rindo de você, estou rindo pra você não percebe?"
Isso é algo tão misterioso em meio a imensidão de possibilidades, me pergunto: estaria ela realmente apaixonada por mim?
Parte Dois - Variáveis infinitas
Não tenho certeza se foi no meu aniversário de doze anos uma pastora orou por mim e disse que eu seria um "pregador de boas novas", não sei, ao certo, se foi uma profecia ou só uma palavra mesmo, mas a verdade é que nessa época eu sonhava em ir pra Israel, a terra prometida, a terra de Abrão de Isaque e de Jacó, a terra de Davi, a terra de Jesus, filho de Davi.
Eu pensava nessa época que os judeus sempre foram o povo de Deus e que a maior obra missionária que poderia existir seria em Israel, o maior evento que poderia acontecer no planeta seria o reencontro dos judeus com o Deus vivo.
Hoje eu me pergunto qual decisão tomada, qual momento, qual o momento exato em que aconteceu algo na minha vida que me tornou uma pessoa tão diferente daquele garoto de doze anos de idade?
Em outro momento da minha vida fiquei fascinado pela Herbalife, eu tinha doze anos também foi meio que na mesma época. Pra quem não sabe eu fui uma criança gordinha e perdi 12 quilos em três meses com o shake de morango e o incrível chá verde, me tornei garoto propaganda, fui levado nas reuniões semanais, mensais e até naquelas que acontecem em São Paulo apenas para pessoas com a qualificação adequada na escala do marketing network, fui pra Santa Catarina e conheci o Beto Carreiro pela Herbalife, eu decorei o plano de carreira, eu iria ser presidente da herbalife e só não fui porque não existia a possibilidade de emancipação com aquela idade e não havia maneiras de se cadastrar me cadastrarem na Herbalife.
Parte Três - A festa da Gabriela Hadler
Meu caro amigo Waly sumiu naquele sábado e acabou perdendo a festa de quinze ano da Gabriela Hadler, o momento em que toda minha existência seria colocado de cabeça pra baixo.
Sex and beach era o nome da batida, parece inofensivo, mas é vodka pura.
A Gabriela Hadler estava linda, nem parecia aquela menina gordinha que me mordia e beliscava nas aulas de natação alguns anos antes.
A Gisela também estava bonita, mais pra linda e estava dançando provocante do outro lado do salão. Eu e metade dos meus amigos éramos apaixonados por ela e ela sabia. Eu queria falar com ela, mas percebi que não ia rolar, ela era mulher e eu ainda menino, mesmo com pouca idade, tive o discernimento crítico de que era melhor recuar.
Então ela apareceu. "Ela", ela mesma, aquela da história que já contei. Ela sorriu pra mim, eu tinha consciência disso a conhecia de outra vida, sabia que ela estava sorrindo pra mim e não de mim.
Naquela noite ela ainda era uma menina inocente, eu sabia disso. Eu sabia que em algum momento ela conheceria um homem que seria seu príncipe encantado, que seria o homem que lhe arrancaria suspiros e que a deixaria na lua de mel, causando feridas irreparáveis. Eu conhecia a história daquela garota.
Servi um salgadinho pra mim e também a servi, ela me disse "pensei que você era metido, achei que não ia dividir comigo", eu disse pra ela que talvez em outra vida eu não tivesse dividido mesmo. Ela sorriu, mais uma vez para mim, aliás foi a primeira vez que ela sorriu pra mim.
As vezes nos perguntamos como? Mas o universo é cheio de possibilidades. Ela estava naquela festa, estava mesmo, na festa que mudaria meu mundo pra sempre, descobri isso porque ela tem a Gabriela Hadler no face e então ela estava ali... esbarrei com ela, ela sorriu pra mim. Será?
Será que em alguma dimensão em alguma possibilidade a história pode ter sido assim? Caro Waly, você que não foi aquela festa será que me entende?
Parte Quatro - Sou e não Sou
Neste universo a cerveja faz parte de nossas vidas, ela está em todas as ocasiões. Eu sou o cara que não conseguiria suportar uma existência sem a cerveja, pra mim não adiantaria de nada o emprego dos sonhos, a família dos sonhos, esposa, filhos, amigos, respeito, sucesso, bens materiais, bens imateriais, tudo que se possa pensar... nesta dimensão eu sou o cara que trocaria tudo isso pela simples possibilidade de ter a cerveja em minha vida.
Entretanto, existe uma dimensão em que a cerveja não seja importante. Talvez eu seja um pregador de boas novas, talvez o presidente da Herbalife, talvez tenha uma banda de rap, talvez seja uma pessoa comum não importa, mas existe uma dimensão na qual a cerveja não faz parte da minha vida.
Então por alguma razão eu tive uma experiência de quase morte, de verdade tive mesmo, estava tendo uma parada cardíaca em sonho e tive que lutar muito pra acordar porque se continuasse dormindo iria morrer. Eu respirei e gritei ao mesmo tempo, bem fundo e então acordei gritando, mas pelo menos vivo e aliviado.
Desde então eu sou as duas pessoas, as duas consciências estão aqui, eu sou o cara que não vive sem cerveja e ao mesmo tempo o cara que a cerveja não faz parte da minha vida. De alguma forma consegui traduzir as duas consciências na minha mente, eu sou as duas pessoas. Eu sou e ao mesmo tempo não sou.
Isso é um milagre, mas veja bem são apenas duas possibilidades. E quantas outras devem existir?
por chaves
Sei lá pode parecer clichê, mas até hoje sempre que eu lembro dela é o sorriso que me vêm na cabeça. Me lembro que ela estava sorrindo pra mim, literalmente, foi o que ela disse, eu tive que perguntar por que ela não parava de sorrir, ela disse "não estou rindo de você, estou rindo pra você não percebe?"
Isso é algo tão misterioso em meio a imensidão de possibilidades, me pergunto: estaria ela realmente apaixonada por mim?
Parte Dois - Variáveis infinitas
Não tenho certeza se foi no meu aniversário de doze anos uma pastora orou por mim e disse que eu seria um "pregador de boas novas", não sei, ao certo, se foi uma profecia ou só uma palavra mesmo, mas a verdade é que nessa época eu sonhava em ir pra Israel, a terra prometida, a terra de Abrão de Isaque e de Jacó, a terra de Davi, a terra de Jesus, filho de Davi.
Eu pensava nessa época que os judeus sempre foram o povo de Deus e que a maior obra missionária que poderia existir seria em Israel, o maior evento que poderia acontecer no planeta seria o reencontro dos judeus com o Deus vivo.
Hoje eu me pergunto qual decisão tomada, qual momento, qual o momento exato em que aconteceu algo na minha vida que me tornou uma pessoa tão diferente daquele garoto de doze anos de idade?
Em outro momento da minha vida fiquei fascinado pela Herbalife, eu tinha doze anos também foi meio que na mesma época. Pra quem não sabe eu fui uma criança gordinha e perdi 12 quilos em três meses com o shake de morango e o incrível chá verde, me tornei garoto propaganda, fui levado nas reuniões semanais, mensais e até naquelas que acontecem em São Paulo apenas para pessoas com a qualificação adequada na escala do marketing network, fui pra Santa Catarina e conheci o Beto Carreiro pela Herbalife, eu decorei o plano de carreira, eu iria ser presidente da herbalife e só não fui porque não existia a possibilidade de emancipação com aquela idade e não havia maneiras de se cadastrar me cadastrarem na Herbalife.
Parte Três - A festa da Gabriela Hadler
Meu caro amigo Waly sumiu naquele sábado e acabou perdendo a festa de quinze ano da Gabriela Hadler, o momento em que toda minha existência seria colocado de cabeça pra baixo.
Sex and beach era o nome da batida, parece inofensivo, mas é vodka pura.
A Gabriela Hadler estava linda, nem parecia aquela menina gordinha que me mordia e beliscava nas aulas de natação alguns anos antes.
A Gisela também estava bonita, mais pra linda e estava dançando provocante do outro lado do salão. Eu e metade dos meus amigos éramos apaixonados por ela e ela sabia. Eu queria falar com ela, mas percebi que não ia rolar, ela era mulher e eu ainda menino, mesmo com pouca idade, tive o discernimento crítico de que era melhor recuar.
Então ela apareceu. "Ela", ela mesma, aquela da história que já contei. Ela sorriu pra mim, eu tinha consciência disso a conhecia de outra vida, sabia que ela estava sorrindo pra mim e não de mim.
Naquela noite ela ainda era uma menina inocente, eu sabia disso. Eu sabia que em algum momento ela conheceria um homem que seria seu príncipe encantado, que seria o homem que lhe arrancaria suspiros e que a deixaria na lua de mel, causando feridas irreparáveis. Eu conhecia a história daquela garota.
Servi um salgadinho pra mim e também a servi, ela me disse "pensei que você era metido, achei que não ia dividir comigo", eu disse pra ela que talvez em outra vida eu não tivesse dividido mesmo. Ela sorriu, mais uma vez para mim, aliás foi a primeira vez que ela sorriu pra mim.
As vezes nos perguntamos como? Mas o universo é cheio de possibilidades. Ela estava naquela festa, estava mesmo, na festa que mudaria meu mundo pra sempre, descobri isso porque ela tem a Gabriela Hadler no face e então ela estava ali... esbarrei com ela, ela sorriu pra mim. Será?
Será que em alguma dimensão em alguma possibilidade a história pode ter sido assim? Caro Waly, você que não foi aquela festa será que me entende?
Parte Quatro - Sou e não Sou
Neste universo a cerveja faz parte de nossas vidas, ela está em todas as ocasiões. Eu sou o cara que não conseguiria suportar uma existência sem a cerveja, pra mim não adiantaria de nada o emprego dos sonhos, a família dos sonhos, esposa, filhos, amigos, respeito, sucesso, bens materiais, bens imateriais, tudo que se possa pensar... nesta dimensão eu sou o cara que trocaria tudo isso pela simples possibilidade de ter a cerveja em minha vida.
Entretanto, existe uma dimensão em que a cerveja não seja importante. Talvez eu seja um pregador de boas novas, talvez o presidente da Herbalife, talvez tenha uma banda de rap, talvez seja uma pessoa comum não importa, mas existe uma dimensão na qual a cerveja não faz parte da minha vida.
Então por alguma razão eu tive uma experiência de quase morte, de verdade tive mesmo, estava tendo uma parada cardíaca em sonho e tive que lutar muito pra acordar porque se continuasse dormindo iria morrer. Eu respirei e gritei ao mesmo tempo, bem fundo e então acordei gritando, mas pelo menos vivo e aliviado.
Desde então eu sou as duas pessoas, as duas consciências estão aqui, eu sou o cara que não vive sem cerveja e ao mesmo tempo o cara que a cerveja não faz parte da minha vida. De alguma forma consegui traduzir as duas consciências na minha mente, eu sou as duas pessoas. Eu sou e ao mesmo tempo não sou.
Isso é um milagre, mas veja bem são apenas duas possibilidades. E quantas outras devem existir?
por chaves
sexta-feira, 19 de abril de 2019
Nazismo
Mateus Capítulo 27,
versículo 22: Perguntou Pilatos: "Que farei então com Jesus, chamado Cristo? "Todos responderam: "Crucificá-o!"
Verso 23: "Por quê? Que crime ele cometeu?" perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais "Crucificá-o!"
Verso 24: Quando Pilatos percebeu que não estava obtendo nenhum resultado, mas, ao contrário, estava se iniciando um tumulto, mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão e disse: "estou inocente do sangue deste homem; a responsabilidade é de vocês".
Verso 25: Todo povo respondeu: "Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!"
por Chaves
versículo 22: Perguntou Pilatos: "Que farei então com Jesus, chamado Cristo? "Todos responderam: "Crucificá-o!"
Verso 23: "Por quê? Que crime ele cometeu?" perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais "Crucificá-o!"
Verso 24: Quando Pilatos percebeu que não estava obtendo nenhum resultado, mas, ao contrário, estava se iniciando um tumulto, mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão e disse: "estou inocente do sangue deste homem; a responsabilidade é de vocês".
Verso 25: Todo povo respondeu: "Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!"
por Chaves
terça-feira, 16 de abril de 2019
Um Louva-Deus
Parte Um - O mais interno possível
Existem tantas possibilidades que jamais conseguiremos imaginar, mas tenho pensado que por todo esse tempo o nosso erro tem sido em olhar pra fora, oceanos, caravelas, continentes, constelações, gravidade, lua. Quanto mais eu estudo mais tenho percebido, a cada momento com um relativo grau de certeza que cresce, que, aparentemente, a resposta parece estar aqui dentro.
Um dia pra Deus é como mil anos e mil anos é como um dia, o Universo é tão grande quanto um indivíduo e um indivíduo é tão grande quanto um universo e quantos indivíduos existem se não como a mesma quantidade de universos que devem existir por aí.
Tenho pensado que cada célula representa no mínimo uma possibilidade, uma característica, uma decisão errada ou correta. Herdamos 24 cromossomos, doze de cada um de nossos pais, então são no mínimo 24 características que podiam ser diferentes em uma escala combinatória, mas quantos espermatoszóides existiam no dia da fecundação? E quantos foram desperdiçados por nossos pais ao longo da vida? Quantas pessoas diferentes poderíamos ser cada um de nós? Quantas versões de nós mesmas existem por aí em realidades paralelas das quais não me refiro a ficção científica, mas a realidades que coexistem dentro de nós a cada estante dentro de cada célula do nosso organismo.
Tenho desperdiçado muitos minutos da minha vida das quais realmente não lembro porque baseei toda a minha felicidade em uma premissa que estava errada, a de que não existe felicidade longe da cerveja. Nesse ponto pode até parecer que perdi toda credibilidade, mas se você parar pra pensar quando foi a última vez que você foi ao cinema, a pizzaria, ao clube, quando aproveitou de verdade uma conversa com seus amigos sem que a cerveja tivesse sido o centro das atenções, ela estava presente em cada uma dessas ocasiões e isso vem se repetindo a vários anos.
A pergunta que vale um milhão de dólares: valeria a pena ser um juiz federal, salário acima dos trinta mil, respeito, renome, carro de lucho, cobertura duplex, filhos maravilhosos, família bem constituída, em fim tudo isso se não existisse aquela cervejinha de toda sexta feira? valeria a pena uma vida inacreditavelemente perfeita nos termos descritos se na nossa vida não existisse cerveja? Por incrível que pareça não valeria a pena, pelo menos não nessa realidade em que vivemos. Mais quantas outras existem dentro deste gigantesco universo que somos nós mesmos? será que estamos simplesmente ignorando todas essas opções? Será que existem um milhão de "eus" trancados dentro da gente, os quais fazemos prisioneiros já a bastante tempo?
Uma viagem interdimensional, talvez seja interna e não externa, o mais interno possível.
Parte Dois - Sobre Doenças e Árvores
Infelizmente vivemos em uma ditadura, uma ditadura que ajudamos a constituir. Quem diria que um dia eu falaria isso, mas cada vez nessa vida que aplaudimos de olhos fechados, sem realmente qualquer censo crítico, cada fez que fechamos os olhos para algumas (algumas, preciso fazer esse parenteses) arbitrariedades da Justiça e do MP, principalmente em Curitiba, fornecemos poder para os que hoje nos dominam. Tornamos a Justiça intocável, um poder acima dos demais, mais poderoso que o moderador.
Hoje vivemos uma ditadura comandada por onze pessoas.
O pior de tudo é que a gente ainda não se deu conta. Deveríamos mandar alimentos e nutrientes para nosso coirmãos, mas na verdade partimos para a guerrilha virtual, onde não roja sangue, mas roja hipocrisia e crueldade. Perdemos o senso crítico, realmente não importa mais quem tem razão, importa quem é a pessoa, se for do nosso lado, defendemos com unhas e dentes, se for do lado de lá, escurraçamos da forma mais cruel que existe. A humilhação em praça pública hoje se tornou virtual e o pior é que estamos piorando.
A internet é um sistema que se assemelha ao das árvores, mas infelizmente nós humanos temos utilizado da forma errada.
Cada árvore em uma floresta consegue se conectar instantaneamente com todas as outras. E quando uma fica doente todas as árvores enviam alimentos e nutrientes porque se uma árvore morre a copa se desfaz e todas sofrem com o clima e as pestes que surgem, nenhuma árvore sobrevive sozinha.
Parte Final - Um Louva Deus
Durante algum tempo da minha vida sobrevivi sozinho, de fato tenho conquistado alguns objetivos que momentaneamente me fazem felizes, mas no geral eu sempre fico doente.
Na maior parte do tempo em que fiquei sozinho conquistei objetivos relevantes relacionados ao estudo, primeiro a OAB que na época me valeu muito esforço, muito mesmo, primeiro porque estava sem meu pai e já disse um homem sem pai é como dinheiro sem lastro. Também porque havia uma mulher grávida de um filho meu e eu não tinha outra forma de dar qualquer tipo de futuro se não fosse por essas conquista e por fim pela precariedade da situação mesmo, na época, todos aqui nesse blog sabem e é até chato ficar repetindo isso, estudei sem livros sem cursinho e só tinha dinheiro pra ir de ônibus duas vezes por semana, nos demais dias ia e voltava a pé.
De certa forma somos tão egoístas com nós mesmos que pra mim hoje isso não vale de nada, estou cego na ideia de ser procurador e qualquer coisa abaixo disso não me satisfaz. É um novo período de solidão, o caminho do sucesso profissional é solitário mesmo, não se chega lá, se não abdicar de muitas coisas, realmente é necessário se trancar no quarto e minimizar seu próprio universo pra uma só coisa, que se deseja bastante. Entretanto, jamais abandonamos a cerveja, e isso é uma tremenda contradição.
Parte de mim está morrendo e a parte que está no controle não fornece nutrientes. A parte que se dedica aos estudos está muito forte e a cada dia cresce mais, entretanto tem sido egoísta e não tem fornecido alimentos para tantas outras partes de mim que estão literalmente morrendo.
O tempo nesse mundo está contra todos nós, em todas as realidades.
Então um Louva - Deus apareceu no meu quarto e me lembrou de Deus, pois dizem que o aparecimento desse bichinho representa prosperidade, saúde e felicidade.
Obrigado Louva- Deus, por me lembrar de ser feliz.
por Chaves
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
Triste realidade num frio aspecto
As emoções já não cabem mais em meu interior
Atitudes humanas me entristecem a cada dia
Toda minha história é passada num filme
Onde o destino se faz ironia
A vida passa tão rápido aos olhos
Escorre rapidamente pelas mãos
Todos os dias me levanto da cama
Como se tudo tivesse sido em vão
Tudo para mim se tornou uma farsa
Desiludido e entregue ao abismo
Após todos esses acontecimentos
Não questione meu pessimismo
Em um belo dia caminhei sozinho
Por uma estrada feliz e iluminada
Mas a dor e a revolta me dominaram
Tudo se passava de uma cilada
Hoje o vazio absoluto me habita
Desesperança pelo que nem vivi
Sabemos que poderia ter sido melhor
Sempre soube que você não quis
Ass: Flipper
Atitudes humanas me entristecem a cada dia
Toda minha história é passada num filme
Onde o destino se faz ironia
A vida passa tão rápido aos olhos
Escorre rapidamente pelas mãos
Todos os dias me levanto da cama
Como se tudo tivesse sido em vão
Tudo para mim se tornou uma farsa
Desiludido e entregue ao abismo
Após todos esses acontecimentos
Não questione meu pessimismo
Em um belo dia caminhei sozinho
Por uma estrada feliz e iluminada
Mas a dor e a revolta me dominaram
Tudo se passava de uma cilada
Hoje o vazio absoluto me habita
Desesperança pelo que nem vivi
Sabemos que poderia ter sido melhor
Sempre soube que você não quis
Ass: Flipper
domingo, 13 de janeiro de 2019
Essa história precisava ser contada (se não ia me consumir algum dia)
Eu a conheci no dia do velório do meu avô, conversamos bastante, ela me perguntou o que eu estava fazendo antes e eu disse que estava tomando tereré. Me levantei para ir ao banheiro pela segunda vez em apenas uma cerveja e a metade da segunda, me desculpei é claro e disse que era por causa do tereré.
Claro que era.
Naquela manhã, um amigo me mandou alguns prints no celular: vou resumir tinha uma menina perguntando se ele não sabia de ninguém solteiro pra apresentar, ele basicamente não se lembrava de ninguém, mas (por incrível que pareça) ela perguntou sobre um amigo dele que estava no churrasco (de dois meses atrás), ele ainda não havia conseguido se lembrar de quem ela falava até que ela especificou um pouco "ah um que se acha e que é extremamente mal educado e vocês chamam ele de doutor", "ah o dr" meu amigo respondeu, ele me mandou a foto dela e eu achei interessante.
Como eu disse a gente conversou bastante, ela me disse que era divorciada, é claro que eu contei sobre a gravidez da Poly e sobre todo o drama de ir a pé pra faculdade, economizar o dinheiro os 20 reais do ônibus/ xerox pra tomar uma caixinha de bávaria nos fins de semana, em fim toda aquela baboseira (que por ser a mais pura verdade) sempre conta a meu favor...
__ Tinha uma impressão super errada de você, na verdade eu te odiei no dia em que nos conhecemos...
Um breve parenteses: (no dia em que nos conhecemos, meu amigo estava dando um churrasco na casa dele o qual eu não iria, pois no dia seguinte iria para o açougue que a gente tinha acabado de comprar, éramos como os caras que tem o segredo da coca cola, nunca andávamos juntos, na semana que ele bebia eu acordava cedo pra abrir o açougue e vice versa. Em fim, eu estava lá apenas para buscar uma maquinha de cartão que chegou pelo correios na casa dele, mas como estava lá aproveitei pra comer um pouco de carne, era cerca de sei lá 19hs e o evento tinha começado de manhã, eu pensei que só eu ia querer carne àquela hora).
__ Você pôs carne só pra você, quem faz isso? você não ofereceu pra ninguém, que metido!
Em fim, eu tentei explicar, mas ela me interrompeu...
__ Olha aí você tentando se explicar por ter sido mal educado comigo, que coisa feia...
__ Tem razão! me desculpa? não tem desculpa, não tem justificativa mesmo, só me desculpa por aquele dia?
Olha só, talvez seja importante mencionar que de manhã eu não pretendia sair com ela, eu estava indo para o enterro do meu avô, olha eu estava triste, é claro, bem triste, mas não era a mesma coisa de quando foi o enterro do meu pai, era completamente diferente, era um enterro de um familiar próximo, importante, mas, em fim, eu estava triste normal, não triste, extremamente triste, quem já perdeu um pai não consegue ficar tão triste assim nunca mais, a gente só fica mais ou menos triste, a partir de então.
Eu liguei pra minha namorada e chamei ela pra aproveitar a promoção dos 3 litrões e ganha o quarto na Sul Bebidas, disse que sei lá, ia ser legal beber um pouco pra conversar sobre meu avô, era isso que eu pretendia fazer naquele dia, mas durante o dia todo ela foi me dando uma série de desculpas.
Pra começar ela não foi ao enterro e pra terminar ela não podia me ver porque tinha que estudar pras provas da semana que vem (isso foi numa sexta - feira).
Aproximadamente por volta das 17:40 eu estava em casa tomando tereré, quando me passou pela cabeça uma certa hipótese meio sem pé nem cabeça, então perguntei pro meu amigo sobre a menina que perguntava por mim mais cedo e ele disse "poxa dr, pensei que você ia deixa passar uma gata dessas!"
Em fim, estava ali. Voltei do banheiro pela terceira vez, cheguei minha cadeira um pouco mais próximo da dela, passei minha mão sob os seus ombros (tipo abraçando) sem pedir permissão e soltei aquele lendário "vem cá", por um momento ela rejeitou, eu continuei ali a abraçando e a olhando até a gente começar a rir e então acho que quem falou vem cá foi ela (háha) e nos beijamos.
Ela é linda, lora, magra, sei lá (é clichê, mas...) o sorriso dela até hoje é a primeira coisa que eu lembro quando penso nela.
Conversamos bastante mesmo. Ela também tinha a própria versão da história dela que ela contava para parecer aquela pessoa humilde/esforçada/encantadora assim como eu: disse que começou a trabalhar na feira quando era criança, que pediu pra mãe dela pra trabalhar porque queria aprender e ganhar seu próprio dinheiro, e que trabalhava na barraca do pastel com o tio do pastel e que trabalhou por anos e que hoje quando ela vai na feira e passa na barraca ela vê as meninas que lá trabalham hoje e que são muito ruins de serviço e ela pensa o quanto era boa... em fim, historiadora formada pela UFG, corretora de imóveis (bico), trabalha na Oi e fazendo faculdade de Enfermagem agora pra realizar o sonho de ter a mesma profissão que a mãe.
Ah ela disse que odiava pessoas que não gostavam de beijar! Coincidência, eu também (abrir novo parenteses: é chato mesmo não é? quando você está com uma garota e só pode dar uns beijinhos nela de vez em quando a cada 40 minutos de papo, ela parece que não gosta, fica torcendo pra retornar ao papo, hahaha) mais um ponto pra essa gata, ela gosta de beijar!
2 Parte
"Come e vaza" foi o conselho que recebi do meu amigo. E isso depois que eu e ela saímos pela segunda vez, dessa vez a busquei no trabalho e fomos em um barzinho a escolha dela onde a cerveja era estupidamente gelada.
Mas antes disso acontecer, eu havia ido a uma festa com outro amigo (sim, meu namoro estava em crise, talvez eu tenha feito tempestade em copo d'agua, talvez não, mas foi feio minha namorada não ir ao enterro do meu avô e era completamente compreensível eu não querer vê la naqueles dias)... e é claro a convidei pra ir (a gata, não a minha namorada, que por coincidência também é muito gata!), ela quase aceitou, mas o ingresso estava meio caro e acabou que ficou pra outro dia e em fim esse dia chegou.
Foi muito bonito, nesse dia a gente ficou o tempo todo de mãos dadas, ela fez bastante carinho no meu cabelo, ficamos um tempo só sentindo mesmo o calor um do outro (aquele momento em que a gente apenas aprecia um ao outro, sem qualquer expectativa sexual ou sentimental, em fim).
Ela perguntou se eu queria ir com ela ao casamento da mãe dela na outra semana. Isso, pais divorciados, ela havia me contado essa história... e então a mãe havia conhecido outra pessoa, estava feliz novamente e iria se casar, cerimônia simples, a festa ia ser num rodizzo de pizza, pra poucas pessoas e ela queria que eu fosse.
Depois deixei ela em casa. Meu amigo perguntou "tava com a gata ne?" "sim", respondi. Ele me mandou um print de uma mensagem dela pra ele dizendo que estava comigo (sim, foi ela que fez isso, não eu. Por mim ninguém ficaria sabendo)., na qual ela dizia "ele não deve estar nem aí pra mim, eu vi tem um monte de conversa de mulher no telefone... ".
3 Parte
Olha essa parte é meio teórica, vamos analisar. Olha só, ela era uma garota legal, vou especificar um pouco mais: ela era linda (de verdade), um corpo quase perfeito ao ponto de ser perfeito e o pior de tudo ela bebe cerveja, ela bebe muita cerveja, ela não é feminista, ela curte modão, ela vai ao Sul Bebidas!!!!!! ela gosta de beijar, ela pediu meu contato pro meu amigo (quem lembra?) então... ela é uma garota legal, tipo a Amy exemplar, se é que me entendem?
Meu amigo estava certo, eu deveria seguir o "come e vaza" porque não existe uma garota tão legal assim, é quase certeza que ela terminou com o namorado (um cara atlético, com um carro melhor que o meu, que estaria nesse exato momento tomando um combo de whiske na santa fé hall) e ela precisava de alguém, ela precisava provar que não estava nas últimas, ela precisava de alguém pra passar o tempo, pra esquecer a solidão, pra matar a carência, pra ir num barzinho, pra passar um tempo, pra tirar uma foto, postar um stories, quem sabe alguém pra levar no casamento da mãe?
Pensando bem não era um namorado, deveria ser um desses caras que entram e saem da vida dela sem pedir permissão, alguém que, se hoje mesmo, ligasse pra ela às 3:45 da manhã conseguiria lavá-la pra casa pra uma noite selvagem, mesmo ela tendo a total consciência de que jamais passaria disso.
Provavelmente nessa vida, ela já conheceu caras legais, assim como eu, caras que deram valor nela, pessoas que perceberam o quanto ela era especial e inteligente, pessoas que imaginaram um futuro com ela, que a trataram de modo descente e proporcionaram a ela paz e segurança por algumas semanas... e ela deve tê los achado bem fofo. Mas é claro que no fim das contas todos esses caras foram jogados pra fora de sua vida como lixos, no exato momento em que o playboyzinho fodão que a despreza apareceu novamente na área a fim de saborear seu pedaço de carne.
Ou talvez não, talvez ela seja mesmo uma doce menina, linda por fora e por dentro, valente, encantadora, esforçada, humilde, simples. A compainha perfeita, a garota perfeita, o par ideal pra tomar cerveja ao meu lado até os nosso 89 anos ouvindo sertanejo universitário, comendo piqui e é claro se beijando.
4 Parte
Olha só, esse foi o dia do casamento da mãe dela, eu não fui. Ela sumiu durante todo tempo que durou a cerimônia e também na pizzaria. Mas depois, ela me mandou uma mensagem já de noite, dizendo que queria me ver, que sentiu minha falta no casamento e perguntou onde eu estava?
Eu estava no hospital. Minha namorada tinha tentado suicídio, na verdade aquela lendária tentativa frustrada de suicídio (com menos da metade dos comprimidos que seriam necessário) para tão somente chamar atenção.
Ela foi lá em casa, depois de alguns dias sem me ver, tentou me conquistar com o sexo, mas eu estava irredutível, ela percebeu que não era somente por causa do enterro do meu vô e começou a chutar o nome das meninas que eu poderia estar conhecendo, em fim, ela acertou, chutou o nome da menina que havia me add no facebbok há poucos dias (no dia do enterro do meu vô) e que estava curtindo tudo que eu postava. Na mosca.
Eu falei pra ela que estava ocupado. Ela perguntou com o quê. Não podia dizer que estava no hospital. Disse que era alguma coisa de ordem pessoal. Ela disse que estava indo ao sul bebidas com uma amiga e que se desse era pra eu dar uma passadinha lá, mais tarde.
Em fim, minha namorada finalmente foi chamada (depois de umas duas horas de espera) pra consulta e não pude entrar, me informaram que ela ia ficar tomando soro por umas duas horas e que eu realmente não poderia entrar. Ou seja, partiu sul bebidas!
Ela me perguntou que assunto era esse de natureza pessoal que era tão importante assim que eu não pude ir ao casamento da mãe dela? Olha, respondi a verdade. Disse que havia ido levar uma amiga no hospital.
A partir de então as coisas mudaram, ela meio que não quis mais me beijar, ficou estranha, em fim. Depois minha namorada me ligou dizendo que estava quase na hora de sair do soro, eu atendi, conversei normal, disse que já estava quase indo.
Eu falei pra ela que iria buscar minha amiga no hospital e deixar ela em casa e que voltaria, mas ela inventou uma desculpa de que a amiga e o namorado (ou ficante sei lá) estavam querendo ir em bora e que eu não precisava voltar, em fim, beleza.
Então, eu estava com vontade de tomar umas (e estava mesmo) e chamei minha namorada recem saída do soro pra passar lá no sul bebidas, isso era umas duas e pouco da manhã.
Quando chegamos e eu estava estacionando o carro, a vi do outro lado da rua na frente de um carro com som numa roda com um monte de cara e nenhum deles era o ficante/namorado/amigo da amiga dela e nem a amiga dela estava lá, só ela... e bebinha e cheia de gente em volta (homens), ela nem me viu, ainda bem, entrei na sul com minha namorada e tomamos algumas, nem vi quando ela saiu.
Parte 5
No dia seguinte, ela me mandou mensagem dizendo que pensava que eu era diferente, mas eu era só mais um desses caras que mentem descaradamente e fingem serem educados e humildes, mas não passam de uns babacas.
Eu perguntei por quê? E ela disse que sabia que eu tinha namorada, que eu tinha ido buscar era minha namorada no hospital.
Eu disse pra ela que sabia que ela tinha mentido, que era mentira aquela história de ir em bora com a amiga e o namorado, disse que a vi no sul bebidas dançando em volta de um carro com um monte de caras...
__ É claro que eu tava lá! e é claro que estava chapada! eu estava triste, eu havia programado passar a noite com você, primeiro você faltou o casamento da minha mãe, depois você chegou quase meia noite na Sul, mas ainda sim eu fiquei feliz por te ver, minha amiga e o namorado ia voltar cedo e era pra gente ficar lá, mas aí eu descobri que você tem namorada!
Olha, essa me pegou de jeito, até que era verossímel a desculpa...
Parte 6
Marcamos de nos ver, eu a buscaria no trabalho e a levaria em casa e (segundo ela) caso merecesse entraria com ela em sua casa pra conversarmos melhor, mas é claro que eu teria que merecer, isto é: minha desculpa pra tudo aquilo teria que ser muito boa, isso eu teria que fazer no carro durante o caminho, que era de aproximadamente 20 minutos.
Disse pra ela quem sim, tinha namorada. E que gostava da menina e muito e tinha até uma foto nossa no istagram com uma legenda que era só um emotion de um coração... e que eu estava a levando bem a sério, mas não parecia que era recíproco, primeiro porque ninguém da família dela sabia da gente, pensei que ela tinha vergonha de mim por causa do Arthur (meu babynho) e por fim, contei do enterro do meu vô que ela não foi, disse que isso era tipo a gota d'agua...
__ E bem nesse momento você apareceu, aliás foi no mesmo dia, te conheci e você foi perfeita no dia, mesmo sem saber que meu vô tinha falecido você de um jeito de me consolar e de me abraçar e me fazer carinho, eu gostei de você de cara...
__ Pera aí então aquele dia foi o dia do enterro do seu vô?
__ E por que não quis ir ao casamento da minha mãe?
__ Uai, se eu fosse meio que ia ser estranho, sua mãe ia pensar que eu sou seu namorado, sei lá...
__ E isso seria algo tão ruim assim?
__ Olha não foi isso que eu quis dizer...
__ Olha o que eu quero dizer é que você gosta daquela menina, eu vi o jeito que você falou com ela no telefone, aliás você é apaixonado por ela, você nem precisava levar ela no hospital se ela vacilou tanto com você... então, vou te dar um tempo, você tem que saber o que quer da vida e aí quem sabe depois a gente marca de se ver, se...
Isso significava o seguinte: a minha explicação não convenceu o suficiente e eu não fui digno de entrar na casa dela aquele dia...
Parte 7
Nesse dia, eu fiquei pensando em tudo que ela me falou, depois que deixei ela em casa, passei na distribuidora e chapei... e o que me pareceu é que ela sei lá, parecia que ela era uma garota legal mesmo e que estava a fim de mim.
Mas no dia seguinte, de ressaca, eu pensei outra coisa: olha acho que faz todo sentido ela ser o outro tipo de garota e pra mim só restam duas opções, uma: eu sou o cara legal que deixa minha namorada pra ficar com ela e a fazê la feliz por poucas semanas ou alguns meses até ser jogado no lixo.
Dois: eu ser o cara que volta pra namorada e a joga no lixo.
Oitava Parte
A tarde ela falou comigo, perguntou por que sumi, disse que não era nada demais. Ela me mandou um emoki ou um memi sei lá, vou explicar: era um cara todo ensanguentado sorrindo e a descrição era assim "quando alguém me atropela e mesmo assim eu perdoo"
Ela disse, "estou me sentindo assim, mas estou com saudade".
Olha não vou mentir, não me recordo mesmo se ela disse saudade ou se ela disse algo do tipo, mas fato é que eu não fui recíproco.
Acho que ela imagino que aquele meme ia significar que estava tudo bem, que eu poderia voltar a me aproximar, que o coração dela estava destroçado, mas ela estava disposta a me dar uma chance.
Ou talvez, isso seja imaginação da minha cabeça porque cá pra nós, uma garota legal como ela poderia achar alguém pra me substituir no mesmo instante, aliás ela devia ter uns 08 contatinhos reservas só esperando eu falhar. Então pensei, tudo bem, deixa pra lá.
Nona Parte
Uma semana depois eu postei no stories do meu whats upp uma foto com a minha namorada. Ela respondeu o stories, dizendo que me desejava tudo de melhor nessa vida e logo em seguida me bloqueou para sempre de todas as redes sociais.
Parte final
Bem... nem pra todo sempre assim, no istagram ela me desbloqueou recentemente, eu solicitei amizade e ela reciprocamente fez o mesmo. Minhas fotos com minha namorada continuam lá, no dela parece que ela segue solteira, ela não curte nada meu, eu acompanho todos os seus stories e ela segue sendo a garota legal.
por Chaves
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